Nascido na Espanha imperial, São Tomás de Vilanova foi um frade agostiniano cuja alma resplandeceu como Arcebispo de Valência até o ano de sua entrega a Deus, em 1555. Conhecido perpetuamente como o pai dos pobres, ele compreendeu que a mitra e o báculo pastoral não eram adornos de vaidade terrena, mas pesados instrumentos de um serviço que se esvazia por completo em imitação a Cristo. Enquanto muitos prelados de seu tempo acumulavam benefícios e riquezas, este santo homem esvaziava os celeiros da Igreja para encher os estômagos dos desamparados, distribuindo os bens temporais com tamanha prodigalidade que, ao exalar seu último suspiro, não possuía sequer a cama sobre a qual entregou sua alma ao Criador. Seu corpo sagrado, autêntica semente de eternidade, repousa hoje na majestosa Catedral de Santa Maria de Valência, aguardando o glorioso amanhecer da ressurreição.
Introito - (Eclo 45, 30; Sl 131, 1) Státuit ei Dóminus testaméntum pacis, et príncipem fecit eum: ut sit illi sacerdótii dígnitas in ætérnum. Ps. Meménto, Dómine, David: et omnis mansuetúdinis ejus. ℣. Glória Patri...O Senhor fez com ele uma aliança de paz, constituindo-o príncipe, a fim de que tivesse para sempre a dignidade sacerdotal. Sl. Lembrai-Vos, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão.
Olhai para o altar e dizei-me o que vedes! A Sagrada Liturgia nos arranca das poeiras da terra e nos convida a contemplar o mistério do verdadeiro sacerdócio, traçado com letras de fogo na vida de São Tomás de Vilanova. O Evangelho de hoje nos adverte sobre os talentos que o Soberano distribui e, como assevera o grande Doutor da Graça (Santo Agostinho), não se trata de moedas inertes, mas de nossa inteligência, de nossa razão, de nossos dons derramados pela misericórdia para a edificação do Reino. Em tempos de vasta cegueira, levanta-se uma terrível tentação diante dos olhos dos fiéis: a de rebaixar o majestoso templo de Deus a uma mera praça de aplausos mútuos. Há, meus irmãos, uma religião de pura fachada que seduz as multidões, um simulacro ruidoso onde a rudeza da cruz é substituída pelas luzes de um palco e a adoração silenciosa cede espaço a um ameno encontro horizontal. Nessa triste caricatura de fé, o Senhor do Universo é exilado de Seu próprio santuário para que o homem vaidoso seja coroado no centro, embriagado por ensinamentos macios que prometem a glória sem o Gólgota e a virtude sem a mortificação dos apetites carnais. Mas a Igreja de Cristo, aquela que jorra imaculada do lado aberto do Redentor, não se humilha a ser uma mera associação filantrópica amarrada ao tempo! Ela aponta inexoravelmente para os cumes celestes, arrancando as almas da lama do egoísmo para transplantá-las nas fileiras da pátria eterna. Foi exatamente para esmagar a praga mortífera de sua época (aquele humanismo renascentista que mundanizava o clero e os fazia abandonar o rebanho para gozar dos luxos cortesãos) que São Tomás se ergueu como um farol flamejante. Ele destruiu a heresia silenciosa do comodismo eclesiástico ao encarnar a Epístola que ecoa hoje na Igreja: "Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus". Ele sabia, fundamentado na sabedoria dos antigos Pais, que esconder o talento na terra é entregar-se à putrefação das glórias deste século passageiro. O Arcebispo mendigo não transformou sua sagrada diocese num feudo de conveniências humanas, mas num fervoroso hospital de almas, vertendo o bálsamo sobrenatural sobre a chaga natural. Vós, portanto, que fostes lavados e enriquecidos com a graça inestimável do batismo, o que fareis com vossa herança? Enterrareis o tesouro divino sob a podridão das conveniências do mundo, buscando apenas o conforto do aplauso humano, ou fareis render a vossa fé no duro combate pela santidade? O mundo passa como uma sombra vã e suas encenações desmoronam no túmulo, mas a caridade forjada diante do altar permanece viva por todos os séculos. Trabalhai, pelejai, amai, para que no Juízo final possais ouvir a única sentença que importa: "Entra na alegria de teu Senhor"!
Epístola (Eclo 44, 16-27; 45, 3-20) - Ecce sacérdos magnus, qui in diébus suis plácuit Deo, et invéntus est justus: et in témpore iracúndiæ factus est reconciliátio. Non est invéntus símilis illi, qui conservárit legem Excélsi. Ídeo jurejurándo fecit illum Dóminus créscere in plebem suam. Benedictiónem ómnium géntium dedit illi, et testaméntum suum confirmávit super caput ejus. Agnóvit eum in benedictiónibus suis: conservávit illi misericórdiam suam: et invénit grátiam coram óculis Dómini. Magnificávit eum in conspéctu regum: et dedit illi corónam glóriæ. Státuit illi testaméntum ætérnum, et dedit illi sacerdótium magnum: et beatificávit illum in glória. Fungi sacerdótio, et habére laudem in nómine ipsíus, et offérre illi incénsum dignum in odórem suavitátis.
Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus e foi achado justo; no tempo da ira, tornou-se a reconciliação. Não se encontrou quem se lhe igualasse na observância da lei do Altíssimo. Por isso o Senhor, com juramento, o fez crescer no meio do seu povo. Deu-lhe a bênção de todas as nações e confirmou a sua aliança sobre a sua cabeça. Reconheceu-o nas suas bênçãos; conservou-lhe a sua misericórdia e ele achou graça diante dos olhos do Senhor. Engrandeceu-o na presença dos reis e deu-lhe uma coroa de glória. Fez com ele uma aliança eterna; deu-lhe o sumo sacerdócio, e glorificou-o na glória, para exercer o sacerdócio, e ter louvor no seu nome, e oferecer-Lhe dignamente incenso em odor de suavidade.
Evangelho (Mt 25, 14-23) - In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis parábolam hanc: Homo péregre proficíscens vocávit servos suos, et trádidit illis bona sua. Et uni dedit quinque talénta, álii autem duo, álii vero unum, unicuíque secúndum própriam virtútem, et proféctus est statim. Ábiit autem qui quinque talénta accéperat, et operátus est in eis, et lucrátus est ália quinque. Simíliter et qui duo accéperat, lucrátus est ália duo. Qui autem unum accéperat, ábiens fodit in terram, et abscóndit pecúniam dómini sui. Post multum vero témporis venit dóminus servórum illórum, et pósuit ratiónem cum eis. Et accédens qui quinque talénta accéperat, óbtulit ália quinque talénta, dicens: Dómine, quinque talénta tradidísti mihi, ecce ália quinque superlucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis: quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui. Accéssit autem et qui duo talénta accéperat, et ait: Dómine, duo talénta tradidísti mihi, ecce ália duo lucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis: quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: Um homem, indo viajar para longe, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, a cada qual segundo a sua capacidade. E partiu logo depois. Aquele que havia recebido os cinco talentos, foi-se e negociou com eles, e lucrou outros cinco. Da mesma sorte, o que recebera os dois talentos ganhou também outros dois. Mas o que havia recebido um só, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor desses servos, e chamou-os a contas. Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo-lhe: Senhor, vós me entregastes cinco talentos; eis outros cinco mais que lucrei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu senhor. Apresentou-se também o que recebera os dois talentos e disse: Senhor, vós me entregastes dois talentos; eis aqui outros dois mais que eu ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu Senhor.