⚕️A liturgia deste domingo nos apresenta o Cristo Médico, que cura as enfermidades do corpo e da alma. O homem hidrópico, inchado pela doença, é uma figura da alma humana inflada pelo orgulho e pelas paixões desordenadas, que encontra em Jesus o único remédio para sua condição. O Senhor não apenas restaura a saúde física do homem, mas aproveita a ocasião para ensinar a mais necessária das virtudes: a humildade. Santo Agostinho, comentando esta passagem, estabelece um paralelo direto: “O hidrópico inchava de água; o outro, o orgulhoso, de soberba. Aquele que curou o hidrópico deu também um preceito ao soberbo.” A Missa, portanto, é um convite a nos apresentarmos diante do Médico Divino, reconhecendo nossas próprias "hidropisias" espirituais e pedindo a graça da humildade para sermos exaltados no Reino dos Céus.
🙏Introito (Sl 85, 3 e 5 | ib., 1)
Miserére mihi, Dómine, quóniam ad te clamávi tota die... Senhor, tende piedade de mim. Eu clamo a Vós todo o dia: Vós, Senhor, sois bondoso e manso, e rico em misericórdia para com todos os que Vos invocam. Sl. Inclinai, Senhor, os vossos ouvidos e escutai-me, porque sou desprotegido e pobre. ℣. Glória ao Pai…
📜Epístola (Ef 3, 13-21)
Irmãos: Rogo-vos que não desanimeis, vendo minhas tribulações por vós, pois elas redundam em vossa glória. Por esta razão dobro os meus joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual tem origem toda a paternidade que há no céu e na terra. Segundo as riquezas de sua glória, Ele vos conceda sejais poderosamente fortalecidos no Espírito, segundo o homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e fundados na caridade, para que sejais capazes de compreender com todos os Santos, qual seja a largura e o comprimento, a altura e a profundidade [do Mistério de Cristo] e conhecer o Amor de Cristo que excede todo o entendimento, e encher-vos de toda a plenitude de Deus. Àquele que é poderoso para fazer muito mais do que pedimos ou pensamos, segundo o poder com que em nós opera, a Ele seja dada a glória na Igreja e em Cristo Jesus, em todas as gerações pelos séculos dos séculos. Amém.
📖Evangelho (Lc 14, 1-11)
Naquele tempo, quando Jesus, num sábado, entrou em casa de um dos principais fariseus, para aí tomar a refeição, estes O observavam. Apresentou-se-Lhe então um homem que era hidrópico. E Jesus tomou a palavra, e perguntou aos doutores da lei e aos fariseus: É permitido curar em dia de sábado? Eles porém ficaram calados. Então Jesus tocou no homem, curou-o e mandou-o embora. Depois, dirigiu-se aos outros e disse: Quem de vós, se lhe cair um jumento ou um boi num poço, não o retira logo, ainda que em dia de sábado? A isto eles nada podiam replicar. Notando como os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, disse-lhes ainda esta parábola: Quando fores convidado a núpcias, não te assentes no primeiro lugar, porque pode ser que um outro de mais consideração do que tu tenha sido convidado pelo dono da casa, e que, vindo este que convidou a ti e a ele, te diga: Cede o lugar a este; e tu envergonhado, vás ficar no último lugar. Antes, quando fores convidado, vai ocupar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, vem mais para cima. Então terás glória perante os convivas. Porque todo o que se eleva, será humilhado; e o que se humilha, será exaltado.
🤔Reflexões
💡A cura do hidrópico no sábado demonstra que a lei da caridade suplanta a observância meramente ritual, pois o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo (Santo Agostinho, Sermão 112). A plenitude de Deus, mencionada na Epístola, só pode habitar um coração esvaziado de si mesmo; por isso, Cristo, após curar o corpo doente, oferece o remédio para a alma orgulhosa através da parábola da humildade (São Gregório Magno, Moralia in Job, XXIII). A profundidade do amor de Cristo, que excede todo entendimento, manifesta-se precisamente em sua condescendência para com os enfermos e pecadores, ensinando que o caminho para a exaltação divina passa necessariamente pela humilhação voluntária (São Cirilo de Alexandria, Comentário sobre o Evangelho de Lucas).
🔄O Evangelho de São Lucas é o único a narrar a cura do homem hidrópico e a parábola dos primeiros lugares neste contexto específico. Contudo, o tema da cura no sábado, desafiando a interpretação legalista dos fariseus, aparece em outras passagens, como na cura do homem da mão seca (Mt 12, 9-14; Mc 3, 1-6) e do paralítico de Betesda (Jo 5, 1-18). A exortação final, "quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será exaltado", ecoa uma admoestação semelhante em Mateus 23, 12, proferida no contexto de uma crítica direta aos escribas e fariseus por seu amor aos primeiros lugares e títulos de honra, enquanto Lucas a insere de forma mais narrativa, como um ensinamento durante uma refeição.
✉️A conexão entre a humildade do Evangelho e os escritos de São Paulo é profunda. A exaltação do humilde encontra seu arquétipo na Cristologia paulina, especialmente em Filipenses 2, 6-11, onde Cristo "humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte", e por isso "Deus o exaltou soberanamente". A oração da Epístola para que os fiéis sejam "fortalecidos no homem interior" (Ef 3, 16) complementa a moral do Evangelho: é a humildade que esvazia o coração da soberba e abre espaço para que Cristo habite pela fé e a caridade se enraíze, construindo este "homem interior" segundo a plenitude de Deus.
🇻🇦O Magistério da Igreja reafirma constantemente estas verdades. O Catecismo do Concílio de Trento ensina que a humildade é o fundamento de todas as virtudes e a condição necessária para receber a graça divina, sem a qual nenhuma boa obra é possível, alinhando-se perfeitamente com a sentença final do Evangelho. A Encíclica Miserentissimus Redemptor (Pio XI) aponta o orgulho como a raiz dos pecados que ofendem o Sagrado Coração de Jesus, propondo a humildade e a submissão como atos de reparação. Ademais, a legitimidade das obras de misericórdia no dia do Senhor, como a cura operada por Cristo, é um princípio basilar do ensinamento moral da Igreja sobre o terceiro mandamento, que prioriza a caridade sobre um legalismo vazio.