Introito - Sapiéntiam sanctórum narrent pópuli, et laudes eórum núntiet Ecclésia: nómina autem eórum vivent in sǽculum sǽculi. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio. Glória Patri.Seja proclamada pelos povos a sabedoria dos santos e anunciados nas assembleias os seus louvores: os seus nomes sobreviverão a todos os séculos. Alegrai-vos, ó justos, no Senhor: aos corações retos convém o louvor. Glória ao Pai.
Nos dias sangrentos do império romano, quando a fidelidade a Cristo custava o derramamento do próprio sangue, os valorosos irmãos Simplício e Faustino foram cruelmente torturados e lançados às águas revoltas do rio Tibre por se recusarem a curvar a cabeça diante de ídolos de barro e metal, no início do século IV. Sua heroica irmã, Santa Beatriz, não se deixou acovardar pelo terror que paralisava tantos corações pusilânimes: com inabalável devoção filial e santa ousadia, resgatou os sagrados corpos de seus irmãos e lhes deu digna sepultura, sendo logo depois ela mesma aprisionada e estrangulada no cativeiro por confessar publicamente o Nome que está acima de todo nome. A esta tríade gloriosa, a liturgia tradicional da Santa Igreja une a memória do Papa São Félix II, adornado com a coroa do martírio no ano de 365, após defender vigorosamente a majestade do Verbo Divino contra as contaminações e perseguições políticas. Suas veneráveis relíquias, que um dia repousaram em úmidas catacumbas longe dos olhos dos perseguidores, hoje encontram-se gloriosamente custodiadas e veneradas na Basílica de Santa Maria Maior, no coração da Roma eterna, testemunhando perenemente que o sacrifício dos justos é a semente inextinguível da Igreja.
Onde repousam hoje os afetos de vossos corações, ó cristãos? Contemplai o formidável abismo que separa a santidade do Altar e a perdição do mundo, a eternidade que nos aguarda e o tempo que se evapora silenciosamente como fumaça! A Sabedoria sagrada proclama na Epístola de hoje que os justos receberão a régia coroa de glória e o diadema da beleza das mãos do próprio Deus. Mas como forjaram eles esta coroa? Olhai para a invencível constelação desta liturgia: o Papa São Félix, Simplício, Faustino e a virgem Beatriz! Eles não recuaram diante das águas geladas da morte nem da escuridão sufocante do cárcere. Em nossos tristes dias, porém, quão diferente é a paisagem espiritual! Uma letargia silenciosa e venenosa adentrou os recintos sagrados: não se busca mais, em tantos corações, a suprema glória de Deus, mas o aplauso fugaz e a aprovação dos homens. Infiltram-se sutis ambiguidades, diluem-se as verdades mais cristalinas, transformam-se as cruzes em enfeites palatáveis, tudo sob a falsa roupagem de adaptação aos tempos, seduzindo as almas com os confortos mundanos e ensinando-as a fugir do sacrifício que salva. O Papa São Félix tombou no exílio e no martírio justamente para não ceder uma vírgula sequer quanto à pureza da fé, enfrentando com destemor as inovações obscuras que tentavam destruir a Igreja de dentro para fora. Eis a sublime e terrível vocação de todo santo: erguer-se como uma espada flamejante contra as seduções de sua época, expurgar a complacência e clamar, com a própria vida, que não existe aurora de ressurreição sem o sangue do calvário! O Evangelho de hoje troveja do alto da planície: Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem por causa do Filho do Homem! Que nos importa a aceitação de um mundo que jaz nas trevas? Que nos interessam as facilidades e os atalhos terrenos, se eles enfraquecem o espírito e preparam a ruína final? Os grandes mestres e doutores da catolicidade sempre nos ensinaram que a verdadeira paz da alma só brota da fidelidade total à verdade incólume, jamais da concessão ao erro. Armai-vos, pois, com o zelo divino! Tomai por couraça a justiça imutável e por capacete a integridade! Arrancai de vossas vidas a busca doentia por agradar a uma geração corrompida, abraçai os mistérios deste altar com santo temor, para que, purificados no pranto do arrependimento e nutridos pela Vítima imaculada, possais rir das ameaças deste século e triunfar na luz esplendorosa e imperecível do Céu.
Epístola (Sab 5, 16-20) - Quanto aos justos, viverão eternamente: receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo, afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
Evangelho (Lc 6, 17-23) - Naquele tempo: Descendo Jesus do monte, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judeia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos. Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.