São Dionísio, enviado à Gália no alvorecer do terceiro século para iluminar as trevas do paganismo, ergueu-se como o primeiro bispo de Paris ao lado de seus intrépidos companheiros, São Rústico e Santo Eleutério. Sua pregação, abrasada pelo fogo do Espírito, não apenas demoliu velhos ídolos e atraiu almas inumeráveis para Cristo, mas também despertou a fúria sanguinária do Império Romano. Condenados à decapitação no monte que até hoje carrega o nome de sua paixão, a tradição piedosa e arrebatadora narra que Dionísio, num estupendo milagre, tomou sua própria cabeça decepada nas mãos e caminhou até o lugar de seu repouso. Esta imagem formidável atesta que nem mesmo a espada pode silenciar a voz da Verdade. Identificado historicamente pela veneração antiga com Dionísio, o Areopagita (aquele que se rendeu ao discurso de São Paulo em Atenas), sua jornada terrena culmina no túmulo sobre o qual se ergueu a majestosa Basílica de São Dionísio, tornando-se farol eterno de que o sangue dos mártires é a garantia viva da vitória sobrenatural da Igreja.
Vede, amados irmãos, o abismo intransponível que separa o altar de Deus do palco do mundo! No Santo Evangelho, o próprio Cristo nos adverte com palavras que penetram até a medula: (Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer). Esta é a bússola infalível que guiou São Dionísio e seus companheiros para a glória imperecível. Contudo, olhai ao vosso redor e contemplai o grande engano de nossa época. Quantos templos, ostentando a cruz no alto, transformaram-se internamente em meros teatros de vaidade? Preservam-se os paramentos e repetem-se as doces palavras de comunidade, mas o motor oculto dessa máquina opera uma trágica inversão. O olhar que deveria estar cravado no imenso tribunal do céu volta-se languidamente para a terra, e o mistério sagrado cede lugar a um convívio puramente humano. O homem, inebriado por si mesmo, sobe ao centro do santuário, e o Criador é silenciosa e polidamente convidado a retirar-se de Sua própria casa. A robusta doutrina do sacrifício, outrora regada pelo sangue de milhares, é diluída em sentimentos passageiros, reduzindo a fé majestosa a um rótulo de pertencimento a um clube de afetos terrenos, onde a consciência adormece anestesiada pelo conforto. Mas o que nos ensina o glorioso bispo mártir de hoje? Enviado às florestas obscuras da Gália, a magna missão de São Dionísio foi combater a hidra venenosa do paganismo e da idolatria (o gravíssimo perigo que cega a alma e a aprisiona na matéria). Ele não ofereceu aos pagãos um acordo de convivência amigável com seus erros, mas plantou o machado da Verdade na raiz de suas falsas crenças. Assim como São Paulo no Areópago não se acovardou diante da vaidosa sabedoria ateniense, anunciando sem rodeios Aquele que julgará o mundo com justiça, Dionísio marchou contra o negrume espiritual de seu tempo com a vida nas mãos. Como ensinam São João Crisóstomo e Santo Ambrósio, o martírio não é o fim lamentável de uma existência, mas o supremo triunfo da graça sobre a hipocrisia e a covardia (o fermento dos fariseus). Quando a espada desceu sobre o pescoço do santo bispo, a Igreja não chorou uma derrota, mas celebrou o esplêndido nascimento de uma semente invencível. Despertai, pois, ó alma cristã! Fugi das encenações mundanas que esvaziam as verdades eternas. Quebrantai os confortáveis ídolos do mundo moderno, abraçai a vossa cruz e confessai o Filho do Homem diante deste século fugaz, para que, no temível e derradeiro dia, Ele mesmo vos confesse diante da corte reluzente dos Anjos de Deus.
Introito - (Eclesiástico 44, 15 e 14; Salmo 32, 1) Sapiéntiam sanctórum narrent pópuli, et laudes eórum núntiet Ecclésia: nómina autem eórum vivent in sǽculum sǽculi. Psalmus. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio.Que os povos narrem a sabedoria dos Santos, e que a Igreja proclame os seus louvores: seus nomes, porém, viverão para sempre. Salmo: Exultai, justos, no Senhor; aos retos convém o louvor.
Epístola (Atos 17, 22-34) - Naqueles dias, Paulo, estando no Areópago, disse: “Atenienses, vejo que em tudo sois extremamente religiosos. Pois, passando e observando vossos objetos de culto, encontrei também um altar no qual estava escrito: ‘Ao Deus desconhecido’. O que, pois, vós adorais sem conhecer, eu vos anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos humanas, nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, pois Ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e todas as coisas. E de um só fez todo o gênero humano para habitar sobre a face da terra, determinando os tempos estabelecidos e os limites de sua habitação, para que buscassem a Deus, se porventura, tateando, o encontrassem, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como também disseram alguns dos vossos poetas: ‘Porque somos também da sua linhagem’. Sendo, pois, da linhagem de Deus, não devemos pensar que a Divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e imaginação do homem. Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, agora anuncia aos homens que todos, em toda parte, se arrependam, porque Ele estabeleceu um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio do homem que designou, dando a todos prova disso ao ressuscitá-lo dos mortos.” Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, alguns zombaram, enquanto outros disseram: “Nós te ouviremos sobre isso outra vez.” Assim, Paulo se retirou do meio deles. Alguns homens, porém, aderiram a ele e creram, entre os quais Dionísio, o Areopagita, uma mulher chamada Dámaris e outros com eles.
Evangelho (Lucas 12, 1-8) - Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: Cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido. Porque o que dissestes nas trevas será dito à luz, e o que falastes ao ouvido nos aposentos será proclamado sobre os telhados. Digo-vos, pois, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar na geena. Sim, eu vos digo, a este temei. Não se vendem cinco pardais por dois centavos? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. Até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; vós valeis mais do que muitos pardais. Digo-vos também: Todo aquele que me confessar diante dos homens, o Filho do Homem o confessará diante dos Anjos de Deus.