O galho serrado e a marcha da insensatez
É um hábito peculiar do evangélico moderno atirar pedras na velha Igreja Católica, esquecendo-se convenientemente de que habita uma casa de vidro construída sobre os mesmíssimos alicerces. Se a antiga instituição desaparecesse amanhã, esse negócio fragmentado, sempre às turras e sem unidade real que chamamos de protestantismo não teria a menor chance de resistir à maré das forças globalistas modernas. Ao desferirem golpes contra o velho tronco, estão apenas serrando o galho em que repousam com tanto conforto. A história humana nos oferece mil e quinhentos anos de catolicismo antes que qualquer sujeito pensasse em se chamar de protestante. Quando aqueles reformadores finalmente abriram sua própria tenda, simplesmente empacotaram noventa e tantos por cento dos velhos ensinamentos e os levaram consigo. Cuspir na mão que alimentou os próprios antepassados é, via de regra, considerado uma terrível falta de modos.
Quando um homem tem uma divergência com a administração da casa, a atitude mais sensata é permanecer e resolver a questão na sala de estar, desde que respeite as fundações do edifício. A partida de Martinho Lutero, contudo, foi um desfile espetacular de equívocos. A ideia inicial não era fazer as malas, mas arrumar uma boa e velha briga teológica do lado de dentro. O desfecho, porém, foi uma ruína absoluta. Barbara Tuchman, em seu perspicaz livro "A marcha da insensatez", dedica um capítulo inteiro a essa rebelião, detalhando-a como uma autêntica comédia de erros que a humanidade muito bem poderia ter dispensado.
A batata quente e o seguro refúgio romano
É fato registrado que Lutero nutria um profundo e radical antissemitismo - algo zelosamente preservado em suas obras completas. Mas sejamos justos com a falta de originalidade do homem; antissemitas nunca estiveram em falta no mercado. Kant, Goethe, Shakespeare, todos compartilhavam do preconceito de seus dias. Durante dois milênios, as nações trataram o povo judeu como uma imensa batata quente. A Inglaterra os expulsava, mandando-os para Portugal; Portugal os despachava para a Espanha, e a Espanha os enxotava para o reino seguinte. É um empreendimento tolo julgar os habitantes de antanho com as regras de etiqueta de hoje, visto que muitos de nossos modernos e iluminados padrões só vieram a se alojar na consciência humana uns bons séculos mais tarde.
Curiosamente, o maior protetor dos judeus em toda a Europa foi, de forma consistente, o Pontífice Romano. Quando os reis locais começavam a acender as tochas, os judeus sensatamente faziam as malas e corriam para a Holanda ou para Roma - os dois únicos pontos no mapa onde um homem podia respirar aliviado. A Holanda lhes servia por suas precoces instituições democráticas e mercantis, mas Roma oferecia o Papa, um escudo infinitamente mais robusto. A violência contra eles no vasto mundo existiu, sem dúvida alguma. No entanto, a noção popular de que a Inquisição passava os dias a atormentá-los é pura ficção. O tribunal era um órgão interno; julgava exclusivamente católicos. Se um sujeito estava fora do redil católico, estava totalmente fora da jurisdição inquisitorial.
O problema só surgia quando certos indivíduos decidiam forjar uma conversão à fé, apenas para pregar doutrinas inteiramente diversas a portas fechadas. Eram levados ao tribunal não por serem judeus, mas por serem católicos fraudulentos. O tribunal jamais arrastou um rabino ao banco dos réus por ensinar as leis de Moisés. Muito pelo contrário: existem instruções claras e definitivas de diversos papas - como Gregório - exigindo que os judeus fossem deixados em paz, vivendo de acordo com os costumes que lhes foram ensinados. A política oficial e inflexível da Igreja, atestada em bulas, tornava obrigação solene dos católicos protegê-los. É exatamente por isso que Roma era o porto mais seguro do continente.
Máquinas imaginárias e a mania das metonímias
A Igreja, naturalmente, abrange milhões de almas, e sendo a natureza humana a mula teimosa que é, o Papa não tinha como segurar pessoalmente as rédeas de cada patife na cristandade. Explosões locais de antissemitismo ocorriam, muitas vezes pelos motivos mais terrivelmente terrenos: um nobre tomava uma bela soma emprestada de um credor judeu, encontrava os bolsos vazios na hora de pagar e, de súbito, descobria um profundo pretexto teológico para despachar o homem e extinguir a dívida. Naquela época não havia o luxo do telefone, do telégrafo ou da internet. Uma ordem despachada de Roma levava um ano inteiro para alcançar as florestas da Alemanha - isso se o mensageiro não encontrasse um salteador pelo caminho. Antes do Renascimento e do Concílio de Trento, o domínio logístico do papado era limitado pela geografia e pela turbulência dos príncipes, que não raro juntavam meia dúzia de soldados para tentar derrubar à força o ocupante da Sé de Pedro. A ideia de uma sociedade perfeitamente monolítica onde cada camponês obedecia cegamente a Roma todos os dias é uma fantasia nascida da pura ignorância moderna.
Varramos também as teias de aranha a respeito daquelas famosas máquinas de tortura. Elas nunca existiram. Foram o delírio febril de um autor protestante no século XVI, engolido sem mastigar pelas gerações seguintes e mantido vivo pelos sujeitos peculiares de Hollywood. Pura invencionice, do começo ao fim. Ao longo de quatrocentos anos, espalhada por duas dúzias de países, a Inquisição espanhola sentenciou cerca de vinte mil almas. Se você pegar sua lousa e dividir esse número por país e por ano, encontrará uma cifra tão modesta que empalidece diante da matança casual produzida por qualquer democracia moderna. Essas lendas urbanas, tão úteis para a politicagem, simplesmente não param em pé quando submetidas a um olhar sóbrio.
Não é de todo necessário presumir que todo homem que cruza a rua é um vigarista, nem ver conspirações debaixo de cada pedra. Mas é igualmente imprudente engolir qualquer acusação sombria que a ventania traz. Quando uma história aponta o dedo, o homem prevenido verifica a papelada. As atas reais dos processos só começaram a ver a luz do dia de verdade na década de 1950. Antes disso, os historiadores escreviam no escuro, baseados mais no ouvir dizer do que em provas. O estudo sistemático desses papéis, liderado por Henry Kamen - autor de "The Spanish Inquisition", uma obra-prima que todo sujeito faria bem em ler - revelou que os inquisidores sofriam de uma meticulosidade burocrática formidável, anotando cada suspiro no tribunal. Eram homens honestos e criteriosos que, na maioria das vezes, rejeitavam as acusações histéricas e mandavam todo mundo para casa.
Além disso, é um absurdo formidável falar da Inquisição como se fosse um sujeito caminhando pela calçada. Inquisição é o nome de um procedimento jurídico, um inquérito, e não uma criatura independente e sedenta de sangue. Dizer que "a Inquisição matou" é tão sem sentido quanto afirmar que "o processo judicial trancafiou a cidade inteira". Trata-se de uma metonímia - pegar o nome de um conjunto de ações e vesti-lo como se fosse uma pessoa. O pensamento metonímico, quando um homem o leva ao pé da letra, é sem dúvida um dos motores mais eficientes da imbecilidade humana jamais inventados.
Ainda assim, meia dúzia de mercadores de ficção continua a espalhar as mesmas falsidades o dia todo. Se você lhes apresenta as atas de congressos científicos - como aquele promovido por João Paulo II, que reuniu historiadores de todas as estirpes - eles imediatamente acusam você de "defender a Inquisição". Mas um homem não pode defender um monstro mitológico que nunca andou pela terra. O que se faz é apenas declarar a verdade documentada: o inquérito era um assunto interno para católicos; a política papal inabalável era proteger o povo judeu; os contos de terror sobre genocídio são fabricados; e os números reais da história não sustentam a lenda negra.
Baseado em palestra de Olavo de Carvalho.