sexta-feira, 9 de outubro de 2026

São Francisco de Bórgia, Confessor: O Desengano das Vaidades - 10 de Outubro

São Francisco de Bórgia, outrora altivo Duque de Gandía e vice-rei da Catalunha, conhecia de perto o fausto das cortes e o peso do poder terreno, até o dia em que o véu da ilusão foi rasgado diante de seus olhos. Ao ser encarregado de escoltar o corpo da belíssima Imperatriz Isabel de Portugal até o seu sepulcro, o caixão foi aberto para a verificação oficial. O que Francisco viu não foi a majestade imperial, mas um rosto desfigurado pela morte, exalando os odores da decomposição. Diante daquela carne apodrecida, a graça divina fulgurou em sua alma, e dos seus lábios brotou o grito que dividiria sua vida em duas: "Nunca mais servirei a um senhor que possa morrer!" Após o falecimento de sua virtuosa esposa, renunciou a todos os títulos, propriedades e pompas, trocando a seda dos nobres pelo hábito pobre da recém-fundada Companhia de Jesus. Ordenado sacerdote, sua humildade radical e severas penitências espantaram o mundo; ele, que comandava exércitos e províncias, agora varria o chão e pedia esmolas. Tornou-se o terceiro Superior Geral dos jesuítas, governando a Ordem com imensa sabedoria, impulsionando as missões católicas nas Américas e na Ásia, e consumindo-se de amor diante do Santíssimo Sacramento, até entregar sua alma a Deus no ano de 1572.


Que é a glória deste mundo, meus irmãos, senão uma fumaça que o vento dissipa, um teatro onde os atores logo descem ao túmulo? A formosura que fascina os olhos desvanece; o poder que faz tremer os povos termina no silêncio do pó. São Francisco de Bórgia contemplou a miséria do cadáver imperial e compreendeu a suprema verdade que nós, embriagados pelas facilidades da vida moderna, tantas vezes queremos esquecer. Em seu tempo, o mundo estava intoxicado pelo humanismo renascentista, uma febre de soberba que colocava a criatura no pedestal do Criador, enquanto a tempestade das heresias rasgava os votos sagrados e zombava do sacrifício religioso. A providência divina, sempre vigilante, suscitou este gigante para esmagar o orgulho do seu século. A grande missão de Francisco não foi outra senão ser a antítese viva do seu tempo: contra a sede de poder, a obediência absoluta; contra a luxúria da carne, a penitência férrea; contra a negação dos sacramentos, o fervor eucarístico. Mas olhai ao vosso redor! Não vemos hoje ressurgir o mesmo perigo, vestido com novas roupagens? Levanta-se diante de nós uma religião de simulacros, uma estrutura oca que retém o nome de católica, mas que no íntimo esvaziou a cruz do seu escândalo. Trata-se de uma encenação astuta, onde o altar é rebaixado a uma mesa de confraternização e o culto divino é transformado num espelho onde o homem adora a si mesmo. Nessas assembleias ruidosas, os dogmas eternos, que custaram o sangue dos mártires, são diluídos em palestras sentimentais; a liturgia, que deveria ser a fresta do Céu na terra, torna-se uma celebração de comunidade, um clube social de filantropia estéril, onde o sacrifício cede lugar ao conforto e a Verdade é amordaçada pelo desejo de agradar ao mundo. Quando os meios humanos usurpam o trono que pertence à graça, o abismo se abre. Mas o Evangelho de hoje ressoa como um trovão contra essa mediocridade: "Todo aquele que deixar a casa, ou as terras por causa de meu Nome, receberá o cêntuplo". São Francisco de Bórgia ouviu esta promessa e não hesitou. Ele, à semelhança de Moisés na Epístola, abandonou a glória passageira das cortes egípcias para entrar na nuvem escura e radiosa da intimidade com Deus, recebendo no coração a verdadeira lei da vida. Quem tem a coragem de perder tudo por Cristo encontra o cêntuplo já nesta terra - a paz que o mundo não conhece - e assegura um trono no dia da regeneração. Despertemos, pois, do nosso torpor! Rejeitemos a religião de conveniências e abracemos o Deus vivo, para que possamos, como este admirável confessor, servir unicamente ao Rei imortal, nos séculos dos séculos.

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Introito - (Sl 36, 30-31; 1) Os justi meditabitur sapientiam, et lingua ejus loquetur judicium: lex Dei ejus in corde ipsius. Ps. Noli aemulari in malignantibus: neque zelaveris facientes iniquitatem.A boca do justo fala a sabedoria e a sua língua profere a equidade. A lei de seu Deus está em seu coração. Sl. Não tenhas ciúmes dos maus, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.


Epístola (Eclo 45, 1-6) - Dilectus Deo et hominibus, cujus memoria in benedictione est. Similem illum fecit in gloria sanctorum, et magnificavit eum in timore inimicorum, et in verbis suis monstra placavit. Glorificavit illum in conspectu regum, et jussit illi coram populo suo, et ostendit illi gloriam suam. In fide et lenitate ipsius sanctificavit illum, et elegit eum ex omni carne. Audivit enim eum, et vocem ipsius, et induxit illum in nubem. Et dedit illi coram praecepta, et legem vitae et disciplinae.Ele (Moisés) foi amado de Deus e dos homens; sua memória é abençoada. O Senhor o igualou aos Santos na glória, engrandeceu-o para temor dos seus inimigos e por suas palavras fez cessar as pragas. Glorificou-o diante dos reis; deu-lhe seus preceitos diante de seu povo e mostrou-lhe sua glória. Por sua fidelidade e mansidão o santificou e o escolheu dentre todos os homens. Deus lhe fez ouvir a sua voz, e fê-lo entrar na nuvem. E deu-lhe, face a face, os seus preceitos e a lei da vida e da doutrina.


Evangelho (Mt 19, 27-29) - In illo tempore: Dixit Petrus ad Jesum: Ecce nos reliquimus omnia, et secuti sumus te: quid ergo erit nobis? Jesus autem dixit illis: Amen dico vobis, quod vos, qui secuti estis me, in regeneratione cum sederit Filius hominis in sede majestatis suae, sedebitis et vos super sedes duodecim, judicantes duodecim tribus Israel. Et omnis, qui reliquerit domum, vel fratres, aut sorores, aut patrem, aut matrem, aut uxorem, aut filios, aut agros propter nomen meum, centuplum accipiet, et vitam aeternam possidebit.Naquele tempo, disse Pedro a Jesus: Eis que abandonamos tudo e Vos seguimos: que recompensa haverá então para nós? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo que, no dia da regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, assentar-vos-eis em doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as terras, por causa de meu Nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.

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