Eleito para a Cátedra de Pedro no ano de 336, logo após o longo e frutuoso pontificado de São Silvestre, o Papa São Marcos I governou a Barca de Cristo por breves, porém intensíssimos, oito meses. Seu ministério transcorreu no rescaldo imediato do Concílio de Niceia, exigindo dele a firmeza de um autêntico pastor para consolidar a fé na divindade do Verbo contra as investidas pérfidas da heresia ariana, que tentava reduzir o Filho de Deus a uma mera criatura. Homem de profunda piedade e zelo apostólico, dedicou-se à organização interna da disciplina eclesiástica e à edificação de templos sagrados, estabelecendo o rito da imposição do pálio aos bispos e fundando uma igreja na Via Ardeatina, sobre as Catacumbas de Balbina, onde repousariam seus restos mortais, além de outra no coração de Roma, hoje conhecida como a Basílica de São Marcos. Sua vida foi um contínuo martírio incruento, um sacrifício vivo, consumido pelo desejo chamejante de que apenas Cristo reinasse absoluto nas almas e no altar.
Quem dizem os homens que é o Filho do homem? Eis a pergunta que ecoa pelo Evangelho de hoje e que rasga os séculos como uma espada flamejante, dividindo as trevas da luz, a mentira da verdade. Quando São Pedro, iluminado não pela carne e pelo sangue, mas pelo Pai celeste, proclama que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele lança o alicerce indestrutível sobre o qual a verdadeira Religião se ergue. Foi exatamente para defender esta confissão cristalina que o Papa São Marcos I se levantou em seu tempo. Todo santo é um farol aceso por Deus para dissipar uma sombra específica de sua época; e a grande sombra do século quarto era o delírio ariano, um veneno astuto que tentava rebaixar a majestade de Cristo, tornando-O palatável à razão mundana, esvaziando Sua eternidade para enquadrá-Lo na pequenez das medidas terrenas. Mas o perigo de fabricar um falso Cristo não ficou sepultado na antiguidade. Hoje, meus irmãos, vemos desenrolar-se diante de nossos olhos uma tragédia ainda mais sutil. Contemplemos a astúcia do inimigo: ele já não destrói os templos de pedra, mas ergue uma imitação pálida do sagrado. Vemos, por toda parte, uma estrutura que carrega as vestes da piedade, que ostenta os antigos estandartes e multiplica palavras doces sobre o afeto humano e a comunhão fraterna. Contudo, levantai o véu deste grande teatro! Por trás das cortinas desta religião de plástico, o altar do Cordeiro Imolado foi furtivamente substituído por um espelho colossal, onde o homem moderno contempla apenas a si mesmo. Na verdadeira Esposa de Cristo, tudo - do incenso que sobe aos céus ao canto austero que ressoa nas naves - agarra a alma pelo colarinho e a arrasta para as alturas, exigindo renúncia, mortificação e o abraço estreito da cruz. Na imitação barata que tenta seduzir o mundo, as portas do céu são fechadas e o salão de festas terreno é escancarado; o dogma imutável é diluído em meras perspectivas sentimentais, e a fé, aquela virtude teologal que arranca mártires das arenas, é rebaixada a um mero selo de pertencimento a um clube social amigável. Como nos adverte o Príncipe dos Apóstolos na Epístola de hoje, os pastores devem apascentar o rebanho não por amor aos lucros vis, não para colher o aplauso efêmero das praças, mas com os olhos fixos no Sumo Pastor que trará a coroa imarcescível. A liturgia não é uma assembleia de homens celebrando suas próprias virtudes, mas o terrível e glorioso calvário tornado presente, o culto puríssimo onde a Terra se cala e o Céu desce. Afastemo-nos das facilidades que entorpecem o espírito. Escolhamos, com São Marcos, a rocha dura da verdade divina, rejeitando as areias movediças das opiniões humanas, para que, quando o Senhor retornar, não nos encontre brincando com ilusões, mas de joelhos, banhados no Sangue redentor.