A celebração da Oitava da Ascensão no rito tradicional insere a Igreja em um profundo recolhimento espiritual, marcando o período que antecede a descida do Espírito Santo em Pentecostes. Durante estes oito dias, a Liturgia nos convida a permanecer espiritualmente no Cenáculo junto com a Bem-Aventurada Virgem Maria e os Apóstolos, em oração contínua. A Ascensão do Senhor não é um abandono, mas a inauguração de uma nova forma de presença de Cristo e o início da missão da Igreja militante. Historicamente, a oitava prolonga a solenidade do triunfo de Nosso Senhor sobre o pecado e a morte, quando Ele entra glorioso no santuário celeste para interceder por nós à direita do Pai. Este tempo litúrgico, mantido ciosamente pelo rito anterior a 1955 para consolidar a nossa esperança, recorda-nos que a nossa verdadeira pátria está nos céus, mas que o caminho até ela exige a fidelidade inabalável aos ensinamentos divinos e a coragem para enfrentar o mundo, rejeitando as fábulas e sustentando a sã doutrina que nos foi confiada até que Ele retorne nas nuvens.
🎵 Introito (At 1, 11 | Sl 46, 2)
Viri Galilæi, quid admiramini aspicientes in cælum? alleluja: quemadmodum vidistis eum ascendentem in cælum, ita veniet, alleluja, alleluja, alleluja. (Ps. 46, 2) Omnes gentes plaudite manibus: jubilate Deo in voce exsultationis. Gloria Patri...
Homens da Galileia, por que vos admirais, olhando para o céu? aleluia: assim como o vistes subir ao céu, assim virá, aleluia, aleluia, aleluia. (Sl 46, 2) Todos os povos, batei palmas: aclamai a Deus com vozes de alegria. Glória ao Pai...
📖 Epístola (At 1, 1-11)
No primeiro livro, ó Teófilo, falei de tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar, até o dia em que foi arrebatado ao céu, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que havia escolhido. A eles também se mostrou vivo depois da sua paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando do reino de Deus. E, comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, ouvistes da minha boca: Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. Aqueles, pois, que se haviam reunido, perguntaram-lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel? E ele lhes disse: Não vos pertence saber os tempos ou as épocas que o Pai reservou à sua própria autoridade. Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra. E, tendo dito estas coisas, foi elevado à vista deles, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos. E, estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que dois homens vestidos de branco se puseram ao lado deles, e lhes disseram: Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, assim virá, como o vistes ir para o céu.
✝️ Evangelho (Mc 16, 14-20)
Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze, estando eles sentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados. O Senhor Jesus, pois, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que a acompanhavam.
A Ascensão de Nosso Senhor, narrada no Evangelho, é o ápice terreno da missão do Verbo Encarnado e o início do mandato missionário da Igreja. São Gregório Magno nos ensina que, enquanto os anjos testificaram a descida do Espírito, foi a natureza humana que em Cristo foi elevada acima dos coros angélicos. Contudo, antes de subir, Jesus repreende a dureza de coração dos apóstolos, recordando-nos que a fé exige uma adesão integral à verdade. O mandato Ide por todo o mundo e pregai o evangelho não permite concessões. A verdadeira militância católica consiste em proclamar o Evangelho puro, sem adaptá-lo às corrupções e aos erros de uma modernidade que se recusa a suportar a sã doutrina. O mundo hodierno tenta silenciar a cruz e multiplicar mestres que afaguem suas paixões, mas a Igreja, munida dos sinais espirituais e da graça, deve confrontar o erro, expulsando os demônios das falsas ideologias e curando a humanidade enferma pelo pecado. Crer e ser batizado é a condição para a salvação; rejeitar essa verdade é render-se à condenação e às fábulas que afastam as almas de Deus.
Nos Atos dos Apóstolos, a Epístola nos revela a impaciência dos discípulos, que ainda nutriam esperanças terrenas e políticas, questionando sobre a restauração do reino de Israel. São João Crisóstomo adverte que os discípulos precisavam ser desapegados das glórias passageiras para compreenderem a grandeza da promessa do Espírito Santo. O dom do Paráclito não é dado para conformar a Igreja aos modelos seculares, mas para dotá-la da virtude divina necessária ao martírio e ao testemunho até os confins da terra. A advertência dos anjos atua como um corretivo espiritual: o tempo da Igreja é um tempo de combate e de testemunho ativo. A covardia de quem deseja uma religião amoldada ao espírito do mundo trai o sangue de Cristo. Nós recebemos a ordem de permanecer firmes na verdade, sem desviar os ouvidos para as fábulas do progressismo e do secularismo, sabendo que a promessa do Espírito nos garante a fortaleza inexpugnável para enfrentar os lobos e guardar intacto o depósito da fé tradicional.
O apelo solene do Introito - Homens da Galileia, por que vos admirais, olhando para o céu? - ecoa como um brado de despertar para cada católico. A contemplação da glória do Cristo que sobe ao céu deve ser o motor da nossa militância na terra. Não podemos ficar estagnados, absortos em um comodismo espiritual, enquanto o mundo tenta diluir o Evangelho com fábulas e novidades perniciosas. A certeza de que assim como O vistes subir ao céu, assim virá fundamenta a nossa coragem. Militamos não por um triunfo temporal, mas porque Aquele que está sentado à direita do Pai retornará como Juiz. Ao unirmos a promessa da parusia com o combate diário contra os erros do nosso tempo, a Igreja se reveste de glória. Que a nossa vida seja um constante testemunho desta verdade imutável, rejeitando firmemente qualquer tentativa de modernizar o Sagrado, e aguardando, com o terço nas mãos e a sã doutrina no coração, a volta triunfal do nosso Rei imortal.