👑 Neste terceiro domingo após a Epifania, a Igreja celebra a continuidade da manifestação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelando seu domínio absoluto sobre a natureza humana ferida e as enfermidades. A liturgia nos apresenta o Divino Salvador descendo do monte para estender sua mão purificadora sobre o leproso, símbolo da alma manchada pelo pecado, e curar com a autoridade de sua Palavra o servo do centurião, prefigurando a vocação dos gentios à salvação. É um dia marcado pela esperança e pela onipotência da misericórdia divina que, no Batismo e na Penitência, opera em nós a cura espiritual, transformando a nossa miséria na glória da graça, enquanto a Epístola nos exorta a vivermos em harmonia e humildade, reflexos da paz que Cristo traz ao mundo.
🎶 Introito (Sl 96, 7-8 | ib. 1)
Adoráte Deum, omnes Angeli ejus: audívit, et lætáta est Sion: et exsultavérunt fíliæ Judae. Ps. Dóminus regnávit, exsúltet terra: læténtur ínsulæ multæ.
Adorai a Deus, todos os seus Anjos. Sião ouve e se alegra. Exultam as filhas de Judá. Ps. O Senhor é Rei: exulte a terra e alegrem-se as muitas ilhas.
✉️ Epístola (Rm 12, 16-21)
Fratres: Nolíte esse prudéntes apud vosmetípsos: nulli malum pro malo reddéntes: providéntes bona non tantum coram Deo, sed étiam coram ómnibus homínibus. Si fíeri potest, quod ex vobis est, cum ómnibus homínibus pacem habéntes: Non vosmetípsos defendéntes, caríssimi, sed date locum iræ. Scriptum est enim: Mihi vindícta: ego retríbuam, dicit Dóminus. Sed si esuríerit inimícus tuus, ciba illum: si sitit, potum da illi: hoc enim fáciens, carbónes ignis cóngeres super caput ejus. Noli vinci a malo, sed vince in bono malum.
Irmãos: Não pretendais ser sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal. Cuidai em fazer o bem, não só diante de Deus, como também diante de todos os homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Caríssimos, não vos vingueis a vós mesmos; antes, daí lugar à ira de Deus, pois está escrito: A mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário: se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Porque, fazendo isto, amontoarás carvões em brasa sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.
📖 Evangelho (Mt 8, 1-13)
In illo témpore: Cum descendísset Jesus de monte, secútæ sunt eum turbæ multæ: et ecce, leprósus véniens adorábat eum, dicens: Dómine, si vis, potes me mundáre. Et exténdens Jesus manum, tétigit eum, dicens: Volo. Mundáre. Et conféstim mundáta est lepra ejus. Et ait illi Jesus: Vide, némini díxeris: sed vade, osténde te sacerdóti, et offer munus, quod præcépit Móyses, in testimónium illis. Cum autem introísset Caphárnaum, accéssit ad eum centúrio, rogans eum et dicens: Dómine, puer meus jacet in domo paralýticus, et male torquetur. Et ait illi Jesus: Ego véniam, et curábo eum. Et respóndens centúrio, ait: Dómine, non sum dignus, ut intres sub tectum meum: sed tantum dic verbo, et sanábitur puer meus. Nam et ego homo sum sub potestáte constitútus, habens sub me mílites, et dico huic: Vade, et vadit; et alii: Veni, et venit; et servo meo: Fac hoc, et facit. Audiens autem Jesus, mirátus est, et sequéntibus se dixit: Amen, dico vobis, non inveni tantam fidem in Israël. Dico autem vobis, quod multi ab Oriénte et Occidénte vénient, et recúmbent cum Abraham et Isaac et Jacob in regno cœlórum: fílii autem regni ejiciéntur in ténebras exterióres: ibi erit fletus et stridor déntium. Et dixit Jesus centurióni: Vade et, sicut credidísti, fiat tibi. Et sanátus est puer in illa hora.
Naquele tempo, havendo Jesus descido do monte, grande multidão de povo O seguiu. E eis que, vindo um leproso, adorava-O, dizendo: Senhor, se quiserdes, bem me podeis limpar. Jesus, estendendo a mão, tocou-o e disse: Quero, sê limpo. E logo sarou-lhe a lepra. Então Jesus lhe disse: Olha, não o digas a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para que lhes conste. Tendo depois Jesus entrado em Cafarnaum, aproximou-se d'Ele um centurião com uma súplica: Senhor, um servo meu jaz em casa, paralítico, gravemente atormentado. Jesus disse-lhe: Eu irei e o curarei. Respondeu o centurião, dizendo: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas, dizei uma só palavra e o meu servo será curado. Pois também eu sou um homem sujeito a outros; tenho soldados às minhas ordens, e digo, a um: Vai, e ele vai. E a outro: Vem, e ele vem. E a meu servo: Faze isto, e ele o faz. Ouvindo isto, Jesus admirou-se e disse aos que O seguiam: Em verdade, eu vos digo que não encontrei tamanha fé em Israel. Digo-vos outrossim: Muitos virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores onde haverá choro e ranger de dentes. E Jesus disse ao centurião: Vai, e como creste, assim te seja feito. E naquela mesma hora o servo ficou curado.
🕯️ A humildade que atrai a cura divina
🛐 O Evangelho deste domingo nos confronta com duas manifestações sublimes da misericórdia de Cristo, que responde à miséria humana com a onipotência do seu amor. Primeiro, vemos o leproso, figura da alma desfigurada pelo pecado original e atual, que se aproxima não com exigências, mas com uma submissão total à vontade divina: "Senhor, se quiserdes". Santo Agostinho nos ensina que o pecado é uma lepra que isola o homem da comunidade dos santos, e somente o toque de Cristo - prefigurando os sacramentos - pode restaurar a integridade perdida. A resposta imediata do Senhor, "Quero, sê limpo", revela que Deus deseja ardentemente a nossa salvação; Ele desceu do monte de sua divindade para tocar a nossa humanidade ferida. Em seguida, encontramos o centurião, um gentio, cuja fé arranca do Coração de Jesus um elogio raríssimo. A sua declaração, "Senhor, não sou digno", tornou-se a oração preparatória de toda a Igreja antes da Sagrada Comunhão. Ao reconhecer sua indignidade, ele se tornou digno de receber o milagre, pois, como observa Santo Agostinho, "considerando-se indigno de que Cristo entrasse em sua casa, foi digno de que Cristo entrasse em seu coração" (Sermão 62). Esta humildade do centurião conecta-se perfeitamente com a exortação de São Paulo na Epístola: "Não pretendais ser sábios aos vossos próprios olhos". A verdadeira sabedoria cristã reside em reconhecer a nossa paralisia espiritual e a nossa incapacidade de nos salvarmos sozinhos, confiando inteiramente na autoridade da Palavra de Deus. Assim como o centurião creu que uma simples palavra de Jesus bastaria para vencer a distância e a doença, nós somos chamados a crer que a graça divina pode superar qualquer obstáculo em nossas vidas, vencendo o mal com o bem e transformando a nossa indignidade em morada do Deus vivo.