A antiquíssima observância das Têmporas, ou Quatuor Tempora, remonta aos primeiros séculos da Igreja em Roma, constituindo uma profunda sacralização cristã da transição das estações do ano, onde o povo fiel consagra o tempo e os frutos da terra ao Criador através do jejum, da abstinência e da oração contínua. As Têmporas da Quaresma, inseridas na primeira semana do tempo penitencial, revestem-se de uma gravidade ascética particular, pois unem o espírito de conversão quadragesimal à tradição apostólica de ordenar os novos ministros sagrados. Desde o pontificado do Papa Gelásio I, no século V, o sábado das Têmporas tornou-se o dia clássico e exclusivo para a conferência das sagradas ordens. A prolongada vigília noturna que caracterizava este dia, composta por múltiplas leituras bíblicas e intensas súplicas, não era apenas um rito preparatório, mas um ato de solidariedade eclesial, onde toda a comunidade se reunia, tradicionalmente na Basílica de São Pedro, para interceder por aqueles que seriam elevados ao subdiaconato, diaconato e presbiterato. Este histórico dia de jejum recorda perenemente à Igreja que a vitalidade espiritual, a preservação da doutrina e a administração dos sacramentos dependem da santidade de seus sacerdotes, exigindo dos fiéis uma imolação espiritual unida ao sacrifício do altar, para que o rebanho de Cristo seja sempre guiado por pastores dignos, purificados pela penitência e iluminados pela graça divina.
🙏 Introito (Sl 87, 3 | ib., 2)
Intret orátio mea in conspéctu tuo... Suba a minha oração à vossa presença; inclinai, Senhor, o vosso ouvido à minha súplica. Sl. Senhor, Deus de minha salvação, de dia e de noite, eu clamo por Vós.
📖 I leitura (Deut 26, 12-19)
Livro do Deuteronômio. Naqueles dias, falou Moisés ao povo, nestes termos: Quando tiveres acabado de pagar o dízimo de todos os teus frutos, dirás na presença do Senhor, teu Deus: Eu tirei de minha casa o que Vos é consagrado, e dei-o ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva como me ordenastes; não transgredi os vossos mandamentos, nem me esqueci de vosso preceito. Obedeci à voz do Senhor, meu Deus, e fiz tudo como me ordenastes. Olhai de vosso santuário, da excelsa morada dos céus e abençoai Israel, vosso povo, e a terra que nos destes, como jurastes a nossos pais, terra de onde mana leite e mel. O Senhor, teu Deus, ordenou-te hoje, observes estes mandamentos e leis; guarda-os e cumpre-os de todo o teu coração e de toda a tua alma. Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para andares por seus caminhos, observares as suas cerimônias, as suas ordenações e leis, e para obedeceres ao seu mando. O Senhor te escolheu hoje para que sejas o seu povo como Ele te declarou, e guardes todos os seus preceitos; e Ele te faça ilustre entre todas as nações que Ele criou, para seu louvor, honra e glória sua, a fim de que sejas o povo santo do Senhor, teu Deus, como Ele disse.
📖 II leitura (Deut 11, 22-25)
Livro do Deuteronômio. Naqueles dias, disse Moisés aos filhos de Israel: Se observardes e puserdes em prática os mandamentos que vos prescrevo, amando o Senhor, vosso Deus, andando em todos os seus caminhos, e estando unidos a Ele, o Senhor destruirá, a vossa vista, todas estas nações, e vós as possuíreis, embora sejam elas maiores e mais poderosas do que vós. Todo lugar em que puserdes o pé, será vosso. Vossos limites serão, desde o deserto e desde o Líbano, desde o grande rio Eufrates, até o mar Ocidental. Ninguém poderá prevalecer contra vós. O Senhor, vosso Deus, espalhará o terror e o temor de vosso nome sobre toda a terra que haveis de pisar, como vo-lo disse o Senhor, vosso Deus.
📖 III leitura (II Macabeus 1, 23-26 e 27)
Livro dos Macabeus. Naqueles dias, todos os sacerdotes estavam fazendo oração; e até que se consumisse o sacrifício, Jonatas entoava e os outros respondiam. A oração que Neemias fazia era nestes termos: O Senhor Deus, Criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, que sois o único Rei cheio de bondade, o único excelente e justo, o Todo-poderoso e eterno, Vós livrastes Israel de todo mal, escolhestes nossos pais e os santificastes. Recebei este sacrifício de todo o vosso povo de Israel, e guardai a vossa herança, santificando-a, para que as nações conheçam que Vós sois o nosso Deus.
📖 IV leitura (Eclo 36, 1-10)
Livro da Sabedoria. Tende piedade de nós, ó Deus de todas as coisas; volvei para nós os vossos olhos e mostrai-nos a luz de vossas misericórdias. Espalhai o vosso temor sobre as nações que não Vos procuram, para que reconheçam elas que não há outro Deus senão Vós, e assim proclamem as vossas maravilhas. Levantai a vossa mão contra as nações estranhas, para que reconheçam o vosso poder. Porque, assim como diante de seus olhos mostrastes em nós a vossa santidade castigando-nos, assim também, à nossa vista, mostrai nelas a vossa grandeza, para que reconheçam como também reconhecemos, que fora de Vós, Senhor, não há outro Deus. Renovai os vossos prodígios, fazei novas maravilhas. Glorificai a vossa mão e o vosso braço direito. Excitai o vosso furor, e derramai a vossa ira. Destruí o adversário e afligi o inimigo. Apressai o tempo da redenção, lembrai-Vos do fim, para que proclamem as vossas maravilhas, ó Senhor, nosso Deus.
📖 V leitura (Dn 3, 47-51)
Leitura do profeta Daniel. Naqueles dias, o anjo do Senhor desceu com Azarias e os seus companheiros à fornalha, e desviando da mesma as chamas do fogo, fez que soprasse no meio da fornalha como que uma fresca viração acompanhada de orvalho. As chamas, porém, cresciam acima da fornalha quarenta e nove côvados, e saltando fora dela, queimaram, entre os caldeus que estavam perto da fornalha, os servos do rei que atiçavam o fogo. Mas o fogo não tocou de modo algum os três jovens hebreus, não os molestou, nem lhes causou o menor vexame. Então estes três jovens, em voz uníssona, louvavam, glorificavam e bendiziam a Deus, na fornalha, dizendo:
🎶 Cântico (Dn 3, 52-56)
Bendito sois Vós, Senhor, Deus de nossos pais. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito é o vosso nome glorioso que é santo. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois Vós no templo santo de vossa glória. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois Vós sobre o trono santo de vosso reino. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois vós por causa do cetro de vossa divindade. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois Vós, que estais assentado acima dos querubins, e penetrais o fundo dos abismos. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois Vós que andais sobre as asas dos ventos, e por sobre as ondas do mar. E digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendigam a Vós, Senhor, todos os vossos anjos e santos, e Vos louvem e exaltem para sempre. Bendigam a Vós, Senhor, os céus, a terra, o mar e tudo que neles está. E eles Vos louvem e exaltem para sempre. Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Ao que é digno de louvor e glória e por todos os séculos. Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amen. Ao que é digno de louvor e glória por todos os séculos. Bendito sois Vós, Senhor, Deus de nossos pais. E digno de louvor e glória por todos os séculos.
✉️ Epístola (I Tess 5, 14-23)
São Paulo apóstolo aos Tessalonicenses. Irmãos: Nós vos pedimos que corrijais os inquietos, consoleis os pusilânimes, sustenteis os fracos, sejais pacientes com todos. Vede que nenhum retribua a outro mal por mal, e procurai fazer o bem entre vós e para com todos. Estai sempre alegres. Orai sem cessar. Por tudo, dai graças a Deus, porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo, em relação a todos vós. Não extingais o Espírito Santo. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo; abraçai o que for bom. Guardai-vos de toda aparência de mal. Ele porém, o Deus de paz, vos santifique inteiramente e tudo o que está em vós, espírito, alma e corpo, se conserve sem mácula até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.
✝️ Evangelho (Mt 17, 1-9)
Naquele tempo, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os de parte a um monte muito alto. E transfigurou-se diante deles. Seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias, falando com Ele. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se quiserdes, faremos aqui três tabernáculos, um para Vós, outro para Moisés e o terceiro para Elias. Ainda falava ele, quando uma nuvem brilhante os envolveu, e da nuvem soou uma voz que dizia: Este é o meu Filho muito amado. Nele pus toda a minha complacência; escutai-O. Ouvindo isto, os discípulos caíram com a face em terra e ficaram muito atemorizados. Aproximou-se, porém, Jesus, e, tocando-os, disse-lhes: Levantai-vos e não temais. E erguendo eles os olhos, não viram ninguém, senão a Jesus só. E enquanto descia com eles do monte, ordenou-lhes Jesus, dizendo: A ninguém digais o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos.
✨ A elevação da alma para a glória divina
O clamor incessante expresso no introito, onde a alma suplica para que sua oração penetre na presença de Deus, encontra sua resposta mais sublime no alto do monte Tabor. Para que a oração alcance as moradas celestes, é necessária uma ascensão espiritual, um desprendimento das planícies mundanas, que prepara o espírito para contemplar as coisas divinas. A transfiguração revela, ainda na terra, a glória futura do reino, uma luz antecipada da visão beatífica onde a humanidade de Cristo, resplandecente como o sol, demonstra que o corpo redimido participará ativamente da claridade celestial. A presença de Moisés e Elias sublinha que Jesus é o cumprimento definitivo de toda a lei e os profetas, sendo Ele o único mediador entre o Criador e as criaturas. A nuvem luminosa, símbolo do Espírito Santo, envolve os corações assustados com a majestade inefável, enquanto a voz do Pai exige obediência escrupulosa ao Filho. Contudo, a glória revelada no Tabor não anula o caminho do Calvário; o toque consolador do Mestre, erguendo os discípulos prostrados, e a ordem de guardar silêncio até a ressurreição, ensinam-nos que a divindade se une à humanidade justamente para vencer o medo, e que a verdadeira exaltação e a compreensão dos altos mistérios só são possíveis através da aceitação do sacrifício redentor (São Leão Magno, Sermão 51; São Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 45, a. 1-4).
Esta mesma oração que sobe à presença do Senhor ganha contornos concretos na exortação do apóstolo, que nos ensina como deve viver uma comunidade cuja súplica foi ouvida. Orar sem cessar não é um mero exercício intelectual, mas uma atitude vital que se reflete na caridade ativa: corrigir, consolar, sustentar e ser paciente. Para que a oração diuturna encontre guarida nos céus, é preciso que o cristão preserve em si a graça do Espírito Santo, não apagando a sua luz com o pecado ou com a retribuição do mal. A santificação total do espírito, alma e corpo, desejada pela vontade de Deus, assemelha-se à pureza das vestes brancas da transfiguração, preparando o fiel para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Exigindo o exercício contínuo das virtudes teologais, a vivência apostólica purifica o entendimento e afasta o homem de toda a aparência do mal, garantindo que a paz divina habite de forma imaculada naqueles que clamam a Deus de dia e de noite.
O percurso do cristão, portanto, entrelaça profundamente a disciplina ascética da caridade fraterna com a alta vocação à contemplação da glória. A súplica constante, que roga para ser ouvida, traduz-se tanto no suportar pacientemente as fraquezas do próximo quanto no assombro reverente diante da luz que emana da face do Salvador. Abraçando a cruz nas dificuldades ordinárias e conservando a alma irrepreensível pela ação contínua do Espírito Santo, preparamos nosso ser por inteiro para subir o monte santo. Assim, o esforço vigilante desta vida não é senão o prelúdio da transfiguração eterna, onde o pranto de nossa oração presente se dissipará diante do triunfo luminoso da ressurreição.