Por muito tempo, o pessoal estava acostumado a enxergar o judaísmo como uma tradição voltada para os ritos antigos e a observância estrita. Hoje em dia, porém, se você der uma olhada no mundo ocidental, vai notar que a vitrine mudou: o compromisso com a justiça social tomou a frente de quase tudo. Bem no centro dessa troca de figurino está uma ideia chamada tikkun olam, que quer dizer reparar o mundo. Para entender como a religião desceu dos céus para consertar o asfalto, precisamos voltar no tempo, visitar um sujeito chamado Isaac Luria, e observar como a velha praga do modernismo fez o seu trabalho natural de moldar o pensamento contemporâneo.
Luria, conhecido pelos íntimos como o Ari, viveu lá pelo século dezesseis na cidade de Safed. Ele montou uma das visões cósmicas mais sofisticadas da história. Segundo a sua cabala, a criação não foi um serviço simples. Deus teve que encolher a sua própria infinitude - um negócio que eles chamam de tzimtzum - para dar espaço ao mundo. Depois disso, os vasos que deveriam guardar a luz divina acabaram quebrando, o tal do shevirat ha-kelim, espalhando faíscas sagradas por todos os cantos, até nos lugares mais obscuros. A tarefa do homem, especialmente do judeu, era juntar essas faíscas através das mitzvot, da oração e da pura intenção espiritual. O tikkun era, portanto, um ato cósmico e redentor para restaurar a unidade divina e consertar a fratura original da criação.
Como se vê, era um negócio profundamente místico e esotérico, centrado na redenção da alma. Ninguém estava tentando consertar a sociedade material; o objetivo primário era alinhar essa matéria com a sua raiz divina.
O verniz ético do movimento reformista
Dê um salto de alguns séculos e você encontra o judaísmo reformista, que nasceu na Alemanha do século dezenove e se consolidou com todo o conforto nos Estados Unidos. Eles pegaram esse conceito de Luria e deram a ele uma roupagem totalmente nova. O que era um mistério cósmico virou regra de ética social. Hoje, se você entrar numa sinagoga reformista, vai descobrir que tikkun olam virou sinônimo de ativismo de bairro: defesa de direitos humanos, combate ao racismo, proteção ambiental, apoio a refugiados, igualdade de gênero e justiça econômica. Frases de efeito, garantindo que ser judeu é reparar o mundo, viraram o grande lema dessa turma.
O modernismo entra em cena e cobra a conta
Claro que uma mudança dessas não cai do céu por acaso. Isso tem a assinatura inconfundível do modernismo e dos velhos valores do iluminismo. A partir do século dezoito, a Europa viveu um processo de secularização, de universalismo e de confiança cega na razão. Quando os judeus começaram a ganhar direitos de cidadania, viram-se num aperto bem conhecido: precisavam manter alguma identidade, mas sentiam uma necessidade enorme de provar aos vizinhos que podiam ser membros plenos e racionais da sociedade moderna.
O judaísmo reformista surgiu exatamente como resposta a esse aperto. Levados pela maré do racionalismo kantiano, do historicismo e do liberalismo político, eles fizeram o que sempre se faz quando se quer agradar o mundo secularizado. Rejeitaram grande parte do sobrenatural e das particularidades rituais. Valorizaram apenas a ética profética da Bíblia, pegando carona em Isaías e Amós, e a colocaram acima de qualquer lei ritual. Buscaram uma linguagem universal que combinasse com a cidadania moderna e transformaram o messianismo, que antes esperava um autêntico redentor, num ideal humanamente vago de progresso e justiça social.
Nessa manobra, o tikkun olam de Luria foi desmistificado sem muita cerimônia. As faíscas divinas deixaram de ser realidades espirituais para se tornarem meras metáforas de responsabilidade ética. O que o velho Luria via como um conserto cósmico, o reformismo interpretou como a simples obrigação moral de melhorar a sociedade aqui e agora.
Você tem que admitir que a adaptação foi genial e arriscada na mesma medida. Foi genial porque manteve o movimento aparentemente relevante num mundo secularizado, dando aos fiéis uma bandeira moral que atraiu gerações de jovens ávidos por causas. Mas foi uma aposta arriscada, para não dizer trágica, porque diluiu o conteúdo teológico tradicional, transformando uma religião incrivelmente densa em nada mais do que uma espécie de ética humanista, acompanhada apenas de um leve sotaque judaico.