Livro: Lettere, abade Georges de Nantes, a crise na igreja pós-conciliar


O presente artigo tem por objetivo resumir e analisar de forma completa as ideias contidas na obra Lettere, do abade Georges de Nantes, conforme a seleção e apresentação de Hilarius Volpe na edição de 1969. A obra constitui um documento primordial da resistência católica tradicionalista às reformas oriundas do concílio vaticano II, traçando o percurso de um sacerdote que, partindo de uma esperança inicial, chega a uma denúncia radical de ruptura, subversão e heresia no seio da mais alta hierarquia da igreja. O tom dos escritos é veementemente crítico, revelando a angústia de uma alma que se vê compelida, por fidelidade à igreja de sempre, a opor-se àquilo que percebe como uma "nova religião" imposta pela igreja do seu tempo.

🕊️ Da esperança cautelosa à constatação do grande conflito

Inicialmente, o abade de Nantes acolhe a eleição do papa João XXIII e a convocação do concílio ecumênico com uma esperança fundada na fé. Recorda que, após o pontificado magistral de Pio XII, "doutor excelente, luz da igreja" (de Nantes, 1969, p. 11), a eleição de um papa de "transição" era a previsão comum. Contudo, via em João XXIII um pontífice de grande santidade, próximo de são Pio X, e o anúncio do concílio surge como uma manifestação do espírito santo para opor "à atração que o bloco compacto dos países soviéticos exerce sobre os povos" a "divina unanimidade da igreja" (de Nantes, 1969, p. 13). A sua esperança era que o concílio servisse para desmascarar e condenar os erros do naturalismo, do modernismo e do progressismo, que iniciavam "o desfacimento da sociedade cristã" (de Nantes, 1969, p. 14).

Essa esperança, no entanto, rapidamente se dissipa com o início dos trabalhos conciliares. Na primeira sessão, o autor identifica um "grande scontro do tradicionalismo e do reformismo" (de Nantes, 1969, p. 15). De um lado, posiciona a cúria romana, personificada por "verdadeiras 'colunas da igreja', como os cardeais Ottaviani, Siri, e outros" (de Nantes, 1969, p. 15), representando o partido da tradição. Do outro, descreve os episcopados francês, alemão, belga e holandês como "o partido do movimento", empenhado em uma "desitalianização da igreja" (p. 15). A análise de Nantes aponta que, embora as críticas às formas tradicionais fossem brilhantes, as "novas soluções preconizadas não podiam aparecer mais perigosas ou inconsistentes" (p. 16).

O ponto de inflexão na sua análise é a "mensagem a todos os homens", lançada pelos padres conciliares. De Nantes a considera um texto de inspiração progressista, cuja perspectiva é "terrena e natural" (p. 18), em flagrante contraste com a visão sobrenatural da igreja. Ele critica a ênfase na construção de "uma cidade mais justa e mais fraterna" neste mundo, em colaboração com "todos os homens de boa vontade", sem distinção de crença. Para ele, isso representa o abandono do magistério soberano da igreja, que intervém nas coisas terrenas para "recordar a lei de deus e mostrar o céu" (p. 19), em favor de uma assimilação a um "imenso e maravilhoso movimento socialista" (p. 19).

⚖️ O sacerdote perseguido: a fidelidade como delito

A trajetória pessoal do abade de Nantes torna-se emblemática do conflito que descreve. Na sua carta intitulada "prete perduto" (sacerdote perdido), ele narra a sua remoção forçada da paróquia de Villemaur. A sua desgraça, segundo ele, deve-se à sua recusa em silenciar diante das grandes crises do seu tempo. Primeiramente, a sua oposição à política do general de Gaulle na Argélia, que ele qualificava como "mentira", "homicídio" e "traição" (p. 40), e, em segundo lugar, a sua resistência crescente ao "espírito novo" que se levantava na igreja. A leitura do discurso de abertura do concílio por João XXIII, em 11 de outubro de 1962, foi um choque, pois percebeu ali um "espírito de otimismo beato e de reforma universal, bem contrário" às suas convicções (p. 43).

Ele se recusa a aceitar que a igreja deva praticar o "aggiornamento" para se conformar ao "mundo moderno". A sua vocação, afirma, é "recordar os direitos de deus, dizer a verdade, falar pelo fraco e o inocente perseguidos, fosse pure a preço da nossa vida" (p. 23). Nesta luta, ele identifica uma "mistificação" (p. 44) e uma "subversão religiosa" (p. 44) em curso, onde uma nova teologia, a de Teilhard de Chardin, e uma nova moral, evolutiva, são ensinadas para justificar uma cadeia de crimes contra a fé e a pátria. A sua resistência é, portanto, um ato de fidelidade à fé que lhe foi ensinada, à moral do decálogo e à elite católica e francesa que se vê espezinhada por uma hierarquia que se entregou ao movimento revolucionário.

📜 A acusação de heresia e a ruptura com a tradição

O cerne da crítica de Georges de Nantes é que o concílio vaticano II não representa um desenvolvimento da tradição, mas uma ruptura mortal com o passado infalível da igreja. No seu texto "funesto concilio", ele argumenta que o "reformismo" conciliar introduz "uma contradição mortal entre o seu passado infalível e o seu falível presente: Teilhard no lugar de s. Tomás de Aquino" (p. 34). A consequência inevitável, para ele, é a ruína da própria autoridade da igreja, pois, "tendo renegado a sua tradição, ela não poderia mais pretender nem à assistência perpétua do espírito santo, nem ao seu título único de religião revelada" (p. 34).

Para fundamentar esta acusação, ele cita o intelectual Étienne Borne, que afirmava abertamente que a passagem do syllabus para a nova doutrina da liberdade religiosa não poderia ocorrer por um desenvolvimento do implícito ao explícito, mas somente "mediante ruptura e aberta negação" (p. 35). Para de Nantes, o vaticano II posiciona-se como um anti-Gregório XVI, um anti-Pio IX, um anti-Pio X e um anti-Pio XII (p. 35). A reforma, portanto, não é uma adaptação, mas uma revolução que muda a religião e torna herética a antiga.

Esta convicção leva-o a acusar diretamente o papa Paulo VI de heresia. Na sua longa e detalhada carta ao sumo pontífice, ele afirma a existência de duas religiões e duas igrejas: "aquela da dogmática tradicional e aquela da pastoral moderna; aquela do catolicismo e aquela do ecumenismo; aquela do culto de deus em Jesus Cristo e aquela do culto do homem no mundo" (p. 109). Ele argumenta que o papa, ao se fazer promotor desta "nova religião", age não como o 263º sucessor de são Pedro, mas como um inovador que funda uma nova comunidade baseada num "humanismo transcendente" de inspiração maçônica (p. 110). Recorrendo à teologia medieval, citada na apresentação da obra por Hilarius Volpe, ele defende que um papa herege perde ipso facto o seu primado (p. 7-8), justificando assim o seu apelo ao clero de Roma para que proceda à deposição canônica de Paulo VI.

🏛️ O apelo a roma e a "sconfessione" (desautorização)

Diante das sanções impostas pelo seu bispo, o abade de Nantes decide apelar ao juízo da santa sé. Em sua carta ao cardeal Ottaviani, então pro-prefeito do santo ofício, ele solicita um julgamento doutrinal sobre seus escritos, reafirmando sua fé católica e sua submissão ao magistério legítimo. Ele o faz, contudo, sob um princípio fundamental: "que as novas doutrinas e leis do papa, do concílio e dos nossos bispos devem ser sempre entendidas e aceites na exata e exclusiva medida em que se acordam à doutrina imutável e às normas constantes da tradição católica" (p. 74).

O processo que se segue, no entanto, não resulta num julgamento doutrinal, como ele esperava. A congregação para a doutrina da fé, agora sob a prefeitura do cardeal Šeper, exige que ele assine uma fórmula de retratação de seus "erros" e de suas "graves acusações de heresia". Ele recusa categoricamente, argumentando que tal fórmula exige uma submissão cega e incondicional a atos "pastorais" falíveis, o que considera "exorbitante e visivelmente contrário à doutrina da fé" (p. 187-188). Ele reafirma que não pode, em consciência, retratar a acusação de heresia contra o papa, pois a teologia católica clássica reconhece tal possibilidade e ensina que papa haereticus deponendus est (um papa herético deve ser deposto) (p. 190).

O resultado final é uma "notificação" pública da congregação, em agosto de 1969, que o "desautoriza" (sconfessa). O documento afirma que, ao se rebelar contra o magistério, de Nantes "desqualifica o conjunto de seus escritos e de suas atividades" (p. 211). Crucialmente, a notificação não impõe sanções canônicas formais, como a excomunhão. O abade interpreta este fato como uma vitória: "a conclusão deste processo mal conduzido é, como toda a vida da igreja atual, em partida dupla" (p. 213). Para ele, o papa Paulo VI, como vigário de cristo, não pôde condená-lo por heresia, pois seus escritos não continham erros doutrinais. No entanto, o papa Montini, como "pioneiro do aggiornamento", quis desacreditá-lo por sua oposição à reforma. A ausência de uma condenação formal é, para de Nantes, a prova da incapacidade da roma reformista de refutar a doutrina da roma eterna, e, portanto, uma validação tácita da sua contrarreforma. Ele conclui que não é um cismático, mas permanece um "filho da igreja" (p. 194), fiel à tradição, mesmo que perseguido pela hierarquia revolucionária.

📚 Referência

NANTES, Georges de. Lettere. Roma: Giovanni Volpe Editore, 1969.