São Francisco de Bórgia, outrora altivo Duque de Gandía e vice-rei da Catalunha, conhecia de perto o fausto das cortes e o peso do poder terreno, até o dia em que o véu da ilusão foi rasgado diante de seus olhos. Ao ser encarregado de escoltar o corpo da belíssima Imperatriz Isabel de Portugal até o seu sepulcro, o caixão foi aberto para a verificação oficial. O que Francisco viu não foi a majestade imperial, mas um rosto desfigurado pela morte, exalando os odores da decomposição. Diante daquela carne apodrecida, a graça divina fulgurou em sua alma, e dos seus lábios brotou o grito que dividiria sua vida em duas: "Nunca mais servirei a um senhor que possa morrer!" Após o falecimento de sua virtuosa esposa, renunciou a todos os títulos, propriedades e pompas, trocando a seda dos nobres pelo hábito pobre da recém-fundada Companhia de Jesus. Ordenado sacerdote, sua humildade radical e severas penitências espantaram o mundo; ele, que comandava exércitos e províncias, agora varria o chão e pedia esmolas. Tornou-se o terceiro Superior Geral dos jesuítas, governando a Ordem com imensa sabedoria, impulsionando as missões católicas nas Américas e na Ásia, e consumindo-se de amor diante do Santíssimo Sacramento, até entregar sua alma a Deus no ano de 1572.
Que é a glória deste mundo, meus irmãos, senão uma fumaça que o vento dissipa, um teatro onde os atores logo descem ao túmulo? A formosura que fascina os olhos desvanece; o poder que faz tremer os povos termina no silêncio do pó. São Francisco de Bórgia contemplou a miséria do cadáver imperial e compreendeu a suprema verdade que nós, embriagados pelas facilidades da vida moderna, tantas vezes queremos esquecer. Em seu tempo, o mundo estava intoxicado pelo humanismo renascentista, uma febre de soberba que colocava a criatura no pedestal do Criador, enquanto a tempestade das heresias rasgava os votos sagrados e zombava do sacrifício religioso. A providência divina, sempre vigilante, suscitou este gigante para esmagar o orgulho do seu século. A grande missão de Francisco não foi outra senão ser a antítese viva do seu tempo: contra a sede de poder, a obediência absoluta; contra a luxúria da carne, a penitência férrea; contra a negação dos sacramentos, o fervor eucarístico. Mas olhai ao vosso redor! Não vemos hoje ressurgir o mesmo perigo, vestido com novas roupagens? Levanta-se diante de nós uma religião de simulacros, uma estrutura oca que retém o nome de católica, mas que no íntimo esvaziou a cruz do seu escândalo. Trata-se de uma encenação astuta, onde o altar é rebaixado a uma mesa de confraternização e o culto divino é transformado num espelho onde o homem adora a si mesmo. Nessas assembleias ruidosas, os dogmas eternos, que custaram o sangue dos mártires, são diluídos em palestras sentimentais; a liturgia, que deveria ser a fresta do Céu na terra, torna-se uma celebração de comunidade, um clube social de filantropia estéril, onde o sacrifício cede lugar ao conforto e a Verdade é amordaçada pelo desejo de agradar ao mundo. Quando os meios humanos usurpam o trono que pertence à graça, o abismo se abre. Mas o Evangelho de hoje ressoa como um trovão contra essa mediocridade: "Todo aquele que deixar a casa, ou as terras por causa de meu Nome, receberá o cêntuplo". São Francisco de Bórgia ouviu esta promessa e não hesitou. Ele, à semelhança de Moisés na Epístola, abandonou a glória passageira das cortes egípcias para entrar na nuvem escura e radiosa da intimidade com Deus, recebendo no coração a verdadeira lei da vida. Quem tem a coragem de perder tudo por Cristo encontra o cêntuplo já nesta terra - a paz que o mundo não conhece - e assegura um trono no dia da regeneração. Despertemos, pois, do nosso torpor! Rejeitemos a religião de conveniências e abracemos o Deus vivo, para que possamos, como este admirável confessor, servir unicamente ao Rei imortal, nos séculos dos séculos.