Na liturgia tradicional da Quaresma, cada dia ferial possui uma profunda raiz histórica ligada ao sistema das igrejas estacionais de Roma, organizado principalmente pelos papas São Gregório Magno e São Leão Magno. A terça-feira da segunda semana da Quaresma tem sua estação designada na antiga basílica de Santa Balbina, localizada no pequeno monte Aventino. A escolha desta igreja estacional não é aleatória, mas reflete o espírito de penitência e peregrinação da Roma cristã primitiva, onde o Papa, o clero e o povo se reuniam diariamente para caminhar em procissão cantando ladainhas até o local sagrado do dia, a fim de celebrar o sacrifício eucarístico sobre as relíquias dos mártires. Santa Balbina, virgem e mártir do século II, filha do tribuno Quirino, converteu-se ao cristianismo e abraçou a coroa do martírio, tornando-se um emblema da purificação quaresmal através do derramamento do próprio sangue por amor a Cristo. A peregrinação a este santuário servia para recordar aos catecúmenos que se preparavam para o batismo, e aos penitentes públicos que buscavam a reconciliação, que a verdadeira conversão exige o sacrifício total de si mesmo. A estrutura ferial quaresmal anterior a 1950 preserva intacta esta pedagogia espacial e espiritual, onde a geografia urbana de Roma se transforma em um vasto relicário a céu aberto, ensinando que a jornada rumo à Páscoa é sustentada pelo mérito e pela intercessão dos santos mártires que nos precederam com o sinal da fé.
🎵 Introito (Sl 26, 8 e 9 | ib., 1)
Tibi dixit cor meum, quæsívi vultum tuum. vultum tuum, Dómine, requíram: ne avértas fáciem tuam a me. Ps. Dóminus illuminátio mea, et salus mea: quem timébo?
Meu coração Vos diz: Procuro a vossa face, Senhor, procurarei a vossa presença; não afasteis de mim a vossa face. Sl. O Senhor é minha Luz e minha Salvação; a quem temerei?
📜 Epístola (3 Reis 17, 8-16)
In diébus illis: Factus est sermo Dómini ad Elíam Thesbíten, dicens: Surge et vade in Saréphta Sidoniórum, et manébis ibi: præcépi enim ibi mulíeri víduæ, ut pascat te. Surréxit et ábiit in Saréphta. Cumque venísset ad portam civitátis, appáruit ei múlier vídua cólligens ligna, et vocávit eam, dixítque ei: Da mihi páululum aquæ in vase, ut bibam. Cumque illa pérgeret, ut afférret, clamávit post tergum eius, dicens: Affer mihi, óbsecro, et buccéllam panis in manu tua. Quæ respóndit: Vivit Dóminus, Deus tuus, quia non habeo panem, nisi quantum pugíllus cápere potest farínæ in hýdria, et páululum ólei in lécytho: en, collige duo ligna, ut ingrédiar, et fáciam illum mihi et fílio meo, ut comedámus et moriámur. Ad quam Elías ait: Noli timére, sed vade, et fac, sicut dixísti: verúmtamen mihi primum fac de ipsa farínula subcinerícium panem párvulum, et affer ad me: tibi autem et fílio tuo fácies póstea. Hæc autem dicit Dóminus, Deus Israël: Hýdria farínæ non defíciet, nec lécythus ólei minuétur, usque ad diem, in qua Dóminus datúrus est plúviam super fáciem terræ. Quæ ábiit, et fecit iuxta verbum Elíæ: et comédit ipse et illa et domus eius: et ex illa die hýdria farínæ non defécit, et lécythus ólei non est imminútus, iuxta verbum Dómini, quod locútus fúerat in manu Elíæ.
Naqueles dias, a palavra do Senhor foi dirigida a Elias, de Tesbé, nestes termos: Levanta-te, vai a Sarepta dos Sidônios e ali permanece: porque ordenei ali a uma mulher viúva, que te sustente. Levantou-se Elias e foi a Sarepta. Chegando à porta da cidade, apareceu-lhe uma mulher viúva que juntava lenha. Chamou-a, dizendo-lhe: Dá-me um pouco de água em um vaso, para que beba. Enquanto ela ia buscar água para lhe dar, ele gritou atrás dela, dizendo: Traze-me também, suplico-te, um bocado de pão, em tua mão. Ao que ela respondeu: Pelo Senhor, teu Deus, que não tenho pão; tenho apenas um pouco de farinha, quanto possa caber em uma vasilha, e um pouco de azeite em um vaso. Venho apanhar alguns pedaços de lenha para ir aprontar comida para mim e para meu filho, para que comamos e depois morramos. E Elias respondeu: Não te preocupes, mas vai e faze como disseste; porém prepara primeiro para mim, desse restinho de farinha, um pequeno pão cozido nas cinzas e traze-mo; farás o mesmo depois para ti e para teu filho. Porque, eis o que disse o Senhor Deus de Israel: A farinha que está na vasilha não faltará, nem o óleo diminuirá no vaso até o dia em que o Senhor faça chover sobre a terra. Foi-se pois a mulher e fez conforme a palavra de Elias; e Ele comeu, e ela, e toda a sua família. E desde esse dia, a farinha não faltou na vasilha, nem o óleo diminuiu no vaso, como o Senhor dissera pela boca de Elias.
📖 Evangelho (Mt 23, 1-12)
In illo témpore: Locútus est Iesus ad turbas et ad discípulos suos, dicens: Super cáthedram Moysi sedérunt scribæ et pharisǽi. Omnia ergo, quæcúmque díxerint vobis, serváte et fácite: secúndum ópera vero eórum nolíte fácere: dicunt enim, et non fáciunt. Alligant enim ónera grávia et importabília, et impónunt in húmeros hóminum: dígito autem suo nolunt ea movére. Omnia vero ópera sua fáciunt, ut videántur ab homínibus: dilátant enim phylactéria sua, et magníficant fímbrias. Amant autem primos recúbitus in cenis, et primas cáthedras in synagógis, et salutatiónes in foro, et vocári ab homínibus Rabbi. Vos autem nolíte vocári Rabbi: unus est enim Magíster vester, omnes autem vos fratres estis. Et patrem nolíte vocáre vobis super terram, unus est enim Pater vester, qui in cœlis est. Nec vocémini magístri: quia Magíster vester unus est, Christus. Qui maior est vestrum, erit miníster vester. Qui autem se exaltáverit, humiliábitur: et qui se humiliáverit, exaltábitur.
Naquele tempo, falou Jesus às multidões e a seus discípulos, dizendo: Sobre a cadeira de Moisés assentaram-se os escribas e os fariseus. Tudo pois, quanto eles vos disserem, observai-o e fazei-o. Não imiteis, porém, as suas obras, porque o que dizem, não o fazem. Eles amarram fardos pesados e insustentáveis e os põem nos ombros dos homens; não querem, porém, movê-los com um dedo seu. Fazem todas as suas obras, para serem vistos pelos homens, pelo que, usam filatérias mais largas e mais compridas franjas. Gostam dos primeiros lugares nas festas, e das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações no foro, e de serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não queirais ser chamados mestres, porque um só é vosso Mestre; todos vós sois, no entanto, irmãos. E não chameis de pai a ninguém na terra: um só é vosso Pai, O que está nos céus. Não vos chamem de mestres, que o vosso Mestre é só um: o Cristo. O que é o maior dentre vós será o vosso servo. Aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar exaltado será.
✨ A busca da face divina através da caridade e da humildade
A antífona do introito desta liturgia coloca em nossos lábios o clamor essencial da alma penitente: "Procuro a vossa face, Senhor". Encontrar a face de Deus exige a purificação do olhar interior, algo frontalmente oposto à atitude dos fariseus denunciada no Evangelho. A hipocrisia farisaica consiste na substituição da busca pelo olhar de Deus pela busca ávida pelo olhar dos homens. São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre o Evangelho de São Mateus (Homilia 72), adverte que a vanglória é uma paixão tirânica que rouba o mérito de todas as virtudes, transformando a piedade em mero teatro. O Senhor não condena a autoridade da Cátedra de Moisés, mas a terrível dissonância entre a palavra ensinada e a vida vivida. Para contemplar a face do Único Mestre, o Cristo, a alma deve descer os degraus da exaltação própria e revestir-se da condição de servo, compreendendo que a verdadeira grandeza no Reino dos Céus não se mede pelas franjas das vestes ou pelos títulos ostentados, mas pela profundeza da obediência e do aniquilamento voluntário por amor aos irmãos.
A verdadeira disposição para atrair o olhar e a providência divinos é revelada de forma sublime na Epístola, através da figura da viúva de Sarepta. Enquanto os fariseus acumulam poder e atenções, a viúva entrega o sustento da sua própria vida. Ela está à beira da morte pela fome, possuindo apenas um punhado de farinha e algumas gotas de azeite, mas diante da palavra do profeta Elias, ela pratica o sacrifício supremo da caridade. Santo Agostinho, ao refletir sobre este mistério (Sermão 11), ensina que aquela mulher, ao oferecer o alimento material ao profeta, estava colhendo a semente da graça espiritual. Ela não confiou na segurança tangível de seus escassos bens, mas depositou sua fé absoluta na palavra do Senhor que lhe foi dirigida. A sua indigência material tornou-se o receptáculo do milagre incomensurável, pois a farinha da sua fé não faltou e o azeite da sua caridade não secou. Ela encontrou a face do Deus invisível ao acolher o homem de Deus com uma generosidade que superava o apego à própria vida terrena.
A união destas duas realidades litúrgicas nos ensina que o encontro com o Senhor, suplicado no introito, só se realiza na intersecção entre o abandono de si e a entrega ao outro. A presunção dos fariseus os cega para a presença de Deus, pois estão repletos de si mesmos e do desejo de glória mundana. Em contraste, a viúva de Sarepta, esvaziada de recursos e de egoísmo, torna-se o modelo perfeito da alma quaresmal que se humilha até o pó e, por isso, é exaltada pela providência milagrosa. Buscar a face de Deus é, portanto, aceitar que a verdadeira sabedoria não habita nas primeiras cadeiras das sinagogas, mas no silêncio de um lar pobre em Sarepta, onde o pouco que se tem, quando entregue com amor oblativo, torna-se a fonte inesgotável da graça que nos conduzirá, purificados de toda vaidade, às alegrias da Páscoa eterna.