Introito - Me exspectavérunt peccatóres, ut pérderent me: testimónia tua, Dómine, intelléxi: omnis consummatiónis vidi finem: latum mandátum tuum nimis. Salmo - Beáti immaculáti in via: qui ámbulant in lege Dómini. Glória Patri...Os pecadores armaram-me ciladas para me perder; porém eu, ó Senhor, apliquei-me a conhecer os vossos testemunhos. Vi que tudo o que é perfeito tem limite: só o vosso mandamento é infinito. Salmo - Bem-aventurados os imaculados no caminho, que andam na lei do Senhor. Glória ao Pai...
Santa Cristina, cuja glória imarcescível celebramos neste dia, é uma puríssima flor do martírio, colhida nos primeiros séculos da Igreja, por volta do ano de 304, durante o furor da perseguição de Diocleciano. Nascida em Tiro, na região da Toscana, era filha de Urbano, um magistrado pagão. Este pai terreno, cego pelas trevas da idolatria e pela dureza de coração, tentou quebrar a fé inabalável de sua própria filha através de terríveis tormentos. A jovem virgem, porém, enchendo-se de zelo divino, despedaçou os ídolos de ouro e prata da casa paterna para distribuir os fragmentos aos pobres, selando assim a sua sentença. Nem as labaredas de fogo, nem as águas escuras do lago de Bolsena, onde foi lançada com uma pesada pedra atada ao pescoço, nem as flechas desapiedadas puderam extinguir o fogo do amor que a unia ao seu Divino Esposo. Guardada milagrosamente pelos Anjos até a hora determinada por Deus, entregou finalmente sua alma casta e invicta. Suas relíquias sagradas repousam e são veneradas na Basílica de Santa Cristina, tornando a cidade de Bolsena um farol ininterrupto do triunfo da graça sobrenatural sobre a fraqueza humana.
Volvei os vossos olhos, ó cristãos, para o altar e depois para o mundo! Que imenso abismo separa a eternidade do tempo, a graça do pecado, a luz inacessível de Deus das densas trevas em que jaz a presente geração! A alma contemporânea, embriagada pelos vapores do orgulho e seduzida pelo canto das facilidades terrestres, foge da Cruz como de um veneno fatal. Procura-se hoje uma religião sem sacrifício, um altar sem vítima, um evangelho diluído que console os vícios em vez de extirpá-los. E, quão terrível é constatar que essa mesma aversão à ascese e à sã doutrina penetra insidiosamente no próprio recinto sagrado. Vozes disfarçadas de misericórdia buscam amoldar os mistérios eternos aos aplausos passageiros dos homens, introduzindo inovações suaves, diluindo a majestade do rito e corrompendo a integridade da fé sob a roupagem enganosa de uma pretensa adaptação aos novos tempos. Mas, oh, vede a virgem Cristina! Ela não conheceu essas concessões covardes. No Evangelho de hoje, o Senhor nos fala do tesouro escondido e da pérola de grande valor. Que pérola é esta, como ensinam os Doutores da Igreja, senão o próprio Cristo e a verdade pura de sua doutrina, livre de mesclas humanas? Cristina encontrou essa pérola, e para comprá-la não hesitou em vender tudo o que possuía: a doçura da juventude, a aprovação do próprio pai, a paz deste mundo, a sua própria carne! Ela suportou os tormentos entoando em sua alma o canto de gratidão da Epístola de hoje: "Eu Vos glorificarei, ó Senhor Rei... porque fostes o meu auxílio e o meu protetor". Ela preferiu o dilaceramento do próprio corpo a consentir em sacrificar um só grão de incenso à falsidade, preferiu a espada ao compromisso com o erro. E nós? Permutaremos a herança gloriosa dos santos por sorrisos condescendentes de uma sociedade corrompida? Consentiremos que o fermento do comodismo esvazie o poder dos sagrados mistérios em nossas almas? Despertemos, irmãos, desse sono letárgico! A liturgia católica não é um espetáculo horizontal para agradar as multidões, mas a adoração tremenda e verdadeira, onde o Sangue do Cordeiro nos lava de toda idolatria secreta. Que o sangue de Santa Cristina nos arranque da covardia, movendo-nos a rejeitar as ciladas subtis de nossa época e a guardar, com amor indomável, a pérola inestimável de nossa santíssima fé.
Epístola (Eclo 51, 1-8; 12) - Eu Vos glorificarei, ó Senhor Rei, e Vos louvarei, ó Deus, meu Salvador. Glorificarei o vosso nome, porque fostes o meu auxílio e o meu protetor. Livrastes o meu corpo da perdição, do laço da língua injusta e dos lábios dos que forjam a mentira. Fostes o meu amparo contra os que me acusavam, e me livrastes segundo a multidão da misericórdia do vosso nome, dos que rugiam, preparados para me devorar; das mãos daqueles que procuravam tirar-me a vida, e das muitas tribulações que me cercaram; do ímpeto da chama que me rodeou e do meio do fogo em que não ardi; das profundezas do ventre do inferno, da língua maculada, da palavra da mentira, de um rei iníquo e da língua injusta. Louvarei o vosso nome assiduamente e O glorificarei em meus louvores, porque a minha oração foi ouvida. Vós me livrastes da perdição e me arrancastes do tempo da iniquidade. Por isso eu Vos confessarei, cantarei os vossos louvores e bendirei o nome do Senhor.
Evangelho (Mt 13, 44-52) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; se o encontra um homem, esconde-o e, no seu gozo, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo. O reino dos céus é também semelhante a um negociante, que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma de grande valor, foi, vendeu tudo o que possuía e comprou-a. O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolhe toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para a praia, sentam-se e recolhem os bons em cestos, deitando fora os maus. Assim será no fim do mundo: sairão os Anjos, e separarão os maus do meio dos justos e os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. Entendestes bem tudo isto? Sim, responderam-Lhe eles. Jesus disse-lhes então: Por isso, todo escriba instruído no reino dos céus é semelhante ao pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.