São Remígio (437-533), imortalizado na história como o "Apóstolo dos Francos", foi o intrépido bispo de Reims que rasgou as trevas da Gália com a tocha do Evangelho. Em um tempo em que as ruínas do Império Romano fumegavam e as almas vagavam sem pastor, ele assumiu o báculo aos vinte e dois anos, tornando-se a rocha sobre a qual a fé de uma nação seria edificada. Seu triunfo mais estrondoso ecoou na Noite de Natal do ano 498, quando desceu às águas batismais com o feroz rei Clóvis, selando a eterna aliança entre os francos e a Igreja de Cristo. Com a voz trovejante de um profeta antigo, fulminou o paganismo e a barbárie proferindo a máxima que ainda reverbera nos séculos: "Curva a cabeça, ó sicambro; adora o que queimaste e queima o que adoraste". Não apenas demoliu os ídolos de madeira, mas ergueu o estandarte da cruz, lançando as raízes indestrutíveis da civilização cristã na Europa. Celebramos no dia primeiro de outubro a gloriosa trasladação de suas veneráveis relíquias, que hoje repousam com celestial majestade na monumental Basílica de Saint-Remi, na França, farol inextinguível da fé ortodoxa.
Considerai, ó almas atentas, a majestade insondável da sagrada liturgia de hoje e pergunto-vos: o que faremos com as moedas de ouro que o Rei dos Céus depositou em nossas mãos? O Evangelho nos fala de talentos, e o eremita de Estridão nos ensina que o homem a viajar para longe é o próprio Cristo que, subindo vitorioso aos céus, confiou aos Seus apóstolos e sucessores o inestimável tesouro da pura doutrina. São Remígio, o grande sacerdote exaltado na Epístola, não tomou o talento da graça episcopal para enterrá-lo na lama das conveniências políticas ou no solo estéril da covardia. Diante do abismo da idolatria pagã e do veneno ariano que ameaçavam devorar as ovelhas, ele não negociou a verdade; ele a impôs com a autoridade de quem serve ao Altíssimo, exigindo que a altivez bárbara se curvasse e que os falsos deuses fossem reduzidos a cinzas. Que contraste fulminante e aterrador com a desolação de tantos de nossos dias! Vivemos tempos em que uma religiosidade de fachada ergue seus monumentos de ilusão: conservam-se as paredes antigas e os cantos de domingo, mas o coração palpita por outros deuses. Arrancam o olhar das alturas, que deveria buscar a glória do Criador, e cravam-no no pó da terra, no próprio umbigo de assembleias ruidosas. O altar sagrado, lugar do terrível e salvífico sacrifício, é degradado a uma reles mesa de congraçamento humano; a doutrina cristalina, comprada com o sangue dos mártires, dissolve-se em um pântano de opiniões rasteiras; e a fé, outrora o escudo dos santos, definha até virar um mero afago psicológico, um passaporte para um ajuntamento social sem exigências celestes. Afugenta-se o calvário, esconde-se a cruz e repudia-se a mortificação, porque o homem corrompido pelas facilidades se embriaga com os aplausos do mundo e detesta o cheiro do incenso que sobe a Deus. Mas escutai o brado do Mestre no juízo final! Como nos recorda o sábio bispo de Hipona, a recompensa do servo fiel não é um prazer terreno, mas a entrada na vida divina, no gozo do próprio Senhor. Todo dom, nos adverte o grande Pontífice Gregório, até mesmo o mais diminuto, exige labor incessante e suor na vinha. Curva, pois, a tua cabeça, ó homem moderno! Queima o ídolo do teu conforto, as tuas vaidades e as tuas liturgias vazias de sacrifício, e adora, em espírito e verdade, Aquele que há de vir para pedir contas de cada suspiro teu!
Introito - (Eclo 45, 30; Sl 131, 1) Státuit ei Dóminus testaméntum pacis, et príncipem fecit eum: ut sit illi sacerdótii dígnitas in aetérnum. Ps. Meménto, Dómine, David: et omnis mansuetúdinis ejus. ℣. Glória Patri...O Senhor fez com ele uma aliança de paz, constituindo-o príncipe, a fim de que tivesse para sempre a dignidade sacerdotal. Sl. Lembrai-Vos, Senhor, de Davi e de toda a sua submissão.
Epístola (Eclo 44, 16-27; 45, 3-20) - Ecce sacerdos magnus, qui in diebus suis placuit Deo, et inventus est justus: et in tempore iracundiae factus est reconciliatio. Non est inventus similis illi, qui conservavit legem Excelsi. Ideo jurejurando fecit illum Dominus crescere in plebem suam. Benedictionem omnium gentium dedit illi, et testamentum suum confirmavit super caput ejus. Agnovit eum in benedictionibus suis: conservavit illi misericordiam suam: et invenit gratiam coram oculis Domini. Magnificavit eum in conspectu regum: et dedit illi coronam gloriae. Statuit illi testamentum aeternum, et dedit illi sacerdotium magnum: et beatificavit illum in gloria. Fungi sacerdotio, et habere laudem in nomine ipsius, et offerre illi incensum dignum in odorem suavitatis.
Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus e foi considerado justo; no tempo da ira, tornou-se a reconciliação dos homens. Ninguém o igualou na observância das leis do Altíssimo. Por isso o Senhor jurou que o havia de glorificar em sua descendência. Abençoou nele todas as nações e confirmou sua aliança sobre a sua cabeça. Distinguiu-o com as suas bênçãos; conservou-lhe a sua misericórdia e ele achou graça diante do Senhor. Enalteceu-o diante dos reis e deu-lhe uma coroa de glória. Fez com ele uma aliança eterna; deu-lhe o sumo sacerdócio, e encheu-o de felicidade na glória, para exercer o sacerdócio, cantar louvores a seu Nome e oferecer-Lhe dignamente incenso de agradável odor.
Evangelho (Mt 25, 14-23) - In illo tempore: Dixit Jesus discipulis suis parabolam hanc: Homo quidam peregre proficiscens, vocavit servos suos, et tradidit illis bona sua. Et uni dedit quinque talenta, alii autem duo, alii vero unum, unicuique secundum propriam virtutem: et profectus est statim. Abiit autem qui quinque talenta acceperat, et operatus est in eis, et lucratus est alia quinque. Similiter et qui duo acceperat, lucratus est alia duo. Qui autem unum acceperat, abiens fodit in terram, et abscondit pecuniam domini sui. Post multum vero temporis venit dominus servorum illorum, et posuit rationem cum eis. Et accedens qui quinque talenta acceperat, obtulit alia quinque talenta, dicens: Domine, quinque talenta tradidisti mihi, ecce alia quinque superlucratus sum. Ait illi dominus ejus: Euge, serve bone et fidelis, quia super pauca fuisti fidelis, super multa te constituam: intra in gaudium domini tui. Accessit autem et qui duo talenta acceperat, et ait: Domine, duo talenta tradidisti mihi, ecce alia duo lucratus sum. Ait illi dominus ejus: Euge, serve bone et fidelis, quia super pauca fuisti fidelis, super multa te constituam: intra in gaudium domini tui.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: Um homem, indo viajar para longe, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, a cada qual segundo a sua capacidade. E partiu logo depois. Aquele que havia recebido os cinco talentos, foi-se e negociou com eles, e lucrou outros cinco. Da mesma sorte, o que recebera os dois talentos ganhou também outros dois. Mas o que havia recebido um só, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor desses servos, e chamou-os a contas. Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo-lhe: Senhor, vós me entregastes cinco talentos; eis outros cinco mais que lucrei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu senhor. Apresentou-se também o que recebera os dois talentos e disse: Senhor, vós me entregastes dois talentos; eis aqui outros dois mais que eu ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu Senhor.