🕯️Esta celebração litúrgica, situada no limiar da grande solenidade da Epifania, convoca os fiéis ao recolhimento e à preparação para a manifestação gloriosa do Senhor às nações. Diferente da tranquilidade do Natal, a Vigília da Epifania carrega um tom de expectativa solene e mistério profundo, marcado pelo retorno da Sagrada Família do Egito, simbolizando o novo Êxodo e a verdadeira libertação do povo de Deus. A liturgia destaca a divindade de Cristo que rompe o silêncio da noite e a providência divina que guia seus passos, protegendo o Menino Deus da fúria dos tiranos terrenos. É um momento de transição entre o ocultamento e a revelação pública, onde a Igreja medita sobre a filiação divina e a herança eterna prometida àqueles que, libertos do jugo da lei antiga, abraçam a graça trazida pelo Verbo Encarnado.
🎼Introito (Sab 18, 14-15; Sl 92, 1)
Dum médium siléntium tenérent ómnia, et nox in suo cursu médium iter habéret, omnípotens Sermo tuus, Dómine, de cœlis a regálibus sédibus venit. Ps. Dóminus regnávit, decórem indútus est: indutus est Dóminus fortitúdinem, et præcínxit se.
Enquanto um profundo silêncio envolvia todas as coisas, e a noite estava no meio de seu curso, a vossa onipotente Palavra, ó Senhor, desceu dos céus, de seu trono real. Sl. O Senhor reinou, vestiu-se de esplendor: o Senhor vestiu-se de fortaleza e cingiu-se.
📜Epístola (Gl 4, 1-7)
Irmãos: Enquanto o herdeiro é menino, em nada difere do servo, embora seja senhor de tudo: mas está sob tutores e curadores até o tempo determinado pelo pai. Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão sob os elementos do mundo. Mas, quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai. Portanto, já não és servo, mas filho: e se és filho, és também herdeiro por Deus.
✠Evangelho (Mt 2, 19-23)
Naquele tempo: Morto Herodes, eis que o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José no Egito, dizendo: Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, e vai para a terra de Israel: porque morreram os que procuravam a vida do Menino. Ele, levantando-se, tomou o Menino e sua Mãe, e veio para a terra de Israel. Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judeia em lugar de Herodes, seu pai, temeu ir para lá: e, avisado em sonhos, retirou-se para as partes da Galileia. E, chegando, habitou na cidade que se chama Nazaré: para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: Será chamado Nazareno.
🙌A Filiação Divina e o Silêncio da Providência
🌌A liturgia da Vigília da Epifania nos insere no mistério do silêncio operoso de Deus, que prepara a grande manifestação de Sua glória. O Introito, retirado do livro da Sabedoria, recorda que foi no meio da noite e do silêncio que o Verbo onipotente desceu do trono real. Este silêncio não é vazio, mas plenitude de presença; é a condição necessária para que a Palavra eterna seja ouvida na alma, contrastando com o ruído do mundo representado pela agitação de Herodes e Arquelau. No Evangelho, vemos a Providência Divina guiando São José através de sonhos — a comunicação silenciosa de Deus — para proteger o Verbo Encarnado. O retorno do Egito não é apenas um movimento geográfico, mas teológico: Cristo recapitula a história de Israel, sendo Ele o verdadeiro Filho que Deus chama do Egito (Os 11, 1), não mais para a servidão da Lei, mas para inaugurar a liberdade da graça. A Epístola aos Gálatas ilumina este mistério ao declarar que, na "plenitude dos tempos", deixamos a condição de servos para assumir a de filhos. Santo Agostinho nos ensina que, ao assumir a nossa humanidade mortal, Cristo nos conferiu a Sua divindade imortal, fazendo-nos coerdeiros; Ele desceu para que nós subíssemos, e permaneceu no seio do Pai mesmo ao vir até nós (Santo Agostinho, Sermão 119). Assim, a vida oculta em Nazaré, mencionada no final do Evangelho, é o florescimento dessa nova realidade: o "Nazareno" (aquele que floresce) germina no silêncio da vida cotidiana para, na Epifania, revelar-se como a Luz das Nações. A nossa adoção filial, portanto, exige que vivamos guiados pelo Espírito, clamando "Abba, Pai", confiantes de que, mesmo sob as ameaças dos poderes deste mundo, a mão de Deus conduz a história da salvação.
Veja o calendário do mês aqui.