terça-feira, 24 de março de 2026

† TERÇA-FEIRA DA SEMANA DA PAIXÃO
A espera confiante e a hora do Senhor

[LA EN] A Terça-feira da Semana da Paixão insere-se nos dias mais solenes do tempo de preparação imediata para o Tríduo Sagrado, período no qual a Igreja concentra o seu olhar sobre os sofrimentos crescentes de Cristo diante da oposição de Seus inimigos, bem como sobre a iminência de Sua Cruz. A liturgia destaca o clima de perseguição e o mistério de um Deus que, por sabedoria e providência, oculta-Se e Se manifesta apenas segundo o tempo por Ele próprio determinado para a redenção humana. Originalmente, os cristãos de Roma reuniam-se nesta data em assembleia estacional na vetusta Basílica de São Ciríaco nas Termas de Diocleciano, um local duplamente venerável por recordar as perseguições e a fé perseverante dos primeiros mártires, cuja vida entregue a Deus inspirava os fiéis na Quaresma. No entanto, em virtude do abandono e da ruína daquela basílica, bem como a construção de novas estruturas cristãs sobre o complexo das antigas termas, o título cardinalício e a estação romana foram paulatinamente transferidos para a igreja de Santa Maria in Via Lata. Essa antiquíssima diaconia e basílica mariana, que a venerável tradição associa à moradia de São Paulo e de São Lucas durante o cativeiro romano do Apóstolo dos Gentios, passou a ser o coração da oração estacional deste dia, reforçando nos penitentes o vínculo inquebrável entre os sofrimentos do Senhor e a perseverança apostólica e mariana no seguimento da cruz.

📖 Introito (Sl 26, 14; 26, 1)

Exspécta Dóminum, viríliter age: et confortétur cor tuum, et sústine Dóminum. (Ps. 26, 1) Dóminus illuminátio mea, et salus mea: quem timébo? Exspécta Dóminum.

Espera no Senhor, e age virilmente; conforte-se o teu coração; espera no Senhor. Sl. O Senhor é minha Luz e minha Salvação: a quem temerei? - Espera no Senhor.

📖 Leitura (Dn 14, 28-42)

Naqueles dias, reuniram-se os Babilônios e foram ter com o rei. E disseram-lhe: Entrega-nos Daniel, que destruiu Bel e matou o dragão; de outro modo, nós te mataremos e à tua casa. Viu pois o rei que eles o coagiam com violência e obrigado pela necessidade entregou-lhes Daniel. Eles o lançaram na cova dos leões e ali ficou ele seis dias. Ora, havia na cova sete leões, e davam-lhes cada dia, dois corpos e duas ovelhas, mas naquela ocasião não lhes deram nada, para que devorassem a Daniel. Estava porém o profeta Habacuc, na Judeia; havia ele feito um cozido e deitara pão em uma terrina, indo ao campo levá-los aos segadores. Disse o Anjo do Senhor a Habacuc: Leva a refeição que tens a Daniel, que está em Babilônia na cova dos leões. E disse Habacuc: Senhor, nunca estive em Babilônia e não conheço a cova. E o Anjo do Senhor o agarrou pela cabeça, e carregando-o pelos cabelos, o depôs na Babilônia, por cima da cova, na rapidez de seu espírito. E Habacuc chamou em voz alta, dizendo: Daniel, servo de Deus, toma a refeição que Deus te enviou. Daniel respondeu: Vós Vos lembrastes de mim, ó Deus, e não abandonais aqueles que Vos amam. E erguendo-se, Daniel comeu. O Anjo do Senhor levou depois Habacuc ao lugar de onde viera. Veio o rei, no sétimo dia, para chorar Daniel. Aproximando-se da cova, olhou para dentro, e viu Daniel sentado no meio dos leões. E o rei exclamou em voz alta: Grande sois, ó Senhor, Deus de Daniel! E fez com que o tirassem da cova dos leões. Depois, foram lançados na cova aqueles que haviam planejado perder a Daniel, e foram devorados em sua presença, num momento. Então o rei disse: Todos os habitantes da terra temam o Deus de Daniel; porque é Ele o Salvador que faz milagres e maravilhas sobre a terra; e foi Ele quem livrou Daniel da cova dos leões.

📖 Evangelho (Jo 7, 1-13)

Naquele tempo, percorria Jesus a Galileia, porque não queria ir à Judeia, pois os judeus O procuravam para o matar. Estava-se nas proximidades da festa dos judeus, chamada dos tabernáculos. Disseram-Lhe pois, os seus irmãos: Parte daqui e vai à Judeia, para que os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém age às ocultas, quando deseja ficar conhecido. Se podes fazer estas coisas, revela-te ao mundo. Porque nem mesmo os seus irmãos acreditavam n'Ele. Jesus lhes disse: Meu tempo ainda não chegou, mas para vós sempre é tempo. O mundo não vos pode ter ódio; mas a Mim, odeia-me, porque lhe sou testemunha de que as suas obras são más. Ide a esta festa; eu, porém, não vou a ela porque o meu tempo não é ainda chegado. Após ter dito isto, Ele permaneceu ainda na Galileia. Quando, porém, os seus irmãos partiram, Ele subiu também à festa, não publicamente, porém às escondidas. Os judeus o procuravam, pois, durante a festa e diziam: Onde está Ele? E entre a multidão falava-se muito a seu respeito. Alguns diziam: Ele é bom. Outros no entanto replicavam: Não, Ele seduz o povo. Ninguém, entretanto, falava d'Ele abertamente, com medo dos judeus.

🛡️ A espera confiante e a hora do Senhor

A hesitação de Nosso Senhor em subir à Judeia para a Festa dos Tabernáculos constitui um profundo ensinamento sobre a docilidade aos desígnios da Providência frente ao mistério da iniquidade. Conforme elucida Santo Agostinho (Sermão 133 sobre São João), a deliberação de Cristo em agir de maneira oculta não procede do temor carnal, mas tem o propósito de repudiar a vanglória e a ostentação mundanas, que cegam o coração humano pelo orgulho. Enquanto Seus irmãos, figuras da incredulidade atraída pelo reconhecimento exterior, exigiam sinais manifestos, o Senhor aguardava a determinação suprema da eternidade. Como esclarece São Tomás de Aquino (Comentário ao Evangelho de João, Cap. 7), a resposta do Salvador evidencia que Suas ações jamais estão sujeitas à impaciência do arbítrio humano, operando uma nítida distinção entre o tempo falaz dos homens e a hora perfeitamente fixada pela Sabedoria divina. O ódio do mundo volta-se contra Cristo precisamente porque Ele é a Luz que expõe as trevas do pecado, tornando a Sua presença imperceptível aos olhos obstinados, mas resplandecente aos fiéis, sendo Seu silêncio público, segundo a mística de São Bernardo, o vigoroso prelúdio da obra redentora da cruz.

O mistério do abandono confiante à vontade providente reflete-se com igual grandeza na figura do profeta Daniel, condenado à cova dos leões. Diante da fúria perseguidora de Babilônia, cuja ira irracional antecipa a hostilidade da multidão cega que exigiria a crucificação do Salvador séculos mais tarde, o profeta sustenta-se unicamente pela submissão ao Deus invisível. Os doutores da Igreja contemplam nesta prefiguração veterotestamentária não apenas a iminente Paixão e o sepultamento de Cristo, mas também a invencível tutela divina sobre as almas justas. A intervenção milagrosa do Anjo, transportando Habacuc para saciar a fome de Daniel, comprova que os verdadeiros livramentos operam-se na quietude de uma fé inabalável, muito distante do tumulto das tramas humanas. Mesmo lançado na escuridão das acusações e cercado pela brutalidade do mundo que odeia a verdade, a alma fiel, à imagem do profeta e do próprio Verbo encarnado, permanece nutrida por um amparo sobrenatural que o orgulho das nações jamais será capaz de subjugar ou compreender.

O vigoroso brado do Introito unifica organicamente a dupla lição de fortaleza oferecida pela liturgia: "Espera no Senhor, e age virilmente". Perante as exortações enganosas para buscar a glória perecível e diante da hostilidade declarada das forças terrenas, o cristão é convocado a reproduzir em si mesmo a serenidade absoluta de Jesus, cuja "hora" pertence ao Pai, aliada à constância martirial de Daniel em meio às feras. São Tomás adverte reiteradamente que a dispersão de opiniões da multidão expõe a confusão intrínseca da natureza privada da graça; todavia, a alma que confessa com o Salmista - "o Senhor é minha Luz e minha Salvação" - edifica-se sobre um alicerce imperturbável e afasta o terror das perseguições. Mortificando a pressa egoísta e o medo humano, a espiritualidade do tempo da Paixão consolida-se na compreensão de que a verdadeira vitória não se obtém no espetáculo das lisonjas do mundo, mas na perseverança diária e escondida, crendo firmemente que o mesmo Deus soberano que encerra as fauces dos leões triunfará definitivamente sobre o império da morte.