No ano de mil setecentos e dezessete, o Brasil colonial testemunhou um milagre singular nas águas revoltas do Rio Paraíba do Sul. Três humildes pescadores, após horas de trabalho estéril e redes vazias, lançaram novamente seus instrumentos e recolheram das águas o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, seguido logo depois por sua cabeça. A partir daquele momento, a escassez transformou-se em abundância extraordinária, com as redes quase a se romperem pelo peso dos peixes. Aquela pequena figura de terracota, escurecida pelo tempo e pela lama, tornou-se o sinal tangível da proteção maternal e do senhorio da Virgem Maria sobre a Terra de Santa Cruz, sendo chamada com afeto de Aparecida, pois despontou das profundezas para socorrer seus filhos. Ela nos recorda as palavras do grande doutor mariano, Santo Afonso de Ligório, que afirma ser perfeitamente condizente o título de Senhora para Aquela cujo Filho Lhe entregou o domínio sobre todo o gênero humano. A veneração à Rainha e Padroeira atrai multidões inumeráveis que buscam consolo, depositando suas angústias aos pés da Mãe de Deus, cujo santuário primordial se ergueu majestosamente, sendo hoje a histórica Basílica Velha de Aparecida, coração devocional de uma nação inteira.
Contemplai, ó almas atentas, o assombroso contraste entre as obras dos homens e os desígnios de Deus! O mundo moderno, cego em seu orgulho, tenta construir um simulacro de religião. Vede a tremenda ilusão de nossos dias: multidões reúnem-se em templos que ainda ostentam o nome de católicos, preservando os velhos símbolos, as festividades animadas e um vocabulário adocicado, farto em discursos sobre solidariedade terrena. No entanto, por trás dessa encenação primorosa, as engrenagens movem-se silenciosamente para o abismo. Enquanto a verdadeira Igreja aponta inflexivelmente para o Céu, arrancando o pecador do lodo para elevá-lo à majestade do Criador, essa versão falsificada arma um palco ruidoso onde o próprio homem coroa a si mesmo. Mantêm-se as cascas, mas o núcleo sagrado foi saqueado. A liturgia divina, outrora terrível e gloriosa, é rebaixada a uma mera celebração humana. A sã e austera doutrina é diluída num amálgama de opiniões passageiras. E a fé? Esta degenera num sentimento raso e confortável de pertencer a um mero agrupamento social. Consuma-se a tragédia quando o sobrenatural é cordialmente escoltado para a porta da rua, enquanto as comissões e os conselhos mundanos assumem a presidência. É a perigosa sedução das comodidades, a aversão ao sacrifício e o desprezo flagrante pela cruz. Diante dessa aridez espiritual, onde as redes do esforço puramente humano são recolhidas vazias e rotas, desponta o milagre da graça. A Rainha dos Anjos emerge das águas barrentas do Paraíba não apenas para garantir o sustento corporal de três pescadores, mas para realizar a missão gloriosa de toda manifestação celestial: esmagar a cabeça da antiga serpente! A Mulher vestida de sol desce à nossa miséria para combater o naturalismo letal que sufoca a verdadeira piedade. O dragão apocalíptico vomita hoje o seu rio de perdições (o fluxo torrencial das heresias, das distrações e do relaxamento moral) para afogar as almas no esquecimento das realidades eternas. Mas a terra vem em auxílio da Mulher. Essa terra, figurada na simplicidade do povo fiel e no barro imaculado daquela sagrada imagem, absorve as investidas do demônio. Porque Maria foi preservada de toda mancha desde o primeiro instante de sua existência, como definiu o Papa Pio IX, Ela é o receptáculo perfeito da torrente de misericórdia, a nova Eva ensinada por Santo Agostinho e São Beda. Onde o mundo propõe o homem cheio de si e de seus vícios, o Evangelho nos apresenta a Virgem cheia de graça. Despertai, portanto, do sono das falsas seguranças! Abandonai as encenações deste século corrompido! Lançai as redes da vossa confiança no mar profundo da intercessão mariana. Que Ela, a Soberana que comanda os céus e a terra, vos arraste pelas asas da grande águia rumo ao deserto da oração autêntica, salvando-vos da enxurrada de ilusões e conduzindo-vos, inteiramente purificados, ao porto imortal da glória celeste.
Introito - (Ps 44:2) Salve, sancta Parens, eníxa puérpera Regem: qui cælum terrámque regit in sǽcula sæculórum. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi.Salve, ó Santa Mãe, que destes à luz o Rei: que governa o céu e a terra pelos séculos dos séculos. Meu coração transbordou de uma boa palavra: dedico as minhas obras ao Rei.
Epístola (Ap 12, 1. 5. 14. 15-16) - Signum magnum appáruit in cælo: múlier amícta sole, et luna sub pédibus ejus, et in cápite ejus coróna stellárum duódecim. Et péperit fílium másculum, qui rectúrus erat omnes gentes in virga férrea: et raptus est fílius ejus ad Deum, et ad thronum ejus. Et datæ sunt mulíeri alæ duæ áquilæ magnæ ut voláret in desértum in locum suum. Et misit serpens ex ore suo post mulíerem, aquam tamquam flumen, ut eam fáceret a flúmine trahi. Et adjúvit terra mulíerem, et apéruit terra os suum, et absórbuit flumen, quod misit draco de ore suo.Apareceu no céu um grande signo: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo de seus pés, e em sua cabeça uma coroa de doze estrelas. E deu à luz um filho varão que havia de reger todas as nações com cetro de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o trono d’Ele. Foram, porém, dadas à mulher duas asas de uma grande águia, a fim de voar para o deserto, ao lugar de seu retiro. E a serpente lançou de sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para fazer com que ela fosse arrebatada pela corrente. A terra, porém, veio em auxílio da mulher, e a terra abriu sua boca e engoliu o rio que o dragão tinha vomitado.
Evangelho (Lc 1, 26-28) - In illo témpore: Missus est Angelus Gábriel a Deo in civitátem Galilǽæ, cui nomen Názareth, ad Vírginem desponsátam viro, cui nomen erat Joseph, de domo David, et nomen Vírginis María. Et ingréssus Angelus ad eam dixit: Ave grátia plena: Dóminus tecum: benedícta tu in muliéribus.Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um varão que se chamava José, da casa de Davi. E o nome da Virgem era Maria. Entrando o Anjo onde ela estava, disse: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres.