segunda-feira, 6 de abril de 2026

† Segunda-feira da oitava da páscoa
A jornada da fé e o reconhecimento do Cristo ressuscitado

[LA]

A Segunda-feira da Páscoa, celebrada na liturgia tradicional anterior a 1955, é um dia dedicado a aprofundar a alegria da Ressurreição e a meditar sobre as primeiras manifestações de Jesus Cristo glorioso aos seus discípulos. Esta comemoração tem suas raízes na tradição antiga da Igreja de estender as festividades pascais por toda uma oitava, considerando cada dia como "Páscoa", dada a magnitude do evento da Ressurreição. Era um tempo de catequese intensiva e de aprofundamento nos mistérios da fé recém-proclamada. O foco particular deste dia, segundo a liturgia do Vetus Ordo, recai sobre a aparição de Jesus aos discípulos no caminho de Emaús, conforme narrado no Evangelho de Lucas. Esta aparição é emblemática do modo como Cristo se revela aos corações dos fiéis: através da Palavra e da Eucaristia. A comemoração não se detém em um santo específico, mas na continuação da celebração do Mistério Pascal, que é o ápice da história da salvação. As "estações" (igrejas onde a missa papal era celebrada) da oitava de Páscoa eram uma prática romana antiga, e na Segunda-feira de Páscoa, a estação tradicionalmente ocorria na Igreja de Santa Maria Nova, em Roma, o que sublinha a centralidade da Cidade Eterna na manutenção e difusão das tradições litúrgicas.

🕊️ Introito (Sl 138, 18 e 5-6 | Sl 104, 1)

Introdúxit vos Dóminus in terram fluéntem lac et mel, allelúia; et ut lex Dómini sit in ore vestro, allelúia, allelúia. Ps. Confitemini Domino et invocate nomen eius: annuntiate inter gentes opera eius.

O Senhor vos introduziu na terra onde corre o leite e o mel, aleluia; e que a lei do Senhor esteja, pois, sempre em vossa boca, aleluia, aleluia. Sl. Louvai ao Senhor e invocai o seu Nome; anunciai as suas obras entre as nações.

📖 Epístola (At 10, 37-43)

Naqueles dias, levantou-se Pedro, no meio do povo, e disse: Meus irmãos, vós sabeis o que aconteceu por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou. Sabeis, como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o dom dos milagres a Jesus de Nazaré, e como Este andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do demônio, porque Deus era com Ele. E nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. Eles O mataram, pregando-O no madeiro. Deus, porém, O ressuscitou ao terceiro dia, e fez com que Ele se mostrasse não a todo o povo, mas às testemunhas previamente escolhidas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois que ressurgiu dos mortos. E mandou-nos pregar ao povo e dar testemunho de que Ele é O que por Deus foi constituído Juiz dos vivos e dos mortos. Dão testemunho d’Ele todos os Profetas, que todos os que n’Ele creem recebem por seu Nome a remissão dos pecados.

✝️ Evangelho (Lc 24, 13-35)

Naquele tempo, caminhavam dois discípulos de Jesus, no mesmo dia [da Ressurreição] para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. E falavam entre si de tudo aquilo que se havia passado. Ora, sucedeu que, enquanto conversavam e discutiam entre si, o mesmo Jesus se aproximou, indo com eles; mas os olhos deles estavam como que velados, de modo que não O reconheceram. E Ele lhes perguntou: Que conversas são essas que trocais pelo caminho, e por que estais tristes? Respondeu-Lhe um deles, chamado Cléofas: Só tu és forasteiro em Jerusalém e não soubeste do que ali se passou nestes dias? E Ele disse: Que foi? E responderam: Acerca de Jesus de Nazaré, que foi um Profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e de todo o povo; e da maneira pela qual os sumos sacerdotes e os nossos magistrados O entregaram para ser condenado à morte e O crucificaram. Ora, nós esperávamos que Ele fosse O que resgataria Israel, e agora, hoje, estamos no terceiro dia depois destes acontecimentos! É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram, pois, ao amanhecer, foram ao sepulcro e não tendo encontrado o seu Corpo, voltaram, dizendo que tinham tido uma aparição de Anjos, os quais afirmavam que Ele vive. E alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam-no tal como as mulheres haviam dito, porém a Ele não encontraram. Então disse-lhes Jesus: Ó insensatos, como sois vagarosos em crer tudo o que anunciaram os Profetas! Porventura, não era necessário que o Cristo padecesse estas coisas e que assim entrasse em sua glória? E começando por Moisés e por todos os Profetas, explicava-lhes o que a Ele se referia em todas as Escrituras. Entretanto eles se aproximaram da aldeia para onde se dirigiam; e Jesus fez como se quisesse ir para mais longe. Eles porém insistiram com Ele, dizendo: Ficai conosco porque já se faz tarde e o dia está em declínio. E Jesus entrou com eles. E aconteceu, que estando sentado com eles à mesa, tomou o pão, abençoou-o e partiu-o e o dava a eles. Então abriram-se-lhes os olhos e O reconheceram. Ele porém desapareceu aos seus olhos. E disseram entre si: Não estava o nosso coração a arder, enquanto Ele falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? E levantaram-se na mesma hora, voltando para Jerusalém onde acharam reunidos os onze e os que estavam com eles. E os discípulos lhes disseram: Verdadeiramente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. E eles contaram o que lhes sucedera no caminho e como O haviam reconhecido no partir do pão.

💡 A jornada da fé e o reconhecimento do Cristo ressuscitado

O Evangelho de Lucas 24,13-35, que narra o encontro de Jesus com os discípulos a caminho de Emaús, é uma profunda meditação sobre como a fé e a esperança podem ser restauradas mesmo em meio à desolação. Santo Agostinho, em seus Sermões, explica que a cegueira dos discípulos de Emaús não era física, mas espiritual, um véu que impedia o reconhecimento de Cristo devido à sua tristeza e falta de compreensão das Escrituras. Somente quando Jesus lhes explicou as profecias e, finalmente, ao partir o pão, seus olhos foram abertos. Essa revelação no partir do pão é, para Santo Agostinho, uma clara prefiguração da Eucaristia, onde o Senhor se dá a nós sob as aparências do pão, nutrindo nossa fé e fazendo arder nosso coração. Ele enfatiza que a tristeza e a falta de esperança são obstáculos ao reconhecimento de Cristo, e que a Palavra e o Sacramento são os meios pelos quais Ele se manifesta e nos eleva da escuridão para a luz da Ressurreição.

A Epístola (At 10, 37-43), através do testemunho de Pedro, complementa a narrativa de Emaús, oferecendo o fundamento público da pregação apostólica. São Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, ensina que a pregação dos Apóstolos, centrada na Ressurreição de Cristo, é a "causa eficiente" da remissão dos pecados, pois é pela fé em Cristo Ressuscitado que somos justificados. Pedro não apenas relata os fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus, mas proclama que Ele é o "Juiz dos vivos e dos mortos", e que por meio d'Ele se alcança a remissão dos pecados. Este testemunho é a manifestação da autoridade divina conferida a Cristo, e a certeza de que a fé n'Ele é o caminho para a salvação. O ardor no coração dos discípulos de Emaús ao ouvirem as Escrituras, e o reconhecimento de Jesus no partir do pão, são a experiência íntima que Pedro, em sua pregação, torna universal: Cristo vive e sua vitória sobre a morte é a nossa esperança.

A união dessas duas passagens—o testemunho público da Epístola e a revelação íntima do Evangelho—ilustra perfeitamente o tema do introito: "O Senhor vos introduziu na terra onde corre o leite e o mel, aleluia; e que a lei do Senhor esteja, pois, sempre em vossa boca, aleluia, aleluia". A "terra que mana leite e mel" é a Igreja e a nova vida em Cristo, alcançada pela Ressurreição. A "lei do Senhor em vossa boca" é a pregação da Palavra, que, como Pedro demonstra, anuncia a vitória de Cristo e a remissão dos pecados. O reconhecimento de Jesus em Emaús, mediado pela Escritura e pela Eucaristia, reflete a experiência do "coração a arder" ao acolher a "lei do Senhor". Assim, a alegria da Páscoa se manifesta tanto na proclamação apostólica que edifica a Igreja quanto na experiência pessoal que transforma cada alma, conduzindo-nos ao Cristo Ressuscitado que nos alimenta e nos guia para a vida eterna.

🛐 Meditação diária de Santo Afonso Maria de Ligório

🛐 Meditações dos padres da Igreja, organizadas por S. Tomás de Aquino (Catena Aurea)