Introito - Gaudeámus omnes in Dómino, diem festum celebrántes sub honóre beátæ Annæ, de cujus solemnitáte gaudent Angeli, et colláudant Fílium Dei. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi.Alegremo-nos todos no Senhor, festejando este dia em honra de Sant'Ana, por cuja solenidade se alegram os Anjos e louvam o Filho de Deus. Sl. Exulta o meu coração em alegre canto; ao Rei dedico as minhas obras.
Santa Ana, cujo nome hebraico significa «graça», foi a predileta eleita desde toda a eternidade para ser a mãe da Bem-Aventurada Virgem Maria e avó, segundo a carne, de Nosso Senhor Jesus Cristo. A venerável tradição da Igreja ensina que, unida em puríssimo matrimônio a São Joaquim, suportou com heroica paciência o amargo estigma da esterilidade, padecendo o opróbrio de um mundo cego aos desígnios insondáveis do Altíssimo. Em resposta às suas lágrimas e jejuns constantes, o Céu abriu-se para lhe confiar o lírio imaculado, a Nova Eva, de cujo seio nasceria o Redentor de nossas almas. Seu humilde lar converteu-se no primeiro tabernáculo da Nova Aliança, uma escola perene de silêncio, virtude e contínua adoração. Em meio a uma época de profunda aridez espiritual, esta santa matriarca ergueu-se como um farol imperturbável da verdadeira esperança messiânica. Venerada desde os alvores do cristianismo no Oriente, seu culto expandiu-se gloriosamente por todo o Ocidente. Embora suas relíquias sagradas tenham sido honradas em diversos relicários, a glória de sua memória resplandece de maneira ímpar na Igreja de Sant'Anna dei Palafrenieri, em Roma, onde incontáveis corações se achegam em busca do colo daquela que embalou a própria Mãe de Deus.
Oh, quão formidável e sublime é o mistério que se desvela diante de nossos olhos nos sagrados ritos deste dia! Ao escutarmos as palavras da Epístola, uma interrogação ecoa no fundo da consciência: quem encontrará a mulher forte? Ela é comparada a um tesouro vindo dos últimos confins da terra. Irmãos caríssimos, não vos enganeis reduzindo Santa Ana a uma doce memória do passado; ela é, na verdade, a fortaleza de fogo erguida pela Providência para esmagar as ilusões de um mundo enfermo, de um século que repudia a cruz e despreza a doutrina redentora. Assistimos com horror a uma era inebriada pelos perfumes das lisonjas humanas, onde o veneno da facilidade tenta paralisar as veias do Corpo Místico, buscando substituir a austera majestade do Calvário pelas glórias ocas que seduzem o paladar dos mundanos. Inimigos mascarados introduzem-se pelos sagrados corredores, propalando uma compaixão mutilada e artifícios sutis para agradar aos homens, renegando a Deus. Mas que nos ensina a gloriosa Sant'Ana? Ela amou a aspereza do fuso e a solidão da obediência! Abraçou a dor da esterilidade até que a mão invisível de Deus fizesse desabrochar o ventre puríssimo que abrigaria a Salvação. Não percebeis que todos os Santos são enviados como exércitos terríveis, destinados a esmagar sob os calcanhares os perigos espirituais e os vícios de suas eras? Eles erguem o inabalável estandarte do sacrifício lá onde a covardia, o comodismo e o afago aos sentidos ameaçam arruinar as almas. Lede o Santo Evangelho e vede o homem que, descobrindo o tesouro oculto, tudo vende para comprá-lo. Que tesouro inestimável é este senão a Fé íntegra, a Graça fulgurante que exige de nós o abandono cabal das vaidades da terra? Santa Ana guardou este tesouro na intimidade do seu teto, preparando silenciosamente a morada do Verbo Encarnado. Qual tem sido, então, o vosso tesouro? Estará o vosso coração prestando adoração no altar da imortalidade ou rastejando, seduzido, pelas mesas perecíveis dos prazeres vis? Grandes faróis da inteligência católica advertem-nos, com severidade ardente, que o Reino dos Céus sofre violência, e que somente aqueles que se arrancam dos apegos terrenos poderão cingir a coroa dos justos. Vede, portanto, que a Santa Liturgia não é um teatro vazio ou um mero entretenimento para os sentidos, mas o real e vivo sacrifício de louvor que rasga os céus, separando impiedosamente a luz da verdade das trevas da perdição, o bom peixe da podridão. Voltai os olhos para o Santuário, purificai a consciência! Que cada palavra pronunciada pelo sacerdote no altar sagrado lave o vosso interior, manchado por tantos compromissos com o mundo. Emendai a vossa vida, para que no derradeiro dia, a exemplo da mulher forte do livro dos Provérbios, possais rir, não com a gargalhada desesperada daqueles que perderam a alma para lucrar o mundo, mas com o sorriso triunfante e eterno daqueles que, tendo preservado intacto o tesouro da Fé, contemplam face a face a glória do Deus Altíssimo!
Epístola (Prov 31, 10-31) - A mulher forte, quem a encontrará? É como um tesouro que vem de longe, dos últimos confins da terra. Nela confia o coração de seu marido, e nunca lhe faltará o ganho. Ela lhe fará o bem, e nada de mal, em todos os dias de sua vida. Ocupa-se com a lã e o linho e trabalha com a destreza de suas mãos. É como o navio do negociante, que traz de longe o seu pão. Levanta-se quando ainda é noite, e distribuí o alimento por seus domésticos e os víveres por suas criadas. Procura um campo e compra-o; planta uma vinha com o ganho de suas mãos. Cinge os seus rins de força, e torna fortes os seus braços. Experimenta, e vê que o seu negócio é bom, e a sua lâmpada não se apagará à noite. Deita as suas mãos em trabalhos rudes, e os seus dedos pegam no fuso. Abre a sua mão ao necessitado e estende os seus braços para o pobre. Não receará para a sua família os rigores do frio e da neve, porque todos os seus domésticos têm roupa em duplo. Fabricou para si um manto espesso; vestiu-se de linho finíssimo e de púrpura. Seu marido será ilustre quando se assentar às portas da cidade, com os anciãos da terra. Tece uma túnica de linho e vende-a; e entrega um cinto ao negociante cananeu. A força e o decoro são os seus adornos, e, risonha, verá o seu último dia. Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da clemência está em sua língua. Examina as veredas de sua casa, e não come o pão na ociosidade. Levantam-se os seus filhos e proclamam-na ditosíssima. Seu marido também a enalteceu, dizendo: Muitas filhas ajuntaram riquezas; tu excedeste a todas. A graça é enganadora e a formosura é vã; mas a mulher que teme o Senhor, essa é que será louvada. Dai-lhe o fruto de suas mãos; e as suas obras a elogiem, às portas da cidade.
Evangelho (Mt 13, 44-52) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Quem o encontra o esconde, e contente com o achado, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. - O Reino dos céus é também semelhante a um mercador que procurava belas pérolas, e tendo achado uma de grande valor, foi-se, vendeu tudo o que tinha, e comprou a pérola. O Reino dos céus é ainda semelhante a uma rede, que lançada ao mar, colheu peixes de toda a espécie. Quando estava cheia, os pescadores a puxaram para a praia, e sentados ali, escolheram os bons peixes para os vasos, e lançaram fora os ruins Assim será no fim do mundo. Virão os Anjos e separarão os maus do meio dos Justos, e os lançarão na fornalha de fogo. E ali haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isto? Responderam-Lhe: Sim. E Ele continuou: Por esta razão todo escriba instruído no Reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.