🛡️Nascido na Panônia, atual Hungria, por volta de 316, Martinho era filho de um tribuno romano e foi forçado a seguir a carreira militar. Ainda catecúmeno, aos 18 anos, encontrou um mendigo tremendo de frio às portas da cidade de Amiens, na Gália. Sem hesitar, cortou seu manto ao meio com a espada e deu uma parte ao pobre. Naquela noite, Cristo apareceu-lhe em sonho, vestido com a metade do manto, dizendo aos anjos: "Martinho, que é ainda catecúmeno, cobriu-me com esta veste". Este evento selou sua vocação. Após ser batizado, deixou o exército e tornou-se discípulo de Santo Hilário de Poitiers, fundando em Ligugé o primeiro mosteiro da Gália. Aclamado pelo povo, foi eleito Bispo de Tours em 371, contra sua vontade. Mesmo como bispo, manteve a vida de monge, fundando outro mosteiro, Marmoutier, de onde governava sua diocese. Foi um incansável evangelizador das zonas rurais, destruindo ídolos pagãos e estabelecendo paróquias. Sua vida foi um testemunho de caridade, humildade e zelo apostólico, tornando-se um dos primeiros santos não mártires a receber veneração litúrgica oficial na Igreja Ocidental. Morreu em Candes, no ano de 397.
📖Epístola (Eclo 44, 16-27; 45, 3-20)
Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus e foi considerado justo; no tempo da ira, tornou-se a reconciliação dos homens. Ninguém o igualou na observância das leis do Altíssimo. Por isso o Senhor jurou que o havia de glorificar em sua descendência. Abençoou nele todas as nações e confirmou sua aliança sobre a sua cabeça. Distinguiu-o com as suas bênçãos; conservou-lhe a sua misericórdia e ele achou graça diante do Senhor. Enalteceu-o diante dos reis e deu-lhe uma coroa de glória. Fez com ele uma aliança eterna; deu-lhe o sumo sacerdócio, e encheu-o de felicidade na glória, para exercer o sacerdócio, cantar louvores a seu Nome e oferecer-Lhe dignamente incenso de agradável odor.
✝️Evangelho (Lc 11, 33-36)
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ninguém, acendendo uma luz, a coloca em lugar escondido, nem debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz. A luz de teu corpo é o teu olho. Se o teu olho for claro, todo o teu corpo será luminoso; se, porém estiver turvado, também o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, não suceda que a luz em ti seja trevas! Se portanto o teu corpo for todo luminoso sem que parte nenhuma esteja em trevas, todo ele será luminoso, e qual lâmpada fulgurante, iluminar-te-á.
🤔Reflexões
✨O Evangelho de hoje nos apresenta a poderosa metáfora da luz que não deve ser escondida, mas posta sobre o candelabro. A vida de São Martinho de Tours é a encarnação perfeita desta lição. A sua conversão, simbolizada pelo ato de caridade com o manto, não foi um evento privado e oculto, mas uma chama que, uma vez acesa, foi colocada sobre o candelabro do episcopado para iluminar toda a Gália. Jesus adverte: "A luz de teu corpo é o teu olho". O "olho claro" (oculus simplex) é a alma cuja intenção é pura, unicamente direcionada para Deus. São Martinho, ao renunciar à glória militar e às seguranças do mundo por Cristo, purificou o seu "olho", fazendo com que todo o seu "corpo" — suas ações, seu apostolado, sua vida inteira — se tornasse luminoso. Ele não viveu para si, mas para que outros, "os que entram", pudessem ver a luz de Cristo brilhando através dele.
🕊️Santo Agostinho, ao comentar sobre o Sermão da Montanha, aprofunda o significado do "olho claro" como a intenção do coração. Ele ensina: "O teu olho é a tua intenção. Se a tua intenção for pura, todas as tuas obras serão puras" (Comentário ao Sermão da Montanha, 2, 13, 45). A pureza de intenção de São Martinho é o que transformou um simples ato de generosidade num evento teofânico. Ele não viu apenas um mendigo, mas o próprio Cristo, e agiu não por vanglória, mas por amor puro. A Epístola, ao descrever o sacerdote que "agradou a Deus", ecoa este princípio. O agrado divino não reside em atos exteriores grandiosos, mas na retidão interior que os anima. A aliança que Deus "confirmou sobre a sua cabeça" é a consequência de uma vida cujo "olho" estava fixo na vontade divina, tornando cada gesto um sacrifício de "agradável odor".
⛪A vida cristã, portanto, é um chamado a esta transparência luminosa. O Catecismo da Igreja Católica afirma que "a caridade é a alma da santidade à qual todos são chamados" (CIC 826). São Martinho exemplifica que esta caridade não é um mero sentimento, mas a força que purifica a intenção e ilumina as obras. A luz que ele irradiou não era sua, mas a de Cristo, que ele permitiu que brilhasse sem obstáculos. A advertência de Jesus — "Vê, pois, não suceda que a luz em ti seja trevas!" — é um chamado perene ao exame de consciência. As trevas em nós surgem quando o "olho" se turva com o egoísmo, a vanglória ou o apego material. A liturgia de hoje nos convida, pelo exemplo de São Martinho, a suplicar a graça de um "olho claro", para que, livres das trevas da duplicidade, nossos corpos se tornem inteiramente luminosos, candelabros que irradiem ao mundo a única Luz verdadeira: Jesus Cristo.