quarta-feira, 1 de abril de 2026

† Quarta-feira da Semana Santa
O preço da nossa redenção

LA EN Integrando a tradição litúrgica da Quarta-feira da Semana Santa, a Igreja nos convida a meditar sobre o amargo mistério da traição que antecede o Tríduo Pascal. Historicamente, este dia é conhecido como a "Quarta-feira de Trevas" ou o dia da traição, pois, segundo a Tradição, foi nesta data que Judas Iscariotes foi ao Sinédrio para combinar o preço que seria pago por Jesus, estipulando-o em trinta moedas de prata. Esse valor, que na lei antiga era o preço de um escravo, revela o profundo paradoxo da nossa salvação: o Cristo, cujo preciosíssimo Sangue possui valor infinito, permitiu ser vendido como um objeto para pagar o preço da redenção dos escravos que éramos nós. Enquanto o povo de Israel no Antigo Testamento foi salvo pelo sangue de um cordeiro aspergido nas portas para fugir da morte biológica e da escravidão no Egito, a entrega de Jesus nos liberta da condenação perpétua e do poder de Satanás. A própria traição de Judas demonstra como Deus, em sua insondável Providência, utiliza até as engrenagens do pecado humano para manifestar o seu amor e a sua vitória. Na liturgia estacional de Roma, os fiéis reúnem-se na Basílica de Santa Maria Maior, buscando o refúgio e o auxílio da Mãe de Deus na iminência da Paixão do seu Filho, preparando-se com rigorosa oração e penitência para os sagrados mistérios que se seguirão.

📖 Introito (Fl 2, 10. 8-11; Sl 101, 2)

In nómine Jesu omne genu flectátur, cœléstium, terréstrium et infernórum: quia Dóminus factus est obœdiens usque ad mortem, mortem autem crucis: ídeo Dóminus Jesus Christus in glória est Dei Patris. Ps. Dómine, exáudi oratiónem meam: et clamor meus ad te véniat. In nómine Jesu...

Ao Nome de Jesus se dobrem os joelhos de todos os que estão no céu, na terra e debaixo da terra, porque o Senhor se fez obediente até a morte e morte de Cruz; por isto o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre. Sl. Senhor, ouvi a minha oração e chegue até Vós o meu clamor. Ao Nome...

📖 Primeira Leitura (Is 62, 11; 63, 1-7)

Leitura do Profeta Isaías. Assim diz o Senhor Deus: Dizei à filha de Sião: Eis que teu Salvador aí vem; e a sua recompensa com Ele virá. Quem é aquele que vem de Edom, de Bosra, com as vestes tintas de sangue? Ele é formoso em seu traje e se aproxima na plenitude de sua força. Eu sou Aquele que promete justiça, e venho para defender e salvar. Porque é rubro o teu vestido e as tuas vestes são como as daqueles que espremem num lagar? A espremer no lagar estive só, e nenhum homem entre os povos esteve comigo. Eu os machuquei em meu furor e os esmaguei em minha cólera e o seu sangue salpicou o meu vestido, manchando todas as minhas roupas. Porque eu planejei o dia da vingança e o ano de minha redenção é chegado. Olhei em volta de mim e não havia ninguém para me ajudar; procurei e não achei socorro. Então salvou-me o meu braço e minha própria cólera me deu forças. Esmaguei os povos em meu furor, fi-los cambalear, em minha ira, e prostrei em terra a sua força. Das misericórdias do Senhor eu me lembrei, e O louvarei, por tudo quanto me fez, Ele, o Senhor, nosso Deus.

📖 Segunda Leitura (Is 53, 1-12)

Leitura do Profeta Isaías. Naqueles dias, disse Isaías: Senhor, quem teria acreditado no que ouvimos? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Ele se elevou como um arbusto e como uma raiz que saí da terra árida; não tem beleza nem forma; nós O vimos e não há nele atrativo que O torne desejável. Ele é desprezado, e o último dos homens, um homem de dores que conhece o sofrimento; como encoberta está a sua face e desprezada a ponto de não nos merecer apreço. Em verdade, Ele suportou os nossos sofrimentos e tomou sobre Si as nossas dores e nós O considerávamos como um leproso, um que foi ferido por Deus e humilhado. E no entanto Ele foi ferido por causa de nossas maldades e despedaçado por causa de nossos crimes. O castigo que nos proporcionaria a paz caiu sobre Ele e fomos curados por suas chagas. Todos nós estávamos dispersos como ovelhas; cada um se havia desviado em seu caminho. O Senhor colocou sobre Ele a iniquidade de todos nós. Foi imolado, porque Ele mesmo o quis e não se lamentou. Como uma ovelha que levam à matança ou um cordeiro ante o que o tosquia, assim Ele emudece, e não abre a boca. Depois do cárcere e do julgamento foi eliminado. Quem contará a sua descendência? Porque Ele foi arrancado da terra dos vivos. Eu O feri pelos crimes de meu povo. Junto aos ímpios Lhe dão sepultura e ao lado dos ricos O deixam morrer. Ele não cometeu maldade, nem a mentira esteve jamais em sua boca. O Senhor O quis ferir, no entanto, pelo sofrimento. Quando tiver dado a sua vida pelo pecado, Ele verá uma longa descendência e a vontade do Senhor será por Ele bem cumprida. Por isso que a sua alma sofreu, Ele verá e ficará saciado. Por que muitos o conhecem, Ele mesmo, Servo justo, justificará a muitos homens e tomará sobre Si as suas iniquidades. Eis porque eu Lhe darei uma grande multidão por partilha e Ele distribuirá os despojos dos fortes porque entregou a sua alma à morte. E foi enumerado entre os celerados porque tomou sobre Si os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores.

📖 Paixão (Lc 22, 39-71; 23, 1-53)

Naquele tempo: Saindo Jesus, foi conforme tinha costume, ao monte das Oliveiras; e seus discípulos O seguiram. E quando chegou àquele sítio, disse-lhes Jesus: Orai, para não cairdes em tentação. E sozinho, afastou-se deles a uma distância de um tiro de pedra, e pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; não se faça, no entanto, a minha vontade, mas a tua. Apareceu-Lhe então um Anjo do céu que O confortou. E cheio de angústia orava com mais instância. Seu suor tornou-se como gotas de sangue, caindo em terra. Erguendo-se, depois da oração, veio a seus discípulos e achou-os a dormir, sucumbidos pela tristeza. E disse-lhes: Por que dormis? Erguei-vos e orai, para não entrardes em tentação. Enquanto falava, eis que chega a turba; um dos doze, chamado Judas, a precedia; e aproximando-se de Jesus O beijou. Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um ósculo entregas o Filho do homem? Vendo isto, os que estavam com Jesus, pensaram no que ia suceder e disseram-Lhe: Senhor, feriremos com a espada? E um deles feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Jesus, tomando a palavra, disse: Deixai; é bastante. E tendo tocado a orelha do servo, curou-a. Disse depois Jesus aos que vinham contra Ele, príncipes dos sacerdotes, magistrados do templo e anciãos: Viestes contra mim, como se eu fora um ladrão, com espadas e paus? Todos os dias estive convosco no templo e não estendestes a mão contra mim; esta é porém a vossa hora e a do poder das trevas. Lançando-Lhe então as mãos, eles O levaram à casa do sumo sacerdote. Pedro, porém, O seguiu de longe. Acendendo lume no meio do pátio, todos se assentaram em volta; e estava Pedro no meio deles. E como uma criada o visse, sentado no lume, olhando-o fixamente, disse: Também este estava com Ele. Ele porém, negou, dizendo: Mulher, não O conheço. E passados poucos momentos, um outro, vendo-o, disse-lhe: Também tu és um deles. Pedro porém, respondeu: Homem, não sou. E com intervalo apenas de uma hora, um outro garantia o mesmo, dizendo: Certo, este homem estava com Ele; pois é galileu. E Pedro respondeu: Homem, não sei que dizes. E logo, enquanto ainda falava, o galo cantou. Voltando-se, o Senhor olhou para Pedro. E este recordou-se da palavra do Senhor como a dissera: Antes que o galo cante, três vezes tu me negarás. E saindo, Pedro chorou amargamente. Os homens que guardavam a Jesus, escarneciam d'Ele, batendo-Lhe. Velando-Lhe o rosto, davam-Lhe em sua face interrogando-O: Adivinha, quem foi que Te bateu? E muitas outras blasfêmias diziam contra Ele. Quando se fez dia, reuniram-se os anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas e tendo-O levado a seu conselho, disseram-Lhe: Se Tu és o Cristo, díze-no-lo. E Ele respondeu: Se eu vo-lo disser não acreditais em mim; se eu vos interrogo, não me respondeis e não me haveis de soltar. Passando porém isto, o Filho do homem estará sentado à direita do poder de Deus. Disseram então todos: Tu és então o Filho de Deus? Ele respondeu: Vós o dizeis, Eu o sou. E eles disseram: Que testemunhas precisamos ainda? Nós mesmos o ouvimos de sua boca. E erguendo-se, todos os da multidão O conduziram a Pilatos. Começaram então a acusar Jesus, dizendo: Encontramos Este a sublevar a nossa gente, impedindo-a de pagar tributo a Cesar e dizendo-se o Cristo, o Rei. Pilatos, porém, O interrogou, dizendo: És Tu o Rei dos judeus? Respondendo, Ele disse: Eu o sou. Disse então Pilatos aos príncipes dos sacerdotes e à multidão: Não acho crime nesse homem. Eles insistiam, entretanto, dizendo: Ele subleva o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia até aqui. Pilatos ouvindo falar em Galileia, perguntou se aquele homem era Galileu. E sabendo que era da jurisdição de Herodes, enviou-O a Herodes, que estava em Jerusalém naqueles dias. Herodes, vendo a Jesus, alegrou-se muito. Ele desejava, havia muito, vê-Lo, porque ouvira muitas coisas sobre Ele e esperava presenciar algum milagre seu. Ele O interrogava, pois, com muitas palavras, mas Jesus nada lhe respondia. Estavam ali, porém, os príncipes dos sacerdotes e os escribas, acusando-O continuamente. Tratou-O então Herodes com desprezo com os de sua guarda; escarnecendo d'Ele, revestiu-O com uma túnica branca e mandou-O novamente a Pilatos. E fizeram-se amigos, Herodes e Pilatos, nesse dia; porque antes eram inimigos, um do outro. Pilatos tendo convocado os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, disse-lhes: Vós me apresentastes este homem como causador de revoltas no meio do povo. Eis que, interrogando-O diante de vós, não achei neste homem crime algum de que O acusais. Nem Herodes também; porque vos enviei a ele e eis que nada existe n'Ele que O torne merecedor de morte. Eu o soltarei pois, logo que O tiver castigado. Pilatos era obrigado, porém, a soltar-lhes no dia da festa, um dos presos. Vociferava, no entanto, toda a multidão, dizendo: Faze Este morrer, e solta-nos Barrabás. Era este um que fora preso por causa de uma revolta feita na cidade, e por um homicídio que cometera. Ainda uma vez falou-lhes Pilatos, querendo livrar a Jesus. Eles, porém, clamavam ainda mais: Crucifica-O, crucifica-O. E pela terceira vez, ele lhes disse: Que mal fez Esse? Nenhuma causa de morte encontro n'Ele; eu O castigarei e depois O soltarei. Eles insistiam entretanto em altos gritos, pedindo que Jesus fosse crucificado. E os seus clamores iam sempre crescendo. Pilatos ordenou que executassem o que eles pediam. Soltou-lhes então o que fora preso por homicídio e sedição a quem reclamavam; e deixou Jesus entregue à vontade deles. E quando O conduziram, detiveram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e o obrigaram a levar a cruz, atrás de Jesus. Ora, seguia-O uma grande multidão de homens e mulheres que choravam e O lamentavam. Voltando-se para elas, Jesus disse: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque dias chegarão em que se dirá: Felizes as estéreis e as entranhas que não geraram, e os seios que não aleitaram. Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós; e às colinas: Cobri-nos. Porque, se assim tratam ao lenho verde, que se fará ao seco? Conduziram então com Jesus, dois outros para serem crucificados. E quando chegaram ao lugar que é chamado Calvário, ali O crucificaram, e aos ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. Jesus porém, dizia: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem. E dividindo as suas vestes os soldados lançavam sortes. E estava o povo olhando, e com ele, os príncipes que escarneciam d'Ele, dizendo: A outros salvou; salve a Si mesmo, se é o Cristo, o Eleito de Deus. E também O insultavam os soldados, aproximando-se d'Ele; e ofereciam-Lhe vinagre, dizendo: Se és o Rei dos judeus, salva-Te. Havia por cima da cabeça de Jesus uma inscrição, feita em grego, em latim e em hebraico: Este é o Rei dos judeus. Ora, um dos ladrões que estavam crucificados, blasfemava contra Ele, dizendo: Se Tu és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo e a nós. O outro porém, respondendo, censurava-o, dizendo: Também tu não temes a Deus, estando condenado ao mesmo suplício? Ainda por nós é justo, porque recebemos o castigo de nossas culpas. Ele porém não cometeu crime algum. E disse a Jesus: Senhor, lembrai-Vos de mim quando chegardes a vosso Reino. E Jesus lhe disse: Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso. Era então quase a hora sexta, e trevas cobriam toda a terra, até a hora nona. O sol escureceu: e o véu do templo rasgou-se ao meio. E clamando com voz forte, Jesus disse: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. E dizendo estas palavras, expirou. (Aqui se ajoelha e se faz uma pausa em honra da morte de Nosso Senhor) Vendo então o centurião o que se passava, glorificou a Deus, dizendo: Em verdade este homem era um Justo. E todos os da multidão que assistiam a esse espetáculo e viam o que acontecia, batiam no peito ao regressar. Estavam também à distância todos os que O haviam conhecido, e as mulheres que O haviam seguido da Galileia, vendo estas coisas. E havia um homem chamado José, membro do conselho, homem bom e justo, que não concordara na decisão dos judeus, nem nos atos dos outros; era de Arimateia, cidade da Judeia, e esperava também o Reino de Deus. Ele foi procurar a Pilatos e pediu-lhe o Corpo de Jesus. E tendo-O descido, envolveu-O num lençol e colocou-O num sepulcro talhado na rocha, onde ninguém fora ainda depositado.

✝ O preço da nossa redenção

A imensa narrativa da Paixão segundo São Lucas nos imerge na mais profunda agonia de Cristo, iniciando-se no Horto das Oliveiras, onde o suor de sangue traduz o peso esmagador de assumir as iniquidades do mundo. Esta fraqueza assumida voluntariamente pela divindade revela a perfeição da obediência do Filho, que não recua diante do cálice do sofrimento. A mansidão com que suporta o ósculo de Judas e, mais tarde, os ultrajes nos tribunais de Pilatos e Herodes, atesta que o Verbo Encarnado aceitou a rejeição do mundo não por impotência, mas por um amor soberano. A verdadeira força divina manifesta-se precisamente na decisão de abraçar a cruz, unindo a nossa fragilidade humana à paciência eterna de Deus, que suporta a injustiça para cumprir plenamente o desígnio salvífico (Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de Lucas, 22).

Esse sacrifício absoluto é iluminado pelas visões proféticas de Isaías, que descrevem o Salvador de dupla forma: como o guerreiro com vestes tintas de sangue vindas do lagar e como o Servo Sofredor, sem beleza nem atrativos, ferido pelas nossas maldades. O lagar solitário simboliza o derramamento do próprio sangue redentor que, ao esmagar o império do pecado, não busca a vingança contra a humanidade, mas a sua purificação definitiva, evidenciando uma misericórdia que excede qualquer justiça punitiva (São Gregório Magno, Homilias sobre os Profetas, 63). O sofrimento atroz desse Servo Justo, que emudece como um cordeiro levado ao matadouro, não é um fracasso histórico, mas o altar onde o castigo que nos traria a paz é suportado por Aquele que, sem culpa, carrega a lepra dos nossos pecados para justificar uma grande multidão (Santo Agostinho, Sermões sobre Isaías, 53).

A antífona do Introito costura magnanimamente este mistério ao ordenar que, diante do Nome de Jesus, "se dobrem os joelhos de todos os que estão no céu, na terra e debaixo da terra". A razão para esta exaltação universal encontra-se exatamente na desolação meditada nas leituras e no Evangelho: "porque o Senhor se fez obediente até a morte e morte de Cruz". A obediência do Servo Sofredor, vendido por moedas e levado como um criminoso ao Calvário, é a mesmíssima realeza divina que atrai o ladrão arrependido e rasga o véu do templo. A humilhação suprema de Cristo é o preço pago pela nossa redenção, transformando a árvore da cruz no trono de glória de onde Ele Reina, convidando-nos a prostrar os nossos corações em adoração àquele que nos amou até o fim.