🗿A Igreja celebra hoje a memória dos Santos Quatro Coroados, um grupo de mártires que testemunharam a fé com a própria vida durante a perseguição de Diocleciano, por volta do ano 306. A tradição relata que Cláudio, Castório, Sinforiano e Nicóstrato eram escultores cristãos de grande talento na Panônia. Ao se recusarem a esculpir uma estátua do deus pagão Esculápio e a oferecer sacrifício aos ídolos, foram condenados à morte. Juntou-se a eles um quinto companheiro, Simplício, que se converteu ao ver a coragem de sua fé. Foram açoitados e, em seguida, encerrados vivos em caixões de chumbo, sendo lançados ao rio. Seus corpos, mais tarde recuperados, foram levados para Roma. Ali, uma confusão histórica os associou a quatro soldados mártires (Severo, Severiano, Carpóforo e Vitorino), cujos nomes eram desconhecidos e, por isso, eram chamados de "coroados", um título dado aos santos mártires. A Basílica dos Santos Quatro Coroados, no monte Célio, em Roma, preserva sua memória e se tornou um símbolo da firmeza da fé contra a idolatria, honrando aqueles que preferiram a coroa do martírio à glória do mundo.
📜Epístola (Heb 11, 33-39)
Irmãos: Pela fé, os Santos conquistaram reinos, exerceram a justiça e obtiveram promessas, fecharam as bocas dos leões, extinguiram a violência do fogo, livraram-se do fio das espadas, foram curados de suas moléstias, tornaram-se valorosos na guerra e afugentaram exércitos inimigos. Mulheres receberam novamente seus mortos pela ressurreição. Alguns foram cruelmente atormentados, não aceitando ser libertados para uma melhor ressurreição. Outros sofreram escárnios e açoites, cadeias e prisões, foram apedrejados, serrados, torturados, mortos a golpes de espada. Ficaram errantes, cobertos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados de tudo, angustiados, aflitos, eles de quem o mundo não era digno, vagando nos desertos, nas montanhas, cavernas e antros da terra. E todos eles obtiveram aprovação pelo testemunho que davam de sua fé em Jesus Cristo, Nosso Senhor.
🕊️Evangelho (Mt 5, 1-12)
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu a um monte, e, tendo-se assentado, aproximaram-se d’Ele os seus discípulos. E, abrindo sua boca, ensinava-lhes, dizendo: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, falarem todo o mal contra vós, por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque a vossa recompensa será grande nos céus.
🤔Reflexões
🏔️O Evangelho das Bem-aventuranças não é apenas um código de ética, mas a própria carta magna do Reino de Deus e um retrato de Jesus Cristo. Cada bem-aventurança revela um aspecto de Sua missão e do caminho que o discípulo é chamado a trilhar. Para os mártires, como os Santos Quatro Coroados, este sermão não foi uma teoria, mas a realidade vivida em sua plenitude. Ao serem "pobres de espírito", desapegaram-se não só de seus bens, mas de sua própria vida e de seu prestígio como artistas. Ao sofrerem "perseguição por amor da justiça", encarnaram a oitava bem-aventurança, que promete o Reino dos céus àqueles que são fiéis a Deus em meio à hostilidade do mundo. Santo Agostinho, em seu comentário sobre o Sermão da Montanha, ensina que as bem-aventuranças representam uma escada de perfeição espiritual. A perseguição é o degrau final, que testa e confirma todas as outras virtudes, selando a alma para a posse definitiva do Reino. “A oitava bem-aventurança retorna ao ponto de partida, porque mostra e recomenda o homem perfeito e completo” (Santo Agostinho, Sobre o Sermão da Montanha, Livro I, Cap. 4). Os mártires, portanto, não são apenas vítimas, mas vencedores que completaram a jornada, alcançando a perfeita conformidade com Cristo.
🔨A Epístola aos Hebreus complementa esta visão, descrevendo os sofrimentos heroicos dos santos do Antigo Testamento como uma prefiguração do testemunho cristão. A fé, para eles, não era um sentimento, mas uma força operativa que "extinguiu a violência do fogo" e os fez suportar o "fio da espada". Os Santos Quatro Coroados aplicaram esta fé ao seu ofício. Como escultores, seu trabalho era criar beleza a partir da matéria bruta, uma analogia da obra de Deus na criação. A recusa em esculpir um ídolo foi um ato de profunda coerência teológica: eles não poderiam usar o dom de co-criar a beleza para honrar uma mentira, subvertendo a ordem da criação que aponta para o único Criador. A virtude da fortaleza, aqui, não se manifesta como agressividade, mas como resistência passiva e inabalável. O Catecismo da Igreja Católica ensina que "o martírio é o supremo testemunho dado à verdade da fé; significa dar testemunho até a morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade" (CIC 2473). O martelo e o cinzel, ferramentas de sua arte, tornaram-se símbolos de sua fé, pois preferiram ser quebrados como a pedra a moldar uma imagem que negasse a Verdade.
👑A união entre o Evangelho e a Epístola revela que a recompensa celestial prometida por Cristo ("grande será a vossa recompensa nos céus") é a "melhor ressurreição" mencionada por São Paulo. Os mártires não aceitaram a libertação terrena porque sua visão estava fixa na vida eterna. Este ato supremo de fé é, segundo São Tomás de Aquino, a maior prova de amor. O Doutor Angélico afirma que o martírio é o ato mais perfeito de caridade, pois implica o sacrifício do maior bem temporal, a vida, por amor a Deus, o Bem Supremo (Suma Teológica, II-II, Q. 124, Art. 3). Os Santos Quatro Coroados, ao serem encerrados em caixões de chumbo, foram "coroados" não com o louro dos artistas, mas com a coroa imperecível do martírio. Sua história nos interpela sobre a finalidade do nosso trabalho, de nossos talentos e de nossa vida inteira. Somos chamados a glorificar a Deus em tudo o que fazemos, a recusar a idolatria moderna — seja ela o poder, o sucesso ou a autoafirmação — e a sermos testemunhas fiéis, para que, como eles, possamos um dia ouvir: "Alegrai-vos e exultai, porque a vossa recompensa será grande nos céus".