Nascido ao sul de Gaza e educado na efervescente Alexandria, Santo Hilarião encontrou no silêncio da solidão a voz que o tumulto do século tentava abafar. Inspirado pelo luminoso exemplo de Santo Antão do Egito, de quem se fez humilde e fervoroso discípulo, retornou à sua terra natal para plantar a semente vigorosa da vida monástica na Palestina. Sua existência transcorreu imersa em jejuns rigorosos, combates espirituais e uma caridade ardente, atraindo uma multidão de almas sedentas de Deus, cujos corações ele guiava com sabedoria sobrenatural. Perseguido pelo ódio do imperador Juliano, o Apóstata, e fugindo da própria fama que seus assombrosos milagres geravam, peregrinou como um exilado pela Sicília e pela Dalmácia. Entregou sua alma purificada ao Criador na ilha de Chipre, aos oitenta anos, sendo sua admirável trajetória imortalizada pela pena magistral de São Jerônimo. A sua memória permanece viva e reverenciada pelas eras, e os ecos de sua santidade ainda podem ser contemplados nas alturas da Fortaleza de São Hilarião, erguida nos mesmos cumes onde outrora este valente guerreiro de Cristo buscou refúgio para desposar a eternidade.
Eis que abandonamos tudo e Vos seguimos (pergunta Pedro no Evangelho de hoje). Mas o que significa, caríssimos irmãos, este abandono sagrado? Olhai para Santo Hilarião e encontrareis a resposta gravada não em pergaminhos efêmeros, mas na carne mortificada e no espírito abrasado pelo amor divino. Enquanto o mundo antigo desmoronava e o paganismo tentava o seu último e feroz suspiro de sedução, este gigante do deserto compreendeu com clareza a grande ameaça de sua época: a tentação de uma vida sem cruz, o veneno brando do conforto mundano que adormece as consciências e as arrasta suavemente para o abismo. E pergunto-vos: não vemos nós, hoje, este mesmo veneno escorrendo sob roupagens modernizadas? Acautelai-vos daquela falsa religiosidade que se contenta puramente com a vitrine exterior. Ela ergue um teatro grandioso, preserva os ritos como peças de museu e discursa docemente sobre a filantropia, mas baniu de seu seio o madeiro ensanguentado do Calvário. Essa ilusão sutil transforma a assembleia santa numa mera reunião de aplausos horizontais, onde o altar é rebaixado a um palco e o homem usurpa, com sorrisos, o trono do Altíssimo. Nela, o majestoso ensinamento sagrado é diluído em opiniões palatáveis, a fé é corrompida num mero e aconchegante sentimento de aprovação social, e a liturgia deixa de ser o sacrifício que une o céu e a terra para tornar-se uma confraternização humana. Tudo parece vivo, mas é um sepulcro caiado; a condução das almas foi entregue aos caprichos do século, e a glória sobrenatural foi cordialmente asfixiada. Em contraste absoluto com essa pantomima destrutiva, ergue-se a liturgia verdadeira e a vida de nosso Santo! A Epístola no-lo apresenta sob a augusta figura de Moisés, amado de Deus, que entra na nuvem espessa para ouvir a voz que aterroriza os demônios. Hilarião também virou as costas para as luzes artificiais das cidades romanas para encontrar, na aspereza da areia e no rigor da penitência, o rochedo inabalável que é Cristo. Ele sabia que a verdadeira adoração exige a imolação de si mesmo. Se a mente obscurecida desta nossa era rejeita a sã doutrina para abraçar as facilidades vulgares, o monge abraça a nudez do deserto para possuir o Tudo. Como magistralmente ensina o Bispo de Hipona ao meditar sobre a promessa do cêntuplo, Aquele que nos exige o desapego das coisas vis não nos deixa de mãos vazias; o próprio Criador Se faz a nossa recompensa inesgotável. Acordai, portanto, almas resgatadas! Não troqueis a vossa herança imperecível pelo prato de lentilhas das vaidades presentes. A Igreja não é um clube de afagos mundanos, mas a arca tremenda que nos arranca das águas do pecado e nos lança no oceano da Santíssima Trindade. Imitemos a bravura intrépida deste pai dos monges, repudiando a encenação de uma virtude oca, para que, no grandioso dia da regeneração, possamos nos assentar não nos tronos de poeira desta terra, mas nas moradas de luz preparadas para aqueles que, perdendo o mundo, ganharam a Deus.
Introito - (Sl 36, 30-31; 1) Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium: lex Dei ejus in corde ipsíus. Ps. Noli æmulári in malignántibus; neque zeláveris faciéntes iniquitátem.A boca do justo fala a sabedoria e a sua língua profere a equidade. A lei de seu Deus está em seu coração. Sl. Não te irrites por causa dos maus, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.
Epístola (Eclo 45, 1-6) - Diléctus Deo et homínibus, cujus memória in benedictióne est. Símilem illum fecit in glória sanctórum, et magnificávit eum in timóre inimicórum, et in verbis suis monstra placávit. Glorificávit illum in conspéctu regum, et jussit illi coram pópulo suo, et osténdit illi glóriam suam. In fide et lenitáte ipsíus sanctum fecit illum, et elégit eum ex omni carne. Audívit enim eum et vocem ipsíus, et indúxit illum in nubem. Et dedit illi coram praecépta, et legem vitae et disciplínae.Ele foi amado de Deus e dos homens; sua memória é abençoada. O Senhor o igualou aos Santos na glória, engrandeceu-o para temor dos seus inimigos e por suas palavras fez cessar os prodígios. Glorificou-o diante dos reis; deu-lhe seus preceitos diante de seu povo e mostrou-lhe a sua glória. Por sua fidelidade e mansidão o santificou e o escolheu dentre todos os homens. Deus lhe fez ouvir a sua voz e fê-lo entrar na nuvem. E deu-lhe, face a face, os seus preceitos e a lei da vida e da doutrina.
Evangelho (Mt 19, 27-29) - Sequéntia sancti Evangélii secúndum Matthaéum. In illo témpore: Dixit Petrus ad Jesum: Ecce, nos relíquimus ómnia, et secúti sumus te: quid ergo erit nobis? Jesus autem dixit illis: Amen, dico vobis, quod vos, qui secuti estis me, in regeneratióne, cum séderit Fílius hóminis in sede majestátis suæ, sedébitis et vos super sedes duódecim, judicántes duódecim tribus Israël. Et omnis, qui relíquerit domum, vel fratres, aut soróres, aut patrem, aut matrem, aut uxórem, aut fílios, aut agros, propter nomen meum, céntuplum accípiet, et vitam ætérnam possidébit.Naquele tempo, disse Pedro a Jesus: Eis que abandonamos tudo e Vos seguimos: que recompensa haverá então para nós? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo, que no dia da regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, assentar-vos-eis em doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as terras, por causa de meu Nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.