Introito - Me exspectavérunt peccatóres, ut pérderent me: testimónia tua, Dómine, intelléxi: omnis consummatiónis vidi finem: latum mandátum tuum nimis. Beáti immaculáti in via: qui ámbulant in lege Dómini. Glória Patri...Os pecadores armaram-me ciladas para me perderem; porém, Senhor, fixei a minha atenção nos vossos preceitos. Vi o fim de tudo o que é perfeito; só a vossa lei não tem limites. Bem-aventurados os imaculados no seu caminho, que andam na lei do Senhor. Glória ao Pai...
Santa Maria Madalena, outrora cativa nas trevas do pecado, foi resgatada pelo brilho irresistível da Misericórdia Encarnada. A liturgia romana venera nesta data a figura singular da mulher que, após lavar os pés do Salvador com suas lágrimas na casa do fariseu, tornou-se a irmã de Lázaro que escolheu a melhor parte, e a chorosa sentinela ao pé do Calvário. Elevada à suprema glória de ser a primeira testemunha da Ressurreição - a heroica "Apóstola dos Apóstolos" - ela não buscou as glórias deste mundo, mas consumiu o resto de seus dias mortais nas penitências mais austeras. A tradição nos relata que cruzou os mares até a Gália, vivendo reclusa nas grutas agrestes, exalando para o Céu o suave e ininterrupto perfume de sua adoração reparadora. Seus sagrados restos repousam venerados na Basílica de Santa Maria Madalena em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, de onde seu testemunho formidável clama aos pecadores de todos os séculos: não há abismo de miséria que o amor divino não possa transmutar em cume de santidade, desde que a alma se curve em sincero arrependimento.
Onde estão as lágrimas da Igreja nos dias de hoje? Contemplai, ó almas sedentas, a cena magnífica que o Evangelho nos desvela! Um banquete na casa do fariseu, onde reinam as aparências frívolas, a frieza dos corações orgulhosos e a presunção dos que se julgam justos sem necessitar de perdão. É ali, nesse ambiente gélido do mundo, que irrompe a pecadora. Ela não aguarda convites solenes, não teme os olhares altivos, não pede licença à falsa prudência humana que tudo mede e tudo calcula. Hoje, infelizmente, vemos muitos espíritos embriagados pelo fascínio dos aplausos transitórios e pelo conforto dos salões mundanos tentarem persuadir o rebanho de Cristo a abandonar a rudeza da cruz. Introduzem no santuário murmúrios suaves e inovações imperceptíveis, sussurrando que a religião deve afagar os sentidos, moldando-se às exigências da praça pública em vez de curvar-se, em temor e tremor, diante do Deus Altíssimo. Querem um Cristo complacente, uma doutrina sem espinhos, um banquete sem arrependimento. Mas a bem-aventurada Madalena esmaga essa ilusão funesta com o seu vaso de alabastro! Ela nos ensina que a verdadeira adoração exige o sacrifício lancinante do nosso orgulho. O que antes lhe servia de rede para aprisionar almas nos vícios - os seus belos cabelos - converte-se em toalha purificadora para os pés do Senhor; o perfume valioso que alimentava a vaidade carnal agora é derramado sem reservas, quebrado em mil pedaços sobre a carne do Redentor. Acaso não vedes aqui, meus irmãos, o tribunal mais sublime? Suas lágrimas mudas são a mais perfeita confissão; seu coração despedaçado é a verdadeira contrição; seu bálsamo precioso é a justa satisfação que repara as ofensas passadas. Enquanto os convidados murmuram objeções veladas - como ainda hoje fazem os propagadores de fábulas adocicadas que corroem a pureza da fé sob a máscara de uma compaixão enganosa - a voz soberana do Salvador corta o ar, separando a luz das trevas: "Muito lhe foi perdoado, porque muito amou". Em nossa época, na qual o veneno das facilidades ilusórias tenta apagar as chamas do verdadeiro sacrifício expiatório no seio do próprio povo eleito, levantemo-nos como a Esposa heroica do Cântico dos Cânticos! Corramos pelas praças deste mundo em ruínas, sem nos determos diante das sentinelas do erro, buscando unicamente Aquele que nossa alma ama, para beijar a fonte mesma de onde jorra a misericórdia. O amor da Madalena foi mais forte que a morte, suas chamas divinas devoraram o inferno de seus delitos passados. Que a nossa participação nos santos mistérios não seja jamais um frio ajuntamento de ritos exteriores ou um mero cumprimento burocrático, mas um prostrar-se choroso aos pés do Mestre Sagrado, sabendo que a salvação eterna não se encontra na lisonja dos homens de nosso tempo, mas no pranto sincero de uma fé operante que atrai para a alma o olhar perdoador de Deus.
Epístola (Ct 3, 2-5; 8, 6-7) - Levantar-me-ei e andarei pela cidade; pelas ruas e praças procurarei aquele que a minha alma ama; eu o procurei e não o encontrei. Encontraram-me as sentinelas que guardam a cidade [e eu lhes disse:] Não vistes, por acaso, aquele que amo? Quando eu passei por eles, mais adiante, encontrei-me com aquele que é o amado de minha alma. Eu o segurei, e não o deixarei partir até que o introduza na casa de minha mãe e no quarto daquela que me pôs no mundo. [Diz o esposo:] Eu vos suplico, filhas de Jerusalém, pelas gazelas e pelos cervos dos caminhos, não perturbeis, nem desperteis a bem-amada até que eia o queira. [A esposa:] Coloca-me como um selo em teu coração, como um selo em teu braço, pois o amor é forte como a morte e o zelo do amor, inflexível como o inferno: as suas lâmpadas são lâmpadas de fogo e de chamas. Muitas águas não podem extinguir o amor, nem os rios o submergirão. Mesmo que alguém desse todas as riquezas de sua casa pelo amor, seria considerado como um nada.
Evangelho (Lc 7, 36-50) - Naquele tempo, pedira a Jesus, um fariseu, que fosse comer consigo. Entrando em casa do fariseu, Ele se pôs à mesa. E uma mulher que era pecadora na cidade, sabendo que Ele se sentara à mesa, em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro, cheio de bálsamo e prostrando-se a seus pés, atrás d'Ele, com lágrimas se pôs a banhar-Lhe os pés, e a enxugá-los com os cabelos de sua cabeça, beijando-os e ungindo-os com o bálsamo. Vendo isto, o fariseu que convidara a Jesus, pensou em seu íntimo. Se este homem fosse o Profeta, saberia certamente quem é, e de que classe é a mulher que O toca, pois é uma pecadora. Compreendendo-o, Jesus lhe disse: Simão, tenho algo a dizer-te. E ele respondeu: Mestre, falai. [E Este:] Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos dinheiros e o outro cinquenta. Não tendo estes com que reembolsá-lo, ele perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles lhe teria mais amor? Respondeu Simão, dizendo: Penso que aquele a quem mais perdoou. Retrucou-lhe Jesus: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Reparaste nesta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela porém, lavou-mos com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Tu não me beijaste, porém ela, depois que entrou, não cessou de oscular os meus pés. Não me deste óleo para ungir a minha cabeça; ela no entanto, ungiu os meus pés com bálsamo. E por isto, digo-te que muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou. Aquele, porém, a quem se perdoa menos, menos ama. Disse então à mulher: Perdoados estão os teus pecados. E os que estavam à mesa diziam entre si: Quem é Este que até perdoa pecados? E Ele disse à mulher: Tua fé te salvou; vai em paz.