Quando o Padre Élcio Murucci completou, em dezembro de 2024, meio século de sacerdócio, a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (AAPSJMV) celebrou com Missa solene e mensagens efusivas nas redes sociais. Ordenado em 8 de dezembro de 1974 pelo próprio Dom Antônio de Castro Mayer, Murucci representa o último elo vivo da geração que, ao lado do bispo emérito de Campos, ergueu uma verdadeira muralha contra as reformas do Concílio Vaticano II. Mas, 24 anos após a “regularização” de 2002, o que resta dessa resistência? Uma estrutura oficial, sim. Uma fidelidade plena ao espírito que animava Dom Castro Mayer? Os fatos e as críticas mais duras de tradicionalistas radicais dizem que não.
Dom Antônio de Castro Mayer não via o Vaticano II “com bons olhos”. Essa é uma eufemismo histórico. O prelado, que participou do Concílio como bispo de Campos (1948-1981), tornou-se uma das vozes mais intransigentes contra o que considerava uma “auto-destruição” da Igreja. Em carta pessoal a Paulo VI, datada de 12 de setembro de 1969, ele denunciou o Novus Ordo Missae por “omissões e mutações” que, em pontos essenciais, não exprimiam mais a teologia do Sacrifício Eucarístico definida em Trento. Recusou-se a implantar o novo missal até sua aposentadoria, em 1981. Publicou cartas pastorais e manifestos – como a “Carta aberta ao Papa e o Manifesto Episcopal” de 1983 – condenando o ecumenismo, o colegialismo, a liberdade religiosa e o “latitudinarismo” conciliar como contrários ao Magistério perene. Aliado de Dom Marcel Lefebvre e da TFP, Castro Mayer criou, em 1981, a União Sacerdotal São João Maria Vianney: 25 padres e milhares de fiéis que mantiveram exclusivamente a Missa Tridentina e formaram, na prática, uma “diocese paralela” na região Norte Fluminense.
A crise foi única na história da Igreja no Brasil – tema de estudo acadêmico recente publicado em março de 2026 na revista Vértices, que descreve o fenômeno como “sem paralelo”. Durante duas décadas, a União viveu em situação irregular, assistida primeiro pelo próprio Castro Mayer (falecido em 1991) e depois por Dom Licínio Rangel. Para muitos, era a última trincheira contra o “modernismo” que, segundo o bispo, havia infiltrado a Igreja.
Em 18 de janeiro de 2002, João Paulo II erigiu a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney pelo decreto *Animarum Bonum*. Os “padres de Campos” voltaram à comunhão romana. Dom Fernando Arêas Rifan, ordenado bispo em 2002 pelo cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos, assumiu a direção. Hoje a estrutura conta com 12 paróquias e mais 12 comunidades, sede em Campos, site oficial (adapostolica.org) e presença ativa nas redes. O Padre Murucci continua celebrando e pregando – vigário em Ururaí e outras localidades, com canal no YouTube onde distribui meditações e homilias no rito antigo.
Até aqui, tudo parece vitória. Mas o tom muda quando se lê as críticas vindas do campo tradicionalista mais duro, especialmente da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Em textos ainda circulantes em sites ligados à Fraternidade, os padres de Campos são acusados de “traição medonha”. Perguntam: “Que nova mentira pública de Dom Rifan necessitam?” Argumentam que os casamentos celebrados na irregularidade entre 1981 e 2002 teriam sido declarados nulos com a reconciliação, que a União foi “reconhecida sem exigência nenhuma” e que Dom Castro Mayer teria sido, na visão romana, “cismático”. O ponto central da acusação é claro: ao aceitar a estrutura pessoal, a Administração teria trocado a resistência pura pela obediência ao Vaticano II.
A prova mais recente veio em novembro de 2025. Dom Rifan, aos 75 anos, apresentou renúncia ao novo Papa Leão XIV. Em audiência privada no Vaticano, garantiu ao Pontífice a “fidelidade da Administração à liturgia tradicional e ao Vaticano II”. O Papa aceitou a renúncia, mas pediu que Rifan permaneça no cargo por mais 18 meses “para refletir e preparar o sucessor”. Rifan, que já editou cartas pastorais defendendo a “continuidade” do Concílio e condenando como cismáticas as posições da FSSPX, oficializou o que muitos tradicionalistas temiam desde 2002: a Administração não é mais um reduto de resistência, mas uma “exceção aprovada” dentro da Igreja conciliar.
Padre Élcio Murucci, fiel filho espiritual de Dom Castro Mayer, segue celebrando a Missa de sempre e defendendo a doutrina perene. Seus fiéis em Varre-Sai, Porciúncula e Ururaí encontram ali o catolicismo que o fundador tanto amou. No entanto, o contexto institucional mudou. A estrutura que nasceu para combater o Vaticano II agora declara fidelidade a ele. É o paradoxo que define a AAPSJMV em 2026: mantém o rito tridentino por graça especial de Roma, mas perdeu, aos olhos de muitos que viveram a era Castro Mayer, o espírito de combate sem concessões que animou a União Sacerdotal.
Enquanto o Padre Murucci completa mais um ano de apostolado, a pergunta incômoda permanece no ar do Norte Fluminense: o legado de Dom Antônio de Castro Mayer foi preservado ou domesticado? A história – e os críticos mais radicais – ainda não fechou esse capítulo.