A Quarta-feira da Semana da Paixão marca um momento de profundo avanço litúrgico em direção à cruz, sublinhando a oposição crescente que Jesus Cristo encontrou entre as autoridades do Seu tempo. O foco da comemoração não é primariamente uma festa de santos, mas o mistério da Paixão iminente, que vai permeando os textos e o espírito da Igreja ao meditar na hostilidade sofrida pelo Salvador. Tradicionalmente, a liturgia estacional deste dia em Roma ocorre na venerável Igreja de São Marcelo no Corso. Esta estação tem um forte simbolismo: a basílica é dedicada ao Papa São Marcelo I, que sofreu o martírio durante a severa perseguição de Maxêncio, ao ser condenado a trabalhos forçados como escravo nos estábulos que ali existiam. A memória da humilhação e da firmeza deste mártir espelha de forma vívida a própria humilhação de Cristo nas mãos de Seus adversários, conectando o testemunho de sangue da Igreja primitiva ao sacrifício definitivo do Cordeiro, de modo que a assembleia cristã encontra nela o refúgio espiritual para enfrentar as hostilidades e provações deste mundo.
🎵 Introito (Sl 17, 48-49 | ib., 2-3)
Liberátor meus de géntibus iracúndis: ab insurgéntibus in me exaltábis me: a viro iníquo erípies me, Dómine. Ps. Díligam te, Dómine, virtus mea: Dóminus firmaméntum meum, et refúgium meum, et liberátor meus.
Vós sois quem me salva da fúria dos pagãos. Vós me elevareis muito acima de meus adversários; livrar-me-eis, ó Senhor, do homem perverso. Sl. Eu Vos amo, Senhor, que sois a minha força. O Senhor é a minha rocha, e o meu libertador.
📖 Leitura (Lv 19, 1-2, 11-19 e 25)
Leitura do livro do Levítico. Naqueles dias, disse o Senhor a Moisés: Fala a toda a multidão dos filhos de Israel e dize-lhes: Eu sou o Senhor, vosso Deus. Não fareis furtos. Não deveis mentir; ninguém engane a seu próximo. Não jurareis falso em meu Nome, nem profanareis o Nome de vosso Deus. Eu sou o Senhor. Não caluniareis o vosso próximo e não o oprimireis pela violência. O salário do mercenário que vos dá o seu trabalho, não fique em vossa casa até pela manhã. Não amaldiçoareis o surdo, nem poreis diante do cego coisa que lhe possa fazer mal; mas deveis temer ao Senhor, vosso Deus, porque eu sou o Senhor. Nada fareis contra a justiça e não julgueis iniquamente. Não tenhais contemplação com a pessoa do pobre nem bajuleis a pessoa do homem poderoso. Julgai o vosso próximo com justiça. Não sejais caluniador público, entre o povo, nem maldizente. Não urdireis tramas contra o sangue de vosso próximo. Eu sou o Senhor. Não odiareis o vosso irmão, em vosso coração, porém o repreendereis publicamente, para que não venhais a pecar, por sua causa. Não procureis vingar-vos, nem vos lembreis das injúrias de vossos semelhantes. Amareis o vosso próximo como a vós mesmos. Eu sou o Senhor. Guardai a minha lei. Porque eu sou o Senhor, vosso Deus.
✝️ Evangelho (Jo 10, 22-38)
Naquele tempo, celebrava-se a festa da dedicação em Jerusalém, e era inverno. E andava Jesus no templo, no pórtico de Salomão. Os judeus O cercaram, então, perguntando-Lhe: Até quando nos deixas na incerteza? Se és o Cristo, dize-nos claramente. Respondeu-lhes Jesus: Eu vos falo e vós não me credes. As obras que faço em Nome de meu Pai, testemunham de Mim: porém vós não acreditais porque não sois das minhas ovelhas. Minhas ovelhas atendem à minha voz; eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna e jamais perecerão, e ninguém poderá tirá-las de minha mão. O que meu Pai me deu é maior que todas as coisas e ninguém o poderá tirar da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um. Então os judeus apanharam pedras para O lapidar. Disse-lhes Jesus: Eu vos mostrei muitas obras boas, vindas de meu Pai; por qual delas vós me quereis lapidar? Responderam-Lhe os judeus: Não é por nenhuma boa obra que Te apedrejamos, mas pela blasfêmia; e porque, sendo homem, Tu Te fazes Deus. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito em vossa lei: Eu disse: vós sois deuses? Se ela chama deuses àqueles aos quais a palavra de Deus foi dirigida - e a Escritura não pode errar - como dizeis Àquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo: Vós blasfemais, porque eu disse que sou o Filho de Deus? Se não fizer as obras de meu Pai, não deveis crer em Mim. Se as faço, porém, e se não me quereis acreditar, crede ao menos em minhas obras, a fim de que conheçais e acrediteis que o Pai está em Mim e eu no Pai.
🕊️ A justiça divina e as obras da salvação
A declaração de Cristo de que Suas ovelhas ouvem a Sua voz e que Ele e o Pai são um único Deus transcende a compreensão puramente humana, evidenciando a comunhão inquebrantável e a consubstancialidade divina. Como expõe Santo Agostinho (Sermão 117 sobre o Evangelho de São João), a unidade entre o Pai e o Filho não é uma mera concordância de vontades, mas a própria essência da divindade, da qual emana o poder invencível que protege as ovelhas predestinadas à salvação. Diante da cegueira espiritual daqueles que não reconhecem o Verbo Encarnado, São Tomás de Aquino (Suma Teológica, Pars III, Q. 2, Art. 10) esclarece que as obras realizadas por Cristo procedem da mesma onipotência do Pai e constituem o testemunho inegável de Sua filiação divina. São João Crisóstomo (Homilia 59 sobre o Evangelho de João) reforça que as obras do Filho são o selo definitivo de Sua missão santificadora, um convite irrecusável à fé para os que estão espiritualmente dispostos, revelando que a verdadeira dedicação do templo é a contínua renovação da alma pela presença de Deus.
A observância rigorosa da justiça e da caridade exigida no Levítico aponta não apenas para a convivência fraterna e pacífica, mas para a santidade integral exigida daqueles que foram chamados a pertencer ao rebanho do Senhor. A lei mosaica, ao proibir a calúnia, a opressão, o ódio e a falsidade, prepara a alma humana para espelhar a retidão divina, pois a verdadeira adoração demanda a honestidade interior e exterior. Esse mandamento da equidade e do amor ao próximo reflete a mesma justiça com a qual Cristo repreende os judeus, que tramam injustamente contra Aquele que apenas lhes ofereceu as obras boas vindas do Pai. Quando a Escritura instrui a julgar o próximo com justiça e a não bajular os poderosos, antecipa a denúncia do julgamento iníquo do próprio Sinédrio que O condenaria. A vivência destas leis purifica a inteligência ofuscada pelo pecado, permitindo que a criatura racional, ao evitar a iniquidade e o ódio, participe retamente da sabedoria de Deus e compreenda os mistérios revelados pelo Verbo Encarnado.
O clamor confiante do Introito, que roga pela libertação das nações iradas e do homem perverso, encontra sua plena resposta na harmonização da lei moral veterotestamentária com a autoridade divina evidenciada nos ensinamentos do Evangelho. A verdadeira justiça prescrita no Levítico é levada à sua perfeição pela graça dAquele que, sendo consubstancial ao Pai, suportou a hostilidade e a fúria cega dos homens em favor do rebanho. As ovelhas que escutam a voz do Pastor são, em essência, aquelas que guardam os mandamentos da caridade e da retidão, reconhecendo nas obras de Cristo a rocha firme, a força e o refúgio proclamados pelo salmista. A liturgia estacional da Paixão ensina, portanto, que a perseguição e as tramas do homem iníquo jamais prevalecerão contra a proteção divina, pois a salvação se consuma na obediência inabalável do Verbo e na santificação daqueles que perseveram no amor autêntico.