Introito - Scio, cui crédidi, et certus sum, quia potens est depósitum meum servare in illum diem, iustus judex... Sl. Dómine, probásti me, et cognovísti me: tu cognovísti sessiónem meam, et resurrectiónem meam.Eu sei em quem acreditei, e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito, até aquele dia, Ele, o justo Juiz. Sl. Senhor, Vós me provais e me conheceis. E sabeis a minha morte e a minha ressurreição.
Neste dia, a Santa Igreja prolonga os esplendores da solenidade dos Príncipes dos Apóstolos para render um preito de honra singular a São Paulo, o Vaso de Eleição. Saulo de Tarso, outrora o mais feroz perseguidor do rebanho de Cristo, foi derrubado em seu orgulho no caminho de Damasco e erguido pela luz fulgurante do Redentor para tornar-se o Apóstolo dos Gentios. Consumido por um zelo devorador pela salvação das almas e pela exaltação da Santa Cruz, ele percorreu o mundo conhecido plantando a verdadeira Fé, suportando açoites, naufrágios, prisões e o ódio implacável dos inimigos de Deus. Sua prodigiosa carreira terrena culminou em Roma, no ano de 67 d.C., sob o império sangrento de Nero, onde sua cabeça foi decepada pela espada, derramando seu sangue generoso para fecundar o solo da Igreja nascente. Seus sagrados restos mortais repousam gloriosamente sob o altar papal da majestosa Basílica de São Paulo Extramuros, erguendo-se como farol perpétuo da inquebrantável verdade apostólica.
Ouçamos o brado do grande Apóstolo que ecoa pela abóbada dos séculos! Na Epístola de hoje, São Paulo ergue a voz para nos garantir uma verdade inegociável: o Evangelho que ele anuncia não é invenção humana, não foi habilmente moldado para acariciar os ouvidos das multidões ou mendigar o aplauso das praças. Vede, almas cristãs, o contraste abismal entre a firmeza diamantina do Apóstolo e a covardia que tantas vezes paralisa os nossos dias! Acaso não contemplamos uma época obscura, onde o altar é rebaixado e a cruz é rejeitada como um fardo insuportável? Quantos, outrora defensores do rebanho, deixaram-se seduzir pelo fascínio das facilidades terrenas, preferindo sorrir para o mundo a chorar pelos próprios pecados, adaptando a severidade da doutrina aos caprichos de um tempo doente? A serpente antiga, ardilosa e astuta, já não precisa rugir como fera; basta-lhe sussurrar ilusões, espalhando novidades camufladas sob o pretexto de agradar aos homens, promovendo alterações sutis na aparência, mas profundamente destrutivas na essência, para assim apagar a luz da fé nas almas incautas. Mas o Apóstolo nos aponta outro caminho. Ele, que foi arrancado das trevas pela pura misericórdia de Cristo - recordando-nos, com os grandes Doutores, que a verdadeira conversão não brota do esforço humano, mas do abismo insondável da graça -, combateu sem tréguas os erros de sua época, não cedendo um milímetro sequer àqueles que desejavam misturar a pureza da Nova Aliança com os erros antigos. No Evangelho, o Divino Mestre nos avisa que somos enviados como ovelhas no meio de lobos. Pede-nos a simplicidade da pomba, sim, mas exige-nos a sagacidade da serpente! Não há acordo possível entre a luz e as trevas, entre a eternidade e o tempo passageiro. É na recusa das honras fugazes, como nos ensinam os Santos Padres, que resplandece o verdadeiro martírio do coração e se demonstra a caridade perfeita. Paulo suportou as correntes e a espada para que o depósito sagrado nos chegasse intacto. Como poderíamos nós trair tão preciosa herança em troca de um punhado de fumaça? Erguei os olhos para o Santo Sacrifício! Ali está o Cordeiro Imaculado que não fez alianças com o pecado. Supliquemos hoje, pela poderosa intercessão de São Paulo, a graça inestimável de uma fé intransigente, de um amor purificado de todo apego mundano, para que, guardando intacto o nosso depósito através das tribulações desta vida, possamos comparecer sem mancha e coroados de glória perante o Tribunal do justo Juiz!
Epístola (Gál 1, 11-20) - Irmãos: Eu vos digo que o Evangelho que eu vos anunciei nada tem de humano, porque não o recebi de um homem, nem aprendi de outro modo, porém por uma revelação de Jesus Cristo. Aprendestes com efeito, qual foi minha conduta no judaísmo; como eu perseguia a Igreja de Deus e a arruinava. Eu ultrapassava no judaísmo muitos daqueles de minha idade e minha nação, tendo um zelo mais ardente pelas tradições de meus pais. Quando porém, aprouve Aquele que me escolheu no seio de minha mãe e me chamou por sua graça a revelar seu Filho em mim, para que eu fosse evangelizar as nações, imediatamente, sem tomar conselho nem de carne nem de sangue, sem ir, outrossim, a Jerusalém, àqueles que eram Apóstolos antes de mim, eu fui à Arábia e voltei ainda a Damasco. Em seguida, depois de três anos, vim a Jerusalém para ver a Pedro e fiquei com ele quinze dias; mas não vi nenhum outro dos Apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. Nisto que vos escrevo, diante de Deus, não há mentira.
Evangelho (Mt 10, 16-22) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como serpentes, e simples como pombas. Preveni-vos contra os homens. Eles vos entregarão a seus tribunais e em suas sinagogas vos açoitarão; e sereis conduzidos ante os governadores e os reis, para lhes servir de testemunha e às nações. Quando vos entregarem, não vos inquieteis da maneira de vosso falar, nem do que haveis de dizer, porque vos será inspirado no momento oportuno o que tereis de falar. Não sois vós quem fala; é porém o Espirito de vosso Pai, quem fala em vós. O irmão entregará o seu irmão à morte e o pai, o filho; os filhos se insurgirão contra os pais e os farão morrer; sereis odiados por todos, por causa de meu Nome; o que perseverar, no entanto, até o fim, será salvo.