Introito - Lætábitur justus in Dómino, et sperábit in eo: et laudabúntur omnes recti corde. Psalmus. Exáudi, Deus, oratiónem meam cum déprecor: a timóre inimíci éripe ánimam meam. Glória Patri...O justo alegrar-se-á no Senhor e porá n'Ele a sua esperança. Todos aqueles que possuem o coração recto serão glorificados. Salmo. Ouvi, Senhor, a oração com que Vos imploro: livrai a minha alma do temor do inimigo. Glória ao Pai...
O glorioso São Romão, outrora legionário do império terreno, alcançou a imortalidade na milícia celestial durante a sanguinolenta perseguição do imperador Valeriano, no ano de 258. Encarregado de vigiar o cárcere onde o grande arquidiácono São Lourenço aguardava o martírio, o coração endurecido do soldado romano foi fulminado pela graça ao contemplar a alegria sobrenatural e a inabalável constância do prisioneiro diante dos tormentos. Movido por um impulso divino, Romão trouxe um cântaro de água às catacumbas e suplicou que Lourenço o lavasse na fonte da regeneração baptismal. Imediatamente transformado, o neófito confessou a Jesus Cristo perante os juízes pagãos com voz de trovão, sendo açoitado sem piedade e decapitado no dia nove de agosto, precedendo o seu pai espiritual no recebimento da coroa da glória por apenas um dia. Os seus veneráveis despojos, atestado vibrante da eficácia fulminante da graça, repousam na antiquíssima Basílica de São Lourenço Fora dos Muros, recordando a todas as gerações que o sangue derramado por amor à Verdade é a seiva inesgotável da Santa Igreja.
Contemplemos, ó almas redimidas pelo madeiro sagrado, a metamorfose estupenda operada nas trevas frias do cárcere! Ontem, Romão empunhava a lança do paganismo para oprimir os justos; hoje, banhado nas águas da vida eterna, oferece o próprio pescoço à espada para não trair o Rei dos reis. Como este espetáculo formidável esmaga as misérias e covardias da nossa geração entorpecida! Em nossos dias nefastos, o adversário infernal mudou de tática: percebendo que o rugido das feras nas arenas apenas multiplicava os heróis da Fé, decidiu inocular um veneno silencioso nos próprios átrios do Santuário. Sopra-se nos corações uma sede desesperada por aceitação, uma ânsia doentia de amoldar as verdades imutáveis ao paladar apodrecido de um mundo que tem horror à mortificação. Sob o manto dourado de uma falsa benevolência, sugerem-se inovações anestesiantes, limando-se as arestas cortantes do dogma para não ofender os tímpanos de uma sociedade que idolatra as comodidades passageiras. Quantos, iludidos, temendo o isolamento e o escárnio dos inimigos de Cristo, transformam o mistério da Religião num teatro de conveniências terrenas, barganhando o depósito sagrado por um punhado de aplausos efêmeros! Mas escutai o brado majestoso do Divino Salvador que ecoa no Evangelho desta Missa: "Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma!" O glorioso São Romão compreendeu instantaneamente - como tão bem nos adverte o Doutor da Graça, Santo Agostinho - que o verdadeiro perigo não repousa na lâmina de aço que decepa a cabeça temporal, mas na capitulação espiritual que assassina a alma para a geena eterna. Na Epístola, o Apóstolo das Gentes nos acorda com uma trombeta estridente: todos os que quiserem viver piedosamente padecerão perseguições. Não existe cristianismo de veludo! Não há tratado de paz possível entre o Altar incorruptível e o lamaçal do século! Aquele que tenta construir alianças com o erro, silenciando o esplendor cortante da Tradição nas sombras do respeito humano, já entregou as chaves da cidadela aos lobos vorazes. Despertemos, irmãos, do sono lúgubre da complacência! Sejamos como este soldado invencível: arranquemos de nossos peitos a farda do apego mundano. Preguemos a integridade da Sã Doutrina sobre os telhados deste século em chamas, certíssimos de que é infinitamente mais belo ter a vida dilacerada pela fidelidade ao Salvador do que reinar sobre montanhas de cinzas nas cortes do príncipe das trevas.
Epístola (2 Tm 2,8-10; 3,10-12) - Caríssimo: Lembra-te de que Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitou dos mortos, segundo o meu Evangelho, pelo qual sofro até estar em cadeias como malfeitor; mas a palavra de Deus não está presa. Por isso tudo suporto por amor dos escolhidos, para que também eles consigam a salvação, que há em Jesus Cristo, com glória celeste. Tu, porém, tens observado a minha doutrina, o meu modo de vida, a minha intenção, a minha fé, longanimidade, amor, paciência; as minhas perseguições e aflições, quais as que padeci em Antioquia, em Icônio, em Listra. Quantas perseguições sofri! E de todas me livrou o Senhor. E todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus padecerão perseguições.
Evangelho (Mt 10,26-32) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Nada há oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a saber-se. O que vos digo nas trevas, dizei-o às claras; e o que se vos diz ao ouvido, pregai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo. Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá por terra sem a vontade de vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais pois: vós valeis mais que muitos passarinhos. Todo aquele, pois, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.