🛡️Vicente de Saragoça, diácono espanhol do século IV, e Anastásio, monge persa do século VII, embora separados pelo tempo e pela geografia, unem-se gloriosamente no martírio celebrado neste dia, testemunhando a universalidade da Igreja que respira com dois pulmões, o do Ocidente e o do Oriente. Vicente, nascido em Huesca e martirizado em 304 sob Diocleciano, foi submetido a tormentos atrozes, incluindo o cavalete e as grelhas em brasa, mas sua eloquência sobrenatural e alegria em meio à dor converteram até seus verdugos, tornando-o o protomártir da Espanha e patrono de Lisboa e Valência. Séculos mais tarde, Anastásio, nascido Magundat na Pérsia e ex-soldado do exército de Cosroes II, abandonou as artes mágicas e o zoroastrismo ao contemplar a Santa Cruz roubada de Jerusalém; batizado na Cidade Santa, tornou-se monge e, ardendo de desejo pelo martírio, foi preso, açoitado e finalmente estrangulado e decapitado em 628, deixando um legado de austeridade monástica coroada pelo sangue. Ambos, um na aurora da liberdade da Igreja e outro na defesa da Cruz contra o paganismo persa, cumpriram perfeitamente o mandato de Cristo de não temer os que matam o corpo, entregando suas vidas como semente fértil para a cristandade.
🕯️Introito (Sl 78, 11. 12 e 10 | ib., 1 )
Intret in conspectu tuo, Domine, gemitus compeditorum: redde vicinis nostris septuplum in sinu eorum: vindica sanguinem sanctorum tuorum, qui effusus est. Ps. Deus venerunt gentes in haereditatem tuam: polluerunt templum sanctum tuum: posuerunt Jerusalem in pomorum custodiam. ℣. Glória Patri.
Chegue à vossa presença, Senhor, o gemido dos cativos. Retribuí a nossos vizinhos, em seu íntimo, sete vezes cada injúria que eles Vos fizeram. Vingai o sangue de vossos Santos, que foi derramado. Sl. Ó Deus, os gentios invadiram a vossa herança, profanaram o vosso santo templo e reduziram Jerusalém a ruínas. ℣. Glória ao Pai.
📜Epístola (Sb 3, 1-8)
Justorum ánimæ in manu Dei sunt, et non tanget illos torméntum mortis. Visi sunt oculis insipiéntium mori: et æstimáta est afflíctio exitus illórum: et quod a nobis est iter, extermínium: illi autem sunt in pace. Et si coram homínibus torménta passi sunt, spes illórum immortalitáte plena est. In paucis vexáti, in multis bene disponéntur: quóniam Deus tentávit eos, et invenit illos dignos se. Tamquam aurum in fornáce probávit illos, et quasi holocáusti hóstiam accépit illos, et in témpore erit respéctus illorum. Fulgébunt justi, et tamquam scintíllæ in arundinéto discúrrent. Judicábunt natiónes, et dominabúntur pópulis, et regnábit Dóminus illórum in perpétuum.
As almas dos Justos estão nas mãos de Deus, e o tormento da morte não as tocará. Pareceu aos olhos dos insensatos que iam morrer. Seu trânsito deste mundo foi considerado como uma infelicidade, e a sua separação de nós, uma calamidade, porém eles estão em paz. E se sofreram tormentos diante dos homens, a sua esperança está toda na imortalidade. Depois de uma leve tribulação receberão uma grande recompensa, porque Deus os provou e os achou dignos de Si. Provou-os como ao ouro na fornalha: recebeu-os como holocaustos. E a seu tempo os olhará benignamente. Então os Justos resplandecerão e brilharão como centelhas que correm pelo canavial. Eles julgarão as nações e dominarão os povos; e o Senhor será Rei sobre eles, para sempre.
📖Evangelho (Lc 21, 9-19)
In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis: Cum audieritis praélia et seditiónes, nolíte terréri: opórtet primum hæc fíeri, sed nondum statim finis. Tunc dicébat illis: Surget gens contra gentem, et regnum advérsus regnum. Et terræmótus magni erunt per loca, et pestiléntiæ, et fames, terrorésque de coelo, et signa magna erunt. Sed ante hæc ómnia injícient vobis manus suas, et persequéntur tradéntes in synagógas et custódias, trahéntes ad reges et prǽsides propter nomen meum: contínget autem vobis in testimónium. Pónite ergo in córdibus vestris non præmeditári, quemádmodum respondeátis. Ego enim dabo vobis os et sapiéntiam, cui non potérunt resístere et contradícere omnes adversárii vestri. Tradémini autem a paréntibus, et frátribus, et cognátis, et amícis, et morte affícient ex vobis: et éritis ódio ómnibus propter nomen meum: et capíllus de cápite vestro non períbit. In patiéntia vestra possidébitis ánimas vestras.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando ouvirdes falar de guerras e de sedições, não vos assusteis. É necessário que estas coisas aconteçam primeiro; mas não virá logo o fim. E então dizia-lhes: Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. Haverá grandes terremotos em vários lugares, pestes e fomes, e também coisas espantosas e no céu grandes sinais. Mas, antes de tudo isso, lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença de reis e governadores, por causa de meu Nome. Isto vos será ocasião de dardes testemunho. Proponde, pois, em vossos corações não premeditar como haveis de responder. Porque eu vos darei palavras e sabedoria a que todos os vossos inimigos não poderão resistir nem contradizer. Sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Farão morrer muitos de vós e sereis odiados por todos por causa de meu Nome. Mas não se perderá um só cabelo de vossa cabeça. Por vossa perseverança salvareis as vossas almas.
🔥A posse da alma pela paciência
🔥A liturgia de hoje nos coloca diante do mistério profundo da fortaleza cristã, ilustrada magnificamente nas figuras de São Vicente e São Anastásio, que encarnam a promessa do Evangelho: "pela vossa perseverança salvareis as vossas almas". O texto da Sabedoria (Sb 3, 1-8) nos oferece a chave hermenêutica para compreender o escândalo do sofrimento dos justos, descrevendo-os como "ouro na fornalha". Esta imagem não é meramente poética, mas teológica; o ouro, para ser purificado, precisa passar pelo fogo, assim como a virtude do mártir precisa da provação para se tornar um holocausto agradável a Deus. Santo Agostinho, pregando especificamente sobre São Vicente, destaca que tal coragem não provém das forças humanas, mas da graça divina que opera no interior do fiel: "Era o corpo que sofria, mas era o Espírito que falava" (Santo Agostinho, Sermão 276). Esta realidade cumpre a promessa de Cristo no Evangelho de Lucas: "Eu vos darei palavras e sabedoria". Não era Vicente, o diácono, nem Anastásio, o monge, que resistiam aos impérios Romano e Persa por mera obstinação estoica, mas era o próprio Cristo sofrendo em seus membros e triunfando neles. A instrução do Senhor para "não premeditar a defesa" revela que a verdadeira apologética no momento da crise suprema é um dom do Espírito Santo, não um artifício retórico humano. Além disso, a sentença final do Evangelho - "In patientia vestra possidebitis animas vestras" (Na vossa paciência possuireis as vossas almas) - é explicada pelo Papa São Gregório Magno como a raiz e a guarda de todas as virtudes, pois "nós possuímos a nossa alma quando, pela paciência, somos senhores de nós mesmos; mas se a impaciência nos domina, perdemos a posse do nosso próprio ser" (São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, 35). Portanto, a celebração de hoje não é apenas uma memória histórica de torturas passadas, mas um convite atual a confiar que, mesmo quando "aos olhos dos insensatos parecem morrer", os que permanecem fiéis à Verdade estão, de fato, seguros nas mãos de Deus, onde nenhum tormento real - isto é, a morte eterna - pode tocá-los.