Livro: A “Nova Teologia”: Os Que Pensam Que Venceram, de Pe. Hirpinus


📜 Biografia de Hirpinus (Pe. Hirpinus)

Hirpinus, frequentemente referido como Pe. Hirpinus, é o pseudônimo adotado por um sacerdote católico tradicionalista italiano, cuja identidade real permanece anônima para preservar a discrição em um contexto de controvérsias eclesiais intensas. Ativo na segunda metade do século XX, ele se destaca como uma voz crítica e erudita dentro do movimento antimodernista, especialmente nos círculos que resistem às reformas do Concílio Vaticano II (1962-1965). Seu trabalho reflete uma formação teológica profunda, provavelmente em seminários romanos ou instituições dominicanas, influenciada pela escolástica tomista e pela tradição contrarrevolucionária católica. Embora detalhes biográficos precisos sejam escassos — uma escolha deliberada para enfatizar a mensagem sobre a pessoa —, fontes indicam que ele era um clérigo ordenado, possivelmente ligado a ordens religiosas conservadoras, e atuante na Europa durante o período pós-conciliar, quando a Igreja enfrentava divisões profundas entre progressistas e tradicionalistas.

Nascido presumivelmente na década de 1920 ou 1930 na Itália (com base em seu engajamento intelectual maduro nos anos 1990), Hirpinus cresceu em um ambiente marcado pela herança do modernismo condenado por São Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis (1907). Essa condenação, que definia o modernismo como a "síntese de todas as heresias", moldou sua visão de mundo, vendo no "aggiornamento" (atualização) promovido por João XXIII e Paulo VI uma reedição sutil desses erros. Sua formação teológica, enraizada na filosofia perene de São Tomás de Aquino, o levou a rejeitar o que denominava "Nova Teologia" — um movimento teológico surgido nos anos 1940, associado a figuras como Henri de Lubac, Yves Congar e Karl Rahner, que buscavam integrar o pensamento moderno à doutrina católica, mas que ele via como uma subversão racionalista da fé revelada.

🛡️ Carreira Inicial e Engajamento Antimodernista

A trajetória de Hirpinus como escritor e polemista inicia-se nos anos pós-Vaticano II, um período de turbulência eclesial. Como sacerdote, ele testemunhou de perto os efeitos das reformas litúrgicas (como a Nova Missa de Paulo VI, 1969) e doutrinais, que, em sua análise, diluíram a ortodoxia católica em nome do ecumenismo e do diálogo com o mundo secular. Sua proximidade com o episcopado tradicionalista — possivelmente influenciado por figuras como o arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em 1970 — o posicionou como um observador privilegiado da crise. Ele colaborou com publicações antimodernistas italianas, como o jornal Sì Sì No No (fundado em 1984), que servia como tribuna para denunciar infiltrações modernistas na hierarquia eclesial.

Nos anos 1980 e início dos 1990, Hirpinus emergiu como um dos mais incisivos críticos da "Nova Teologia". Influenciado pelo dominicano Réginald Garrigou-Lagrange (1877-1964), o "guardião da ortodoxia" que previu os perigos dessa nova orientação em artigos de 1946-1947 na revista Angelicum, Hirpinus adotou uma abordagem documental e analítica. Seus textos, caracterizados por uma erudição meticulosa e um tom profético, citam extensivamente encíclicas papais, atos conciliares e obras dos teólogos modernistas, expondo contradições com a tradição imutável da Igreja.

🏛️ Visões Políticas e Ideológicas: O Combate à Subversão Espiritual

Como católico tradicionalista, Hirpinus alinhava-se à linha antimodernista de Pio X e Pio XII, vendo na Nova Teologia uma "guerra oculta" contra a Igreja. Ele criticava o ecumenismo vaticano como sincretismo, o colegialismo episcopal como erosão da primazia petrina e a liberdade religiosa (Dignitatis Humanae) como inversão do dever do Estado de coagir o erro. Sua teologia era essencialmente tomista: defesa da imutabilidade dos dogmas, da graça extrínseca e da liturgia como sacrifício propiciatório. Influenciado por Lefebvre e pelo Sì Sì No No, ele via a crise como providencial, chamando os fiéis à resistência, sem cismas declarados, mas com obediência ao Magistério perene.

✨ Atividades Pós-Publicação e Legado

Após 1993, Hirpinus continuou a contribuir para publicações tradicionalistas, possivelmente até os anos 2000, mas sua produção diminuiu com a idade avançada. Não há registros de obras subsequentes sob o mesmo pseudônimo, sugerindo que ele se retirou para uma vida de oração e estudo. Sua morte não é datada publicamente, mas estima-se que tenha ocorrido na década de 2010.

O legado de Hirpinus é polarizador: para tradicionalistas, ele é um profeta que desmascarou a "subversão espiritual" (ecoando a Humani Generis de Pio XII, 1950); para progressistas, um fundamentalista. Seu livro é citado em palestras e conferências antimodernistas e influenciou autores como os padres Álvaro Calderón e Dominic Bourmaud, reforçando o discurso de que a crise eclesial tem raízes na teologia do século XX. Hoje, em meio a debates sobre o Sínodo da Sinodalidade (2021-2024), suas análises ganham nova relevância, alertando contra uma "evolução" doutrinária que, em sua visão, leva à apostasia.

📖 A Obra Principal: A “Nova Teologia”: Os Que Pensam Que Venceram

Sua contribuição mais significativa é a série de artigos publicados entre fevereiro e outubro de 1993 no Courrier de Rome (uma revista antimodernista ligada ao Sì Sì No No), sob o título coletivo "Os Que Pensam Que Venceram". Esses textos foram compilados e editados em 2001 pela Editora Permanência (Rio de Janeiro, Brasil), com o título completo A “Nova Teologia”: Os Que Pensam Que Venceram. O livro é uma análise incisiva da teologia modernista como força subversora dos fundamentos da fé católica, denunciando seus erros doutrinais e impactos devastadores nos seminários, sacramentos e liturgia.

Estruturado em nove capítulos, o volume examina os líderes da "Nova Teologia" e suas raízes filosóficas:
Introdução: Contextualiza o movimento como herdeiro do modernismo, influenciando o Vaticano II e promovendo uma "evolução" da doutrina que relativiza dogmas imutáveis.
Capítulos Analíticos: Dedica seções a figuras-chave, como Maurice Blondel (pioneiro do imanentismo), Henri de Lubac (crítico da "extrinsecidade" da graça), Hans Urs von Balthasar (teólogo da "esperança universalista"), Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI, acusado de ambiguidade hermenêutica) e outros como Yves Congar e Karl Rahner. Hirpinus argumenta que esses pensadores, ao integrar o pensamento hegeliano e fenomenológico, substituíram a teologia objetiva por uma subjetiva, onde a fé "torna-se" em vez de "ser".
Prefácio e Anexo: Inclui um prefácio de Mons. Francesco Spadafora (teólogo italiano, 1913-1996), que endossa a crítica como "urgente e necessária", e um anexo com o ensaio de Garrigou-Lagrange "Para Onde Vai a Nova Teologia?", prevendo o colapso doutrinário.

O livro denuncia como a Nova Teologia se infiltrou nos seminários (promovendo uma formação "pastoral" em detrimento da especulativa), nos sacramentos (relativizando sua eficácia ex opere operato) e na liturgia (transformando o rito em "celebração comunitária" antropocêntrica). Hirpinus vê nisso uma "vitória ilusória" dos modernistas, que "pensam que venceram" porque ignoram a promessa de Mateus 16:18 ("as portas do inferno não prevalecerão").

🌩️ Introdução: O triunfo da seita modernista e a crise eclesial

A obra constitui uma denúncia vigorosa e documentada acerca da infiltração, ascensão e aparente vitória do modernismo no seio da Igreja Católica, sob a alcunha de "Nova Teologia". O texto, compilado a partir de artigos do periódico Sì Sì No No, estabelece como premissa fundamental que a crise atual da Igreja não é fruto do acaso, mas o resultado de uma "resistência às vezes passiva, mas real" (p. 36) ao Magistério tradicional, operada por uma "seita" organizada que, desprezando as condenações de São Pio X na Pascendi e de Pio XII na Humani Generis, logrou impor suas doutrinas heterodoxas no Concílio Vaticano II e no período pós-conciliar.

Mons. Francesco Spadafora, no prefácio, recorda a advertência do Cardeal Billot sobre os perigos de um concílio, prevendo que este seria manobrado pelos "piores inimigos da Igreja, ou seja, pelos modernistas" (p. 12). A obra demonstra que a "Nova Teologia" não é senão um retorno ao modernismo condenado, caracterizado pelo desprezo à filosofia escolástica e pela tentativa de reconciliar a Igreja com os princípios da filosofia moderna, imanentista e subjetivista.

🧠 A raiz filosófica: O erro de Maurice Blondel e o desprezo pela verdade

O fundamento intelectual da derrocada teológica é identificado na filosofia de Maurice Blondel. O texto argumenta que a "Nova Teologia" opera uma perversão da noção eterna da verdade. Enquanto a doutrina católica, apoiada no tomismo, define a verdade como adaequatio rei et intellectus (a conformidade da mente com a realidade objetiva), Blondel e seus seguidores propõem uma definição subjetivista: a conformidade da mente com a vida (adaequatio realis mentis et vitae).

Segundo o Padre Garrigou-Lagrange, no anexo da obra, esta substituição é fatal: "A verdade já não é a conformidade do julgamento com o real extramental e suas leis imutáveis, mas a conformidade do julgamento com as exigências da ação e da vida humana que evolui sempre" (p. 187). Blondel, protegido por amizades influentes e operando através de uma linguagem ambígua, introduziu o imanenentismo na apologética cristã, sustentando que "nada pode entrar no homem que não venha dele" (p. 50), o que destrói a gratuidade da ordem sobrenatural. O texto revela a "simbiose intelectual" entre Blondel e Henri de Lubac, onde o primeiro forneceu a base filosófica para que o segundo destruísse a teologia tradicional.

🌫️ Henri de Lubac e a destruição da distinção natureza-sobrenatural

Henri de Lubac é apresentado como o "pai" da Nova Teologia e um mestre da desobediência dissimulada. Sua formação é descrita como defeituosa, marcada por uma leitura apaixonada de filósofos modernos e um desprezo pela escolástica, a qual ele e seus pares "nunca aderiram e nunca compreenderam bem" (p. 65). O erro capital de De Lubac, condenado por Pio XII na Humani Generis, consiste na negação da possibilidade de uma "natureza pura". Ao afirmar que o sobrenatural é uma exigência necessária da natureza humana, De Lubac naturaliza a graça e destrói a sua gratuidade.

Esta confusão entre natureza e sobrenatural é a chave para compreender o ecumenismo moderno e a secularização da Igreja. Se o sobrenatural é intrínseco à natureza, a distinção entre cristãos e não-cristãos se esbate, conduzindo ao indiferentismo. O texto denuncia que De Lubac e sua "turma" agiram como uma sociedade secreta (clandestinum foedus), mantendo uma submissão externa enquanto minavam a doutrina por dentro.

🤝 Urs von Balthasar e a apostasia ecumênica

Urs von Balthasar é retratado como a encarnação do aspecto pseudomístico e delirante da Nova Teologia. Desprovido de formação teológica sólida e avesso à escolástica, Balthasar baseia sua teologia nas alucinações da "mística" Adrienne von Speyr e na filosofia hegeliana. A obra critica duramente a tese de Balthasar de que "o inferno existe, mas está vazio", o que contradiz o dogma da reprovação e a Fé constante da Igreja (p. 23).

Mais grave ainda é a sua eclesiologia ecumênica. Utilizando a dialética de Hegel, Balthasar vê a Igreja Católica não como a única Igreja de Cristo, mas como uma das muitas "configurações eclesiais" que devem morrer para dar lugar a uma "Super-Igreja" ou "A Católica" (p. 95). Para ele, as contradições entre religiões são apenas momentos dialéticos necessários para uma síntese futura. O texto classifica este pensamento como um "delírio ecumênico" e uma proposta de apostasia, onde a Igreja deve integrar o erro para alcançar uma plenitude jamais realizada na história.

👑 A cumplicidade da hierarquia: Paulo VI e o "golpe de mestre de Satanás"

A obra é enfática ao atribuir a vitória do modernismo à cumplicidade da mais alta autoridade da Igreja. Paulo VI (Giovanni Battista Montini) é descrito como um filomodernista desde a juventude, admirador de Blondel e protetor de De Lubac. O texto revela que, enquanto Substituto na Secretaria de Estado, Montini agiu pelas costas de Pio XII para minimizar o alcance da Humani Generis e proteger os teólogos heterodoxos (p. 106).

Como Papa, Paulo VI utilizou sua autoridade para impor a Nova Teologia, permitindo que os peritos modernistas redigissem os documentos do Vaticano II. A sua gestão é caracterizada como uma traição ao mandato petrino, colocando a força do Papado a serviço da demolição da Fé. "O golpe de mestre de Satanás", segundo o texto, reside no fato de que a autoridade criada para defender a Fé foi usada para destruí-la.

🔄 Ratzinger e João Paulo II: A continuidade do erro

O texto desfaz o mito de que o Cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI) e o Papa João Paulo II seriam conservadores ou restauradores. Ratzinger é analisado como um "novo teólogo" cuja cristologia é evolutiva e antropocêntrica. Em sua obra Introdução ao Cristianismo, Ratzinger redefine a pessoa de Cristo não como Deus que se fez homem, mas como um homem que, por sua total abertura aos outros, "veio a coincidir com Deus" (p. 119), aproximando-se das heresias de Teilhard de Chardin. Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger é acusado de proteger seus colegas modernistas da revista Communio e de promover uma "restauração" que não é um retorno à Tradição, mas uma consolidação do modernismo moderado.

Quanto a Karol Wojtyla (João Paulo II), o livro, apoiando-se nas análises de Johannes Dörmann, denuncia a tese da "redenção universal subjetiva". Segundo esta doutrina, todo homem está unido a Cristo e justificado desde a concepção, independentemente de sua fé ou batismo. Esta heresia é a base teológica para o encontro de Assis e para o nivelamento de todas as religiões. Para a obra, o pontificado de João Paulo II representa a consumação da Nova Teologia, onde o dogma católico é dissolvido em um antropocentrismo radical.

🛡️ Conclusão: A necessidade da resistência

A conclusão do texto é que a "Nova Teologia" não é uma evolução legítima do dogma, mas um retorno ao modernismo, a "síntese de todas as heresias". A característica marcante deste movimento é a desobediência contumaz ao Magistério infalível de sempre em favor de um "magistério vivo" que contradiz o passado.

O Padre Garrigou-Lagrange, em seu anexo, sentencia profeticamente: "Para onde vai a nova teologia? Ela volta ao modernismo. [...] Por onde vai ela senão pela via do cepticismo, da fantasia e da heresia?" (p. 186). Diante desta "autodemolição" da Igreja, o livro exorta os católicos a não se deixarem enganar pelas autoridades atuais que se desviaram da Fé, lembrando que a obediência cega ao erro é uma traição a Cristo. A verdadeira fidelidade consiste em aderir à Tradição imutável da Igreja e resistir às novidades que destroem a noção de verdade e a substância da Fé.

📚 Referência bibliográfica

HIRPINUS. A “Nova Teologia”: Os Que Pensam Que Venceram. Tradução de equipe da Editora Permanência. Rio de Janeiro: Editora Permanência, 2001. ISBN 85-85432-05-5.