Introito - Multæ tribulatiónes justórum, et de his ómnibus liberávit eos Dóminus: Dóminus custódit ómnia ossa eórum: unum ex his non conterétur. Ps. Benedícam Dóminum in omni témpore: semper laus ejus in ore meo.Muitas são as tribulações dos justos, e de todas elas o Senhor os livra. O Senhor preserva todos os ossos dos justos e nem um só deles será quebrado. Sl. Bendirei o Senhor em todo o tempo; esteja sempre em minha boca o seu louvor.
No alvorecer sangrento do reinado de Juliano, o Apóstata, imperador que tentou reavivar as cinzas frias do paganismo, ergueram-se como colunas inabaláveis os gloriosos irmãos João e Paulo. Sendo altos oficiais na corte imperial e servidores fiéis da casa de Constantina, filha do imperador Constantino, viram-se subitamente diante da suprema escolha: dobrar os joelhos diante da inútil estátua de Júpiter, garantindo honrarias e confortos efêmeros, ou entregar a cerviz à espada por amor ao Rei dos reis. Escolheram a morte que dá vida. No ano de 362, na penumbra de sua própria residência no Monte Célio, o sangue destes nobres irmãos regou o solo romano, tornando-se semente de imortalidade. A veneração da Santa Mãe Igreja por estes heróis é tão vetusta e profunda que seus nomes gloriosos foram engastados, como joias eternas, no reverendo Cânon da Missa. Hoje, os corpos dos invictos irmãos repousam vitoriosamente sob o altar da venerável Basílica de São João e São Paulo, santuário edificado sobre os próprios alicerces de sua antiga casa, clamando aos céus a vitória inegável da fé sobre as ilusões do mundo terrenal.
"Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia!" Com esta severa advertência, o Divino Mestre fulmina, no Evangelho de hoje, o vício terrível da duplicidade. Vede, amados irmãos, como o mundo respira hoje este mesmo fermento amargo! Em nossa época adoecida, as almas embriagaram-se com a facilidade e o prazer fugaz, fugindo da aspereza da Cruz como se foge de uma serpente peçonhenta. Há um afã desesperado por aplausos humanos, uma mórbida busca pela aceitação terrena que, qual fumaça densa e negra, adentrou no próprio santuário. Sob o manto de sorrisos complacentes e discursos moldados para massagear os ouvidos humanos, a verdade límpida é velada, e as exigências do sacrifício são trocadas por inovações sutis e concessões covardes, tudo para evitar o incômodo de desagradar àqueles que amam as trevas. Mas olhai atentamente para o altar! Olhai para os paramentos vermelhos que a Igreja enverga neste dia sagrado! Eles nos gritam que a religião verdadeira não é um teatro de condescendências, mas uma via de sangue, de abnegação e de fidelidade absoluta. Quando Juliano, o Apóstata, tentou restaurar a idolatria através de favores políticos e ameaças implícitas - um perigo tão espantosamente semelhante às seduções do nosso próprio tempo - os santos mártires João e Paulo levantaram-se como muralhas contra a deserção de sua época. O grande Santo Ambrósio nos recorda que a hipocrisia é um veneno que corrói a fé autêntica; por isso, estes irmãos de sangue rejeitaram a encenação patética de servir a dois senhores. Eles gravaram no coração as palavras do Salvador: "Não tenhais medo daqueles que matam o corpo". Santo Agostinho ensina de forma magistral que o martírio é o desprendimento das correntes terrenas para o abraço confiante na Providência. O que é a lâmina do algoz diante do abismo insondável do inferno? O que é a perda de uma posição cômoda na corte imperial diante da perda irremediável da visão de Deus? O abençoado São Basílio reforça que o temor reverente ao Senhor dissipa todo o medo da morte material. A Igreja não exalta na glória dos altares os covardes e os amantes de consensos; a Epístola aclama em voz de trovão que "os bens que deixaram permanecem para sua posteridade", pois edificaram sua casa não sobre as areias mutáveis do aplauso moderno, mas sobre a Rocha sólida de Cristo. Acaso não valemos mais que os passarinhos, cujo voo o olhar do Criador acompanha e sustenta? Por que, então, trememos diante do julgamento de homens mortais? Quando o sacerdote beijar a pedra do altar, onde repousam as relíquias de tantos mártires, juntai vossas almas à deles. Arrancai do coração o desejo vil de agradar ao mundo e confessai publicamente a Cristo com vossas palavras e com vossa vida, para que, no dia terrível e glorioso do Juízo Final, o Filho do Homem vos confesse diante dos Anjos de Deus no esplendor da eternidade!
Epístola (Eclo 44, 10-15) - Estes eram homens de misericórdia, cujas obras de piedade subsistem para sempre. Os bens que deixaram permanecem para sua posteridade; seus descendentes são uma santa herança e sua raça ficou fiel à aliança. Por causa deles, seus filhos permanecem eternamente e sua glória não terá fim. Seus corpos foram sepultados em paz e seus nomes viverão de geração em geração. Exaltem os povos sua sabedoria e a Igreja proclame os seus louvores.
Evangelho (Lc 12, 1-8) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é hipocrisia. Porque nada há tão oculto que se não venha a descobrir, e nada escondido, que se não venha a saber. Por isso as coisas que dissestes nas trevas, serão ditas às claras: e o que falastes ao ouvido, no recôndito de vossos cubículos, será apregoado de cima dos tetos. Digo-vos, porém, a vós, que sois meus amigos: Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, e depois nada mais podem fazer. Eu vos mostrarei entretanto a quem haveis de temer: temei Aquele, que depois de matar, tem poder de lançar no inferno. Sim, eu vos digo, temei a Este. Porventura não se vendem cinco passarinhos por dois vinténs? E todavia, nem um só deles está em esquecimento diante de Deus. Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois vós valeis mais que muitos pássaros. Ora, eu vos digo: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos Anjos de Deus.