Alberto Methol Ferré teve uma relação significativa com a Teologia da Libertação (TdL), mas de forma complexa e crítica, não como adesão plena ou influência direta no sentido de ser um de seus expoentes principais. O pensador uruguaio participou ativamente dos debates teológicos latino-americanos dos anos 1960-1980, mas posicionou-se mais como um interlocutor crítico e alternativo, alinhado à Teologia do Povo (ou Teologia da Cultura/Popular), que surgiu como uma vertente concorrente e, ao mesmo tempo, complementar à TdL na Argentina.
🗣️ Participação nos debates eclesiais e o contexto histórico latino-americano
Methol Ferré foi assessor do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) por mais de 20 anos, participando de eventos chave como a preparação da Conferência de Puebla (1979). Sua atuação se deu no âmbito do Departamento de Leigos e, posteriormente, no influente "Equipo de Reflexión Teológico-Pastoral" do CELAM. Ele esteve presente em reuniões preparatórias (ex.: em Buenos Aires, 1977) onde dialogou diretamente com figuras centrais da TdL, como Gustavo Gutiérrez (considerado o "pai" da TdL), e com representantes da Teologia do Povo, como Lucio Gera e Juan Carlos Scannone.
Ele via essas duas correntes como expressões importantes da "latinoamericanização" da Igreja pós-Vaticano II e Medellín (1968). Para ele, o encontro entre elas era necessário para evitar que se tornassem "infecundas e destrutivas", promovendo um diálogo que enriquecesse a Igreja latino-americana. Escreveu textos específicos sobre o tema, como "Política y Teología de la Liberación" (1974, na revista Víspera, que dirigiu), analisando sua gênese a partir dos conceitos de "pobres" e "libertação".
🛡️ Críticas à hermenêutica marxista e a defesa da religiosidade popular
Methol Ferré foi um crítico áspero de certas vertentes da TdL, especialmente aquelas que incorporavam elementos marxistas de forma forte (ex.: luta de classes como método central de análise social, ou uma "teologia política" excessivamente ideologizada). Ele contestou duramente obras de teólogos como Juan Luis Segundo, um expoente uruguaio da TdL. Para Methol, a abordagem de Segundo refletia um elitismo intelectual que desprezava a religiosidade popular, vendo-a como alienação a ser superada por uma "conscientização" ideológica.
Defendia que a TdL, em suas formas mais radicais, corria o risco de subordinar a fé a análises sociopolíticas externas (marxistas), perdendo a centralidade da cultura popular, da religiosidade do povo e da identidade católica latino-americana. Propunha uma alternativa: uma teologia da libertação sem marxismo, focada na "opção preferencial pelos pobres" (herdada da TdL), mas ancorada no "povo" como sujeito histórico-cultural (não na classe proletária abstrata), na religiosidade popular e na integração da fé com a história e a geopolítica latino-americana.
Nesse contexto, a Teologia do Povo - desenvolvida por Methol, Scannone e Gera - estabeleceu-se como uma "corrente autônoma". Ela absorve a opção pelos pobres, mas rejeita a dialética marxista de luta de classes, enfatizando a antinomia "povo" versus "anti-povo" (ou império/oligarquias), onde o "povo" é definido pela cultura comum e pela fé compartilhada, e não apenas pela posição econômica.
🤝 A influência intelectual sobre Jorge Mario Bergoglio
A influência de Alberto Methol Ferré sobre Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco) é profunda e multifacetada, moldando aspectos chave do pensamento teológico, político e pastoral do pontífice. Essa relação intelectual consolidou-se a partir de 1979, durante a preparação e realização da Conferência de Puebla, onde Methol Ferré atuou como intelectual influente, contribuindo para o documento final que enfatizava a opção preferencial pelos pobres e a religiosidade popular. Essa amizade perdurou, com encontros frequentes em Buenos Aires, onde Methol Ferré cruzava o Rio da Prata para debater com Bergoglio, então provincial jesuíta na Argentina.
🌍 Visão da modernidade, ateísmo e colonização ideológica
Methol Ferré interpretava o Concílio Vaticano II como a "primeira superação da modernidade" pela Igreja, reassumindo desafios da Reforma Protestante e do Iluminismo para uma reconciliação católica. Ele via a América Latina como uma "igreja-fonte" (não mera reflexão da Europa), capaz de oferecer contribuições originais à Igreja universal. Bergoglio adotou essa perspectiva, vendo o Concílio como um aggiornamento que integra fé e razão moderna, sem comprometer a essência católica. Isso se manifesta no pontificado de Francisco em documentos como a Evangelii Gaudium (2013), que enfatiza o diálogo com o mundo contemporâneo e a superação de modelos tecnocráticos.
Um ponto central nessa influência é a análise do ateísmo. Methol Ferré identificava o surgimento de um "ateísmo libertino" como o novo inimigo moderno. Diferente do "ateísmo messiânico" (marxismo), que ainda buscava uma justiça social (embora sem Deus), o ateísmo libertino não é revolucionário, mas cúmplice do status quo, focado no hedonismo radical e na separação de beleza, verdade e justiça. Ele propunha resgatar as intuições positivas da modernidade por meio de práticas que integrem beleza verdadeira com bondade e justiça.
Francisco incorporou essa visão em sua crítica à "colonização ideológica", especialmente de ideologias ocidentais que impõem modelos liberais, hedonistas e tecnocráticos sobre culturas locais. Bergoglio elogiou Methol Ferré por navegar tensões entre ideais abstratos (como os de organismos internacionais) e preocupações concretas das comunidades.
🗺️ Pensamento em movimento e geopolítica
Influenciado por pensadores como Jacques Maritain e Augusto Del Noce, Methol Ferré promovia um "pensamento em movimento" - dinâmico, dialético e fiel à realidade dos povos. Bergoglio absorveu isso, rejeitando visões estáticas ou ideológicas rígidas, e priorizando uma Igreja que "faz arder o coração" (uma referência aos discípulos de Emaús), cura feridas e restaura a felicidade, em vez de impor doutrinas desconexas. Em entrevista publicada no livro O Papa e o Filósofo (2013, organizado por Alver Metalli), Francisco descreveu Methol Ferré como alguém que "nos ensinou a pensar", destacando sua profundidade metafísica e histórica.
No campo geopolítico, Methol Ferré enfatizava o catolicismo como força integradora na América Latina, promovendo uma unidade cultural e histórica contra divisões impostas - o conceito da "Pátria Grande". Isso influenciou a visão de Francisco de uma Igreja periférica que ilumina o centro, com ênfase na evangelização inculturada e no papel dos leigos. Exemplos incluem a promoção de conferências como Puebla e Aparecida (2007), onde Bergoglio, como redator principal, incorporou ideias de Methol Ferré sobre a Igreja como "povo de Deus" em missão.
🔖 O legado de uma teologia purificada
Methol Ferré lamentou o "declínio" ou "evaporação" da TdL após as críticas do Vaticano (ex.: instruções da Congregação para a Doutrina da Fé em 1984 e 1986), argumentando que a Igreja pagou um preço por se livrar dela "com muita facilidade", pois isso enfraqueceu o compromisso com os pobres. Ele defendia a necessidade de resgatar o impulso libertador, mas purificado de influências ideológicas problemáticas.
Essa visão influenciou Jorge Bergoglio a adotar a ideia de uma "teologia da libertação sem marxismo", priorizando a piedade popular, os pobres e a cultura latino-americana. Essa influência é atestada por estudiosos como Massimo Borghesi, em sua obra Jorge Mario Bergoglio: Una biografia intellettuale (2017), que dedica capítulos inteiros a Methol Ferré como a principal fonte intelectual de Francisco.
Em resumo, Methol Ferré não foi um teólogo da libertação no sentido clássico (como Gutiérrez ou Boff), mas influenciou e foi influenciado pelo debate em torno dela. Sua contribuição foi crítica, corretiva e integradora: reconhecia o valor da TdL para destacar a miséria e a opção pelos pobres, mas a via como insuficiente ou arriscada sem uma ancoragem mais profunda na tradição católica, na cultura popular e na superação da modernidade. Essa nuance explica por que sua influência em Francisco é descrita como uma "teologia da libertação purificada".