A Relação entre Plínio Corrêa de Oliveira e João Scognamiglio Clá Dias
A relação entre Plínio Corrêa de Oliveira e João Scognamiglio Clá Dias era extremamente próxima e marcada por uma profunda união espiritual e ideológica. Plínio, fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) em 1960, era visto por João como um mestre e guia. João, nascido em 1939 em São Paulo, conheceu Plínio em 1956 e tornou-se seu discípulo ardente, secretário pessoal e confidente mais próximo, interpretando fielmente seu pensamento e obras. Essa conexão era descrita como uma "união de almas", com João sentindo a presença de Plínio de forma mística, inclusive após sua morte, como um canal de santidade e orientação. Essa proximidade é evidenciada em relatos biográficos que destacam João como o principal difusor do culto à personalidade de Plínio dentro da TFP, promovendo uma espiritualidade centrada na figura do fundador.
O Papel de João Scognamiglio Clá Dias após a Morte de Plínio e a Fundação dos Arautos do Evangelho
Após a morte de Plínio em 3 de outubro de 1995, João representou uma continuidade espiritual e de liderança para uma facção da TFP. Ele organizou os ritos fúnebres e fundou, em 1999, os Arautos do Evangelho (Heralds of the Gospel), uma associação internacional de fiéis de direito pontifício aprovada pelo Vaticano em 2001 sob João Paulo II. João era visto como o sucessor espiritual, concluindo obras de Plínio (como o capítulo final de uma biografia em cinco volumes) e promovendo sua veneração, inclusive através de biografias hagiográficas e estudos sobre Plínio e sua mãe, Dona Lucília. Os Arautos focaram mais no aspecto religioso e devocional, afastando-se parcialmente do ativismo político radical da TFP original, e João liderou o grupo até sua renúncia em 2017, falecendo em 2024 aos 85 anos. Para muitos seguidores, João acelerou a missão de Plínio rumo ao "Reino de Maria", com Plínio "vivo" através de seus discípulos. Após sua morte em 1º de novembro de 2024, decorrente de complicações de um acidente vascular cerebral sofrido 14 anos antes, o grupo continuou suas operações sob liderança coletiva, mantendo atividades como missas, homenagens e publicações, sem interrupções significativas em sua estrutura devocional.
Problemas com a TFP e o Cisma Interno
Os problemas com a TFP envolvem controvérsias significativas, incluindo um cisma interno após a morte de Plínio, motivado por disputas sobre herança, direção ideológica e bens financeiros. Isso levou a batalhas judiciais prolongadas no Brasil (1997-2004 e além), com a facção de João vencendo o direito ao nome TFP no Brasil e à maior parte dos ativos, enquanto o grupo dos "fundadores" reteve o nome internacional e continuou o ativismo político conservador. A TFP foi acusada de ser um culto de personalidade em torno de Plínio, com práticas como veneração quase divina dele e de Dona Lucília. Os Arautos, por sua vez, herdaram parte dessa herança ideológica, enfrentando acusações semelhantes de culto excessivo a personalidades, o que culminou em investigações do Vaticano a partir de 2017.
Estrutura e Atividades dos Arautos do Evangelho
Os Arautos do Evangelho, também conhecidos como Evangelii Præcones (EP), são uma associação internacional de fiéis católicos e emergiram como uma ramificação mais religiosa e devocional da extinta Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), focando na evangelização através da beleza, da música sacra, do canto gregoriano e do zelo litúrgico. Composta predominantemente por jovens celibatários que vivem em comunidades consagradas, a entidade está presente em cerca de 78 países, com ênfase em atividades apostólicas como missas, procissões, cursos de formação espiritual (como consagração a Nossa Senhora) e promoção da devoção mariana. Seus membros usam hábitos distintos, inspirados em elementos medievais, e enfatizam a fidelidade à Igreja Católica, embora com um viés ultraconservador e opositor ao modernismo.
Em termos de estrutura, os Arautos incluem ramos masculinos e femininos, com sociedades de vida apostólica como Virgo Flos Carmeli (para clérigos) e Regina Virginum (para mulheres). Eles operam basílicas, igrejas e centros de formação no Brasil, como a Basílica Nossa Senhora do Rosário em Caieiras (SP), conhecida por sua arquitetura neogótica de 60 metros de altura, vitrais elaborados e visitas gratuitas diárias, e a sede em Cotia (SP), chamada "Contemplação Marial". No exterior, há presença em países como Moçambique e Colômbia. Atividades incluem missas diárias (muitas transmitidas online via YouTube, com horários como domingos às 11h e dias úteis às 19h), confissões, presépios animados (com som, luz e movimento) e publicações como a Revista Arautos do Evangelho, que aborda temas espirituais, doutrina e biografias. Eles também promovem o "Fundo Misericórdia" para ações caritativas e cursos gratuitos online sobre graça e consagração. Adicionalmente, a entidade mantém instituições de formação intelectual, como o Instituto Filosófico Aristotélico Tomista (IFAT) e o Instituto Teológico São Tomás de Aquino, visando a preparação doutrinária de seus membros.
Controvérsias e Investigações Recentes
No entanto, controvérsias persistem. Desde 2017, os Arautos estão sob restrição de status pontifício devido a uma investigação do Vaticano por supostos delitos canônicos, incluindo exorcismos "ilegais" (invocando figuras como Plínio Corrêa de Oliveira e Dona Lucília em rituais), culto excessivo a personalidades humanas, ordenações de sacerdotes sem formação adequada e práticas heterodoxas. Em 2019, o Papa Francisco nomeou o cardeal Raymundo Damasceno Assis como comissário para guiar a entidade, visando resolver problemas de governo, formação e administração. Os Arautos negam as acusações, atribuindo-as a "perseguição religiosa" por um pequeno grupo dissidente e afirmando obediência à Igreja, enquanto rejeitam o inquérito como irregular. Em 2025, o grupo publicou um livro defendendo-se das acusações, argumentando que elas foram infundadas e comparando o caso a perseguições midiáticas históricas, com vitórias judiciais em alguns processos.