Os gloriosos mártires Sérgio e Baco ostentavam as altas insígnias militares sob o imperador Maximiano, servindo como oficiais de escol no exército romano. Contudo, quando a fúria idólatra do Estado exigiu que dobrassem os joelhos ante os ídolos pagãos, estes verdadeiros soldados de Cristo recusaram-se com invencível altivez, preferindo a degradação pública ao sacrilégio. Despojados de suas honrarias, foram vestidos com trajes femininos e arrastados pelas ruas em escárnio, até que Baco entregou a alma sob a brutalidade dos açoites e Sérgio, forçado a marchar com pregos cravados em seus calçados, teve a cabeça cortada pela espada na Síria. A eles unem-se, neste dia, os mártires Marcelo e Apuleio, que, após terem sido outrora seduzidos pelas artes mágicas de Simão Mago, tiveram seus olhos abertos pela pregação luminosa do Apóstolo São Pedro, lavando com o próprio sangue a sua profissão de fé na Cidade Eterna. As veneráveis relíquias dos oficiais sírios são honradas na antiga Igreja dos Santos Sérgio e Baco, atestando através dos séculos que a verdadeira nobreza não reside nos favores da corte, mas na coragem de perder a vida terrena por amor ao Cordeiro Imaculado.
Onde fixais, ó cristãos, o ancoradouro de vossas esperanças? Erguei as pupilas das cinzas voláteis desta terra e contemplai o esplendor refulgente do Céu, que hoje abre seus pórticos de pérola para receber estes quatro valorosos mártires! Vede a cegueira monumental daquele antigo império, que exigia de seus súditos uma vassalagem de cascas vazias e ritos ocos. O paganismo daquela era não passava de um vasto teatro (altares forjados em mármore frio, cerimônias lisonjeiras e ajuntamentos cívicos esteticamente irrepreensíveis) arquitetado unicamente para incensar o orgulho do homem e a vaidade do mundo. O imperador não buscava a adoração autêntica, mas uma mera submissão social, um conformismo de rebanho. E não é este, pergunto-vos com o coração em chamas, o mesmíssimo veneno que, de forma sorrateira, tenta asfixiar as almas em nossos dias? O espírito mundano labora sem descanso para fabricar uma religião falsificada, onde a reverência sobrenatural é rebaixada a uma simples festa de confraternização humana. Nesta trágica ilusão, a engrenagem gira de cabeça para baixo: o Criador é cordialmente exilado de Sua própria casa, enquanto o homem comum é coroado como o astro principal do altar. Sob a máscara do afeto fraterno, constrói-se um simulacro assustador, pois as exigências ásperas do Calvário são trocadas por sorrisos de conveniência, os dogmas inegociáveis diluem-se em palpites puramente humanos, e a fé verdadeira degrada-se em um sentimento morno de aceitação grupal. Os métodos terrenos assumem o leme, e a salvação eterna é polidamente convidada a retirar-se! A cruz, outrora sinal terrível de contradição, é escondida sob o tapete das facilidades modernas, que odeiam o sacrifício e fogem da sã doutrina. Mas os santos, meus amados, são os meteoros flamejantes de Deus, cuja missão fulcral é justamente fulminar as heresias e os delírios de sua época! Santos Sérgio, Baco, Marcelo e Apuleio foram erguidos pela Providência divina para esmagar a farsa do comodismo e aniquilar a idolatria da carne, lembrando-nos que não há pacto possível entre a luz e as trevas. Eles trocaram as lisonjas palacianas pelos pregos, pela desonra e pelo fio da espada. Lede o que nos clama a Epístola do Livro da Sabedoria: a armadura do justo não é tecida com o veludo das cortes, mas com a couraça da justiça e o escudo inexpugnável do Altíssimo. Na arena sangrenta, eles não encontraram a aniquilação, mas o abraço abrasador da Vida Eterna! Escutai o eco cristalino do Evangelho de São Lucas: Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e expulsarem o vosso nome como infame! O Doutor da Graça nos desperta deste torpor ao ensinar que as honrarias da terra são pesadas correntes douradas, das quais a alma precisa desprender-se para alçar voo rumo à majestade divina. E a voz de ouro do Oriente adverte-nos, com estrondo de trombeta, que a perseguição e o opróbrio do mundo são os selos inconfundíveis da autêntica milícia de Cristo! Não vos deixeis embalar por encenações estéreis que prometem coroas sem espinhos. Se o mundo vos repele e zomba de vossa piedade, saltai de alegria, pois os sofrimentos deste brevíssimo exílio não têm o menor peso diante do banquete perene que nos aguarda. Estes mártires indômitos pisaram nas vaidades da terra para tomar assento nas bodas imortais do Cordeiro Sagrado, gravando a ferro e fogo em nossas consciências uma lição indelével: de que serve preservar a carne intacta numa assembleia de meras aparências, se a alma padecer de inanição nas trevas exteriores?
Introito - (Eclo 44, 15; Sl 32, 1) Sapiéntiam sanctórum narrent pópuli, et laudes eórum núntiet Ecclésia: nómina autem eórum vivent in sǽculum sǽculi. Psalmus. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio.Seja proclamada pelos povos a sabedoria dos santos e anunciados nas assembleias os seus louvores: os seus nomes sobreviverão a todos os séculos. Salmo. Alegrai-vos, ó justos, no Senhor: aos corações retos convém o louvor.
Epístola (Sab 5, 16-20) - Justi autem in perpétuum vivent, et apud Dóminum est merces eórum, et cogitátio illórum apud Altíssimum. Ideo accípient regnum decóris, et diadéma speciéi de manu Dómini: quóniam déxtera sua teget eos, et bráchio sancto suo deféndet illos. Accípiet armatúram zelus illíus, et armábit creatúram ad ultiónem inimicórum. Induet pro thoráce justítiam, et accípiet pro gálea judícium certum. Sumet scutum inexpugnábile æquitátem: acuet autem duram iram in lánceam, et pugnábit cum eo orbis terrárum contra insensátos.Quanto aos justos, viverão eternamente: receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo, afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
Evangelho (Lc 6, 17-23) - In illo témpore: Descéndens Jesus de monte, stetit in loco campéstri, et turba discipulórum ejus, et multitúdo copiósa plebis ab omni Judǽa, et Jerúsalem, et marítima, et Tyri, et Sidónis, qui vénerant, ut audírent eum, et sanaréntur a languóribus suis. Et qui vexabántur a spirítibus immúndis, curabántur. Et omnis turba quærébat eum tángere: quia virtus de illo exíbat, et sanábat omnes. Et ipse elevátis óculis in discípulos suos, dicébat: Beáti páuperes: quia vestrum est regnum Dei. Beáti qui nunc esurítis: quia saturabímini. Beáti qui nunc fletis: quia ridébitis. Beáti éritis cum vos óderint hómines, et cum separáverint vos, et exprobráverint, et ejécerint nomen vestrum tamquam malum propter Fílium hóminis. Gaudéte in illa die, et exsultáte: ecce enim merces vestra multa est in cælo: secúndum hæc enim faciébant prophétis patres eórum.Naquele tempo: Descendo Jesus do monte, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judeia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos. Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.