Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos e médicos de profissão, resplandecem no firmamento da Igreja como os gloriosos anárgiros, aqueles que exerciam a arte da cura sem aceitar moedas de ouro ou prata, transformando a medicina em um verdadeiro apostolado de salvação. Na província da Cilícia, durante as perseguições cruentas do imperador Diocleciano por volta do ano 287, recusaram-se a dobrar os joelhos diante de ídolos de pedra, provando que a verdadeira restauração do corpo deve sempre conduzir à saúde imortal da alma. Submetidos a atrozes torturas, coroaram sua fé inabalável com o martírio pela decapitação, vertendo seu sangue por Aquele que curou a humanidade no madeiro da Cruz. Suas relíquias preciosas e o centro de sua veneração litúrgica em Roma encontram-se na majestosa Basílica dos Santos Cosme e Damião, erguida no coração do antigo Fórum Romano, onde a glória do martírio cristão triunfou definitivamente sobre as ruínas poeirentas do paganismo.
Olhai, meus irmãos, para a deslumbrante armadura espiritual descrita na Epístola de hoje e contemplai o contraste brutal com os delírios da nossa época! Vivemos dias em que a tentação bate às portas do santuário, sussurrando aos ouvidos dos fiéis para transformarem a Casa de Deus num mero teatro de filantropia terrena. Quantos não tentam esvaziar o altar de seu Sacrifício tremendo, substituindo a sã doutrina por discursos açucarados de solidariedade, onde o homem rouba o trono do Criador e a liturgia decai numa estéril confraternização horizontal? Essa falsa assembleia, aplaudida pelo mundo, ostenta os ritos externos, mas repudia o Calvário; afaga os sentidos, mas nega a cruz, reduzindo a fé a um anestésico social e a Igreja a um clube de comodidades. Mas perguntemo-nos (onde está a salvação neste espetáculo de vaidades?) Santos Cosme e Damião levantaram-se exatamente contra essa idolatria da carne e do século, contra a letal heresia prática que reduz a existência humana à matéria e mede o valor do homem pelo ouro. Eles desceram à planície das dores humanas, como narra o Evangelho de São Lucas, não para distribuir ilusões de uma utopia terrena, mas para conduzir as almas enfermas ao Médico Divino. Eles, que desprezavam a prata, compreenderam, como nos ensina o grande Bispo de Hipona, que a recompensa do cristão não se pesa nas balanças do mundo, mas repousa intacta nos tesouros celestiais. O que é a cura dos membros corruptíveis, senão um pálido reflexo da restauração invisível da alma, como tão bem recordava o Pastor de Milão? Ao curarem gratuitamente, estes gloriosos mártires destroçaram a lógica mercantil de seu tempo, mostrando que a graça não se compra e a eternidade não se negocia. Eles não buscavam uma comunidade de aplausos, mas a glória da arena; não queriam o conforto dos salões, mas o esplendor da espada que os uniu a Cristo. Eis o destino da verdadeira Noiva do Cordeiro: apontar os olhos de uma humanidade rastejante para o alto, rejeitando as facilidades passageiras para abraçar a pobreza, a fome e as lágrimas por amor à Verdade, sabendo que só na loucura da cruz encontraremos, enfim, o sorriso eterno de Deus.
Introito - (Eclo 44, 15 e 14 | Sl 32, 1) Sapiéntiam sanctórum narrent pópuli, et laudes eórum núntiet Ecclésia: nómina autem eórum vivent in sǽculum sǽculi. Ps. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio. ℣. Glória Patri...Os povos proclamam a sabedoria dos Santos e a Igreja canta os seus louvores; os seus nomes viverão por todos os séculos. Sl. Exultai, ó Justos, no Senhor; aos retos de coração convém louvá-Lo.
Epístola (Sab 5, 16-20) - Justi autem in perpétuum vivent, et apud Dóminum est merces eórum, et cogitátio illórum apud Altíssimum. Ídeo accípient regnum decóris, et diadéma speciéi de manu Dómini: quóniam déxtera sua teget eos, et bráchio sancto suo deféndet illos. Accípiet armatúram zelus illíus, et armábit creatúram ad ultiónem inimicórum. Índuet pro thoráce justítiam, et accípiet pro gálea judícium certum: sumet scutum inexpugnábile æquitátem.
Os justos viverão para sempre. Sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo tem cuidado deles. Por isso receberão eles do Senhor um reino de honra e um diadema brilhante. Ele os protegerá com a sua destra e com o seu santo braço os defenderá. Seu zelo se vestirá de uma armadura, e armará as suas criaturas, para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça e por capacete, o seu juízo infalível. Embraçará a santidade como escudo impenetrável.
Evangelho (Lc 6, 17-23) - In illo témpore: Descéndens Jesus de monte, stetit in loco campéstri, et turba discipulórum ejus, et multitúdo copiósa plebis ab omni Judǽa, et Jerúsalem, et marítima, et Tyri, et Sidónis, qui vénerant, ut audírent eum, et sanaréntur a languóribus suis. Et qui vexabántur a spirítibus immúndis, curabántur. Et omnis turba quærébat eum tángere: quia virtus de illo exíbat, et sanábat omnes. Et ipse, elevátis óculis in discípulos suos, dicébat: Beáti páuperes: quia vestrum est regnum Dei. Beáti qui nunc esurítis: quia saturabímini. Beáti qui nunc fletis: quia ridébitis. Beáti éritis cum vos óderint hómines, et cum separáverint vos, et exprobráverint, et ejécerint nomen vestrum tamquam malum propter Fílium hóminis. Gaudéte in illa die, et exsultáte: ecce enim merces vestra multa est in cælo.
Naquele tempo, desceu Jesus da montanha, e parou na planície. A comitiva de seus discípulos e uma grande multidão do povo de toda a Judeia, de Jerusalém e da região marítima, de Tiro e de Sidon, tinham concorrido para O ouvir e se curar de todas as suas enfermidades. E os que eram vexados pelos espíritos imundos ficavam curados. E todo o povo procurava tocá-Lo, porque emanava d’Ele uma força que os curava a todos. Erguendo então os olhos para seus discípulos, disse Jesus: Bem-aventurados, vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados os que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos repelirem, carregarem de injúrias, e votarem ao desprezo o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos nesse dia, e exultai, porque, a vossa recompensa é grande no céu.