Introito - Redemísti nos, Dómine, in sánguine tuo, ex omni tribu et lingua et pópulo et natióne: et fecísti nos Deo nostro regnum. Sl. Misericórdias Dómini in ætérnum cantábo: in generatiónem et generatiónem annuntiábo veritátem tuam in ore meo.Com o vosso Sangue, Senhor, Vós nos resgatastes de todas as tribos e línguas, de todos os povos e nações, e fizestes de nós um Reino para o nosso Deus. Sl. Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor; de geração em geração anunciarei por minha boca a vossa fidelidade.
A solene festividade do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo foi instituída e estendida a toda a Igreja no século XIX pelo glorioso Papa Pio IX, em fervorosa ação de graças pelo fim de seu doloroso exílio em Gaeta e seu retorno triunfal a Roma. Posteriormente, o Papa Pio XI elevou o grau desta liturgia para celebrar o décimo nono centenário da Redenção, recordando à cristandade que a nossa salvação não foi comprada com moedas perecíveis, mas com as rubis divinas que brotaram do Corpo adorável do Salvador. Neste dia, a Santa Mãe Igreja convida nossos corações a peregrinarem espiritualmente até o Calvário e a venerar os sagrados instrumentos da Paixão, custodiados veneravelmente na Basílica de Santa Cruz em Jerusalém, em Roma. Somos chamados a mergulhar nas fontes da graça, reconhecendo no cálice eucarístico o mesmo e puríssimo Sangue que jorrou do madeiro para lavar as manchas de nossa culpa e abrir-nos as portas do Paraíso.
Erguei os olhos, ó almas resgatadas, e contemplai o altar sagrado onde se renova o mistério insondável do nosso resgate! A Epístola do Apóstolo nos transporta para além das cortinas do tempo, revelando-nos a figura majestosa de Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote. Ele não adentra o tabernáculo portando o sangue estéril de cabritos e novilhos, mas atravessa o santuário celeste oferecendo a Deus o Seu próprio Sangue Imaculado. Que contraste formidável e terrível se ergue entre a divina oblação do Gólgota e a profunda indigência espiritual de nossa época! O espírito de nossos tempos, anestesiado pelo fascínio dos confortos efêmeros e rastejando atrás das glórias terrenas, sente profundo asco da cruz. A simples ideia de expiação e renúncia causa horror aos ouvidos acostumados às lisonjas. E, dor indizível, esta repulsa à imolação adentrou as próprias portas da Cidade Santa! Quantos não desejam uma religião sem espinhos, abrandando a dureza da verdade para mendigar o sorriso da multidão, preferindo o aplauso passageiro dos homens ao juízo eterno de Deus? Sob o disfarce de adaptações engenhosas e de uma falsa misericórdia que oculta a hediondez da culpa, buscam esvaziar o cálice da salvação. Mas o Santo Evangelho estilhaça essas perigosas ilusões. Do lado aberto do Redentor adormecido no lenho brota a torrente vital. Santo Agostinho nos alerta que fomos comprados a um preço infinito, não com ouro que se corrompe, mas com a própria vida de Deus; Santo Ambrósio e São Cirilo apontam maravilhados para esta ferida sagrada como a porta luminosa de onde nascem a Igreja e os Sacramentos; e Santo Tomás nos recorda que é este influxo sobrenatural que incendeia na alma a verdadeira e eterna caridade. Como poderíamos nós, marcados por tão sublime sinal, retroceder em busca das águas barrentas do mundo? Renunciemos corajosamente à covardia de um cristianismo amolecido! Prostremo-nos em profunda adoração diante do Sangue Preciosíssimo, inquebrantável escudo contra as investidas do inferno, suplicando que Ele purifique as nossas consciências das obras mortas e nos conceda a fortaleza para não ceder um milímetro aos enganos do século, vivendo unicamente para o Deus vivo e verdadeiro!
Epístola (Heb 9, 11-15) - Irmãos: Cristo se manifestou como Pontífice dos bens futuros. Por um mais vasto e mais perfeito tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não deste mundo, sem recorrer ao sangue de cabritos e novilhos, mas por seu próprio Sangue, entrou uma vez no santuário, tendo adquirido uma redenção eterna. Com efeito, se o sangue dos cabritos e touros e a cinza da novilha, aspergida sobre os manchados, os santificava para a purificação da carne, quanto mais o Sangue do Cristo, que pelo Espírito Santo a Si mesmo se ofereceu imaculado a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas, fazendo-nos capazes de servir ao Deus vivo. E por esse motivo, Ele é o Mediador do Novo Testamento a fim de que por sua morte, que sofreu para o perdão das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento, os que foram chamados à herança eterna recebam a promessa, no Cristo Jesus, Senhor nosso.
Evangelho (Jo 19, 30-35) - Naquele tempo, havendo Jesus provado o vinagre, disse: Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, expirou. Como era preparação da Páscoa, para que não ficassem na cruz os corpos em dia de sábado, (porque aquele dia de sábado era de grande solenidade), rogaram os judeus a Pilatos que se lhes quebrassem os ossos e os corpos fossem tirados. Vieram pois os soldados, e quebraram os ossos ao primeiro e ao outro que com ele fora crucificado. Tendo vindo depois a Jesus, como O viram já morto, não Lhe quebraram os ossos. Mas um dos soldados Lhe abriu o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água. E aquele que o viu, deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro.