Introito - Effúsum est in terra jecur meum super contritióne fíliæ pópuli mei, cum defíceret párvulus et lactens in platéis óppidi. Ps. 112, 1. Laudáte, pueri, Dóminum: laudáte nomen Dómini.Derramou-se por terra o meu íntimo, pela ruína da filha do meu povo, ao desfalecer o menino e o lactente nas praças da cidade. Sl. Louvai, meninos, ao Senhor: louvai o nome do Senhor.
Militar valoroso da República de Veneza, Jerônimo Emiliani (1481-1537) encontrava-se aprisionado nos calabouços de Castelnuovo, amarrado em pesadas correntes e aguardando a morte, quando invocou o auxílio da Mãe de Deus. Miraculosamente liberto por Nossa Senhora, caminhou até o santuário mariano de Treviso, onde depositou os grilhões sobre o altar como troféu de sua conversão definitiva. Renunciando à espada e às ambições terrenas, consagrou toda a sua imensa fortuna e sua própria vida ao serviço dos mais miseráveis, especialmente as crianças e órfãos que vagavam abandonados pelas ruas após os estragos da guerra e da peste. Para perpetuar essa obra de caridade sobrenatural, fundou a Congregação dos Clérigos Regulares de Somasca. Consumido por uma epidemia que contraiu enquanto lavava as chagas dos doentes, entregou sua belíssima alma a Deus em 1537, estando seus veneráveis restos mortais sepultados no Santuário de Somasca.
Contemplai, ó almas atentas, o contraste formidável entre o altar e o mundo, entre a sabedoria da eternidade e as ilusões do nosso tempo! O espírito desta nossa época, cego pelo brilho passageiro, forjou para si um cristianismo indolor, uma doutrina complacente que foge da cruz, rejeita a austeridade e busca desesperadamente os aplausos humanos. Como uma fumaça sutil, essa mentalidade penetra nos recintos sagrados, sussurrando que o Evangelho deve adaptar-se aos confortos terrenos, que o sacrifício é um exagero do passado e que agradar aos homens vale mais do que agradar a Deus. Mas o que nos grita a Liturgia de hoje? Que nos ensina o glorioso São Jerônimo Emiliani, erguendo-se contra a tibieza e o egoísmo de seu século e do nosso? Ele, que possuía honras e riquezas, ouviu a voz soberana do Mestre que ressoa no Evangelho de hoje: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu". Não vedes o escândalo luminoso desta exigência? O mundo manda acumular; Cristo manda despojar. Como ensinam os grandes Doutores, a verdadeira caridade não é uma filantropia vazia, mas um fogo devorador que queima as nossas misérias no altar da renúncia. Quando o profeta Isaías nos clama, na Epístola, a repartir o pão com o faminto e recolher os desabrigados, não nos propõe um mero alívio social, mas o toque físico na carne sofredora de Cristo! Foi isso que fez São Jerônimo ao abraçar os órfãos pestiferados. Ele despedaçou os grilhões do comodismo burguês para prender-se às correntes do amor divino. Pergunto-vos, pois: continuaremos nós a fabricar uma piedade frouxa, que exige apenas algumas orações confortáveis, enquanto nosso coração permanece apegado às honrarias e aos prazeres deste mundo que passa? Despertai! A graça de Deus não nos foi dada para nos anestesiar, mas para nos transfigurar! Deixai que as palavras desta Missa rasguem o véu de nossas ilusões terrenas, para que, imitando a pobreza heróica deste soldado de Cristo, possamos finalmente abandonar as trevas do egoísmo e caminhar, livres de toda amarra, rumo à luz inesgotável da vida eterna!
Epístola (Is 58,7-11) - Assim diz o Senhor: Reparte o teu pão com o faminto, e recolhe em tua casa os pobres desabrigados; vendo um nu, cobre-o, e não desprezes a tua própria carne. Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura brotará sem detença; a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te ouvirá; gritarás, e Ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo e o falar vaidade; se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares secos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial cujas águas nunca faltam.
Evangelho (Mt 19,13-21) - Naquele tempo, foram apresentados a Jesus uns meninos, para que lhes impusesse as mãos e orasse. E os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse-lhes: Deixai os meninos, e não os impeçais de vir a mim, porque deles é o reino dos céus. E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali. E eis que, aproximando-se dele um mancebo, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? Ele respondeu-lhe: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom, que é Deus. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. Ele lhe disse: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o mancebo: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.