Neste dia, a Santa Igreja veste-se do vermelho da púrpura do martírio para celebrar o triunfo de duas gloriosas colunas do edifício místico de Cristo: São Simão, cognominado o Zelote, e São Judas Tadeu, parente carnal de Nosso Senhor e autor da epístola católica que leva seu nome. Após o fogo do Espírito Santo descer sobre o Cenáculo, estes príncipes do Evangelho partiram para inflamar as nações que jaziam nas trevas do paganismo. A tradição antiga nos ensina que, unindo seus passos sagrados, percorreram as vastas terras da Mesopotâmia e da Pérsia, despedaçando ídolos, iluminando inteligências e resgatando almas do cativeiro infernal. Por volta do ano sessenta e cinco, consumaram sua carreira derramando o próprio sangue, selando com a morte o testemunho da verdadeira Vida. Seus corpos sagrados repousam no coração da cristandade, sob as abóbadas da Basílica de São Pedro em Roma, de onde continuam a inspirar a fé inabalável e militante dos cristãos de todos os séculos.
Considerai, meus irmãos, o abismo intransponível que Nosso Senhor estabelece no Santo Evangelho de hoje: "Se o mundo vos odeia, sabei que odiou a Mim antes de vós". Eis a marca inconfundível da verdadeira eleição divina! A terra e o Céu não falam a mesma língua; a eternidade não se curva aos caprichos efêmeros do tempo. Hoje, porém, um vento gélido de engano sopra sobre muitos corações, tentando erguer um arremedo de religião, uma carcaça reluzente desprovida de seiva sobrenatural. Vede como o espírito deste século é ardiloso: ele não destrói imediatamente as pedras dos templos, mas tenta esvaziar os altares; mantém os cânticos habituais e um polido vocabulário de domingo, tece belos discursos de fraternidade terrena, mas, na penumbra dos bastidores, inverte deliberadamente toda a ordem da salvação. O homem, frágil e manchado, é arrastado pelas vaidades para o centro do palco, enquanto o Cordeiro Imolado é cordialmente banido para as margens do esquecimento. As formas externas até parecem permanecer, mas o coração do mistério é extirpado. A sagrada liturgia, que deveria ser o pavoroso, reverente e sublime culto prestado pela Noiva ao seu Esposo divino, decai, nesse teatro de ilusões, para uma simples e estéril confraternização humana. A verdade eterna e cortante vira um amontoado de opiniões passageiras; a fé, um mero conforto psicológico para quem busca participar de um grupo sem abraçar a cruz. Mas acaso desceu o Verbo de Deus do céu para fundar uma agremiação social? O Apóstolo nos responde claramente na Epístola de hoje: Cristo subiu às alturas e distribuiu dons - constituiu Apóstolos, Profetas e Doutores - não para que aplaudamos a nós mesmos, mas para a santificação das almas e para a edificação de um Corpo místico, a fim de elevar nossos olhos à medida da plenitude do Salvador! São Simão e São Judas Tadeu não atravessaram desertos nem derramaram seu sangue na Pérsia por uma doutrina de facilidades ou por uma mensagem de bem-estar terreno. Qual é, afinal, a missão gloriosa de todo grande santo senão levantar-se como um leão contra o veneno de sua época? São Judas, em sua contundente carta, brandiu a espada da sã doutrina contra os falsos mestres que, já naqueles primeiros dias, tentavam transformar a graça de Deus em licença para os prazeres mundanos e carnais. Eles combateram sem tréguas a grande mentira de que se pode alcançar a glória do Céu rejeitando a aspereza do sacrifício. Como nos adverte com clareza o glorioso Doutor da Graça, Santo Agostinho, há duas cidades fundadas por dois amores antagônicos: a cidade do mundo, que ama a si mesma até o desprezo de Deus, e a cidade de Deus, que ama o Senhor até o absoluto desprezo de si. O mundo, prisioneiro de sua própria soberba, não suporta a luz desta segunda cidade. Não vos deixeis, portanto, seduzir pela encenação daqueles que fogem do calvário! Olhai para as palmas do martírio nas mãos puras de Simão e Judas. Eles nos mostram que a Igreja autêntica sempre aponta o dedo para o alto, arrancando a alma da lama terrena para puxá-la para perto do seu Criador, purificando-a no fogo da penitência e da verdadeira caridade. Que nossa vida não seja uma religião de aparências, mas um espelho fiel do sangue derramado na Cruz, para que, suportando com alegria o ódio do mundo, possamos reinar eternamente com os Apóstolos na pátria da Luz inatingível.