A memória litúrgica do dia vinte e seis de setembro eleva os nossos olhos para a glória imperecível de São Cipriano de Antioquia e Santa Justina. A narrativa desta dupla de mártires encerra uma das mais estupendas vitórias da graça sobre as trevas da antiguidade. Cipriano não era um homem comum; era um formidável mago pagão, um mestre das artes ocultas que movia legiões infernais para satisfazer as paixões terrenas. Ao ser contratado para corromper a pureza de Justina, uma jovem e devota virgem cristã, o bruxo deparou-se com uma muralha intransponível. Todo o seu vasto e tenebroso poder foi repetidamente desfeito pelo simples, mas invencível, sinal da cruz traçado pela donzela. Espantado ao ver seus demônios fugirem aterrorizados diante da fé de uma moça indefesa, Cipriano compreendeu a nulidade de sua falsa ciência. Queimou seus grimórios repletos de vaidade, suplicou o batismo e, transformado pelo fogo do Espírito Santo, chegou a ser sagrado bispo. Durante a sangrenta perseguição de Diocleciano (no ano de 304), o ex-mago e a virgem que o resgatou foram presos, torturados e decapitados juntos, lavando suas vestes no Sangue do Cordeiro. Hoje, a piedade cristã recorda seu triunfo, cujas relíquias venerandas encontraram repouso ao longo dos séculos nos sagrados recintos da Basílica de São João de Latrão, o coração pulsante da Mãe e Cabeça de todas as igrejas.
Introito - (Sl 36, 39; 1) Salus autem justorum a Domino: et protector eorum est in tempore tribulationis. ℣. Noli aemulari in malignantibus: neque zelaveris facientes iniquitatem. ℣. Glória Patri...A salvação dos justos vem do Senhor, e Ele é o seu protetor no tempo da tribulação. ℣. Não tenhas inveja dos que obram mal, nem imites os que praticam a iniquidade.
Vede, meus irmãos, que contraste assombroso e magnífico se desenrola diante de nossos olhos! A vida destes santos não é uma simples fábula do passado, mas um espelho ardente que reflete o combate do nosso próprio tempo. Todo eleito de Deus é forjado no cadinho da eternidade com uma vocação claríssima: erguer-se como uma espada flamejante contra as ilusões mais perigosas de sua época. São Cipriano, outrora mestre das feitiçarias, foi chamado a destruir a máscara do ocultismo pagão; hoje, contudo, o grande truque do inimigo não se esconde em caldeirões ou sortilégios, mas num teatro muito mais sutil que ousa invadir o próprio solo sagrado. Observai ao vosso redor! Ergue-se diante de nós uma imitação rasteira da Noiva de Cristo. Uma assembleia de aparências, especialista na encenação, que mantém os paramentos coloridos, as reuniões festivas e os discursos adocicados sobre um humanismo vazio. No entanto, por trás dessa cortina de fumaça, o mecanismo da salvação gira às avessas. A verdadeira Igreja, banhada no sangue de Justina, aponta o dedo indicador para o céu, arrancando o pobre pecador da lama para depositá-lo no regaço do Criador. Mas a sua triste falsificação arrasta o céu para a lama, colocando o homem - frágil, orgulhoso e moribundo - no centro do altar. O Santo Sacrifício, outrora tremendo e majestoso, é profanado em nome de confraternizações estéreis. A rocha firme da doutrina é implacavelmente moída no moinho das opiniões baratas, e a fé verdadeira, que exige a cruz, é substituída pelo conforto mesquinho de pertencer a um mero grêmio social. É a vitória do efêmero sobre o eterno! Quando as luzes divinas são apagadas para que os holofotes do mundo brilhem, a verdadeira finalidade de nossa existência é expulsa porta afora. A mentalidade destes tempos, embriagada pelos prazeres e apavorada pelo sacrifício, foge da Cruz como os demônios fugiam de Santa Justina. Mas escutai o brado de São Paulo na Epístola de hoje: os primeiros cristãos aceitavam com alegria a perda de todos os seus bens materiais, pois sabiam que possuíam uma riqueza muito maior e permanente! O próprio Verbo Encarnado, no Evangelho que ecoa nesta liturgia, nos adverte com clareza cristalina: não temais os que matam o corpo. O que o mundo pode fazer contra vós? Zombar de vossa piedade? Retirar o vosso prestígio? Tudo isso é pó que o vento leva! Temei apenas perder a vossa alma imortal. Como nos ensina o glorioso Santo Agostinho, confessar a Cristo diante da espada do carrasco (ou diante do desprezo do mundo moderno) é abraçar a Vida Eterna. Rompamos, pois, com esta religião de plástico, com este cristianismo sem cruz. Que a pureza inabalável de Justina e a conversão radical de Cipriano nos inspirem a rejeitar as facilidades mundanas, mantendo os olhos fixos naquele tribunal onde o Senhor confessará diante de Seu Pai aqueles que, nesta terra de exílio, não tiveram vergonha de dobrar os joelhos diante da Majestade Divina.
Epístola (Hb 10,32-38) - Fratres: Rememoramini pristinos dies, in quibus illuminati magnum certamen sustinuistis passionum: et in altero quidem opprobriis et tribulationibus spectaculum facti: in altero autem socii taliter conversantium effecti. Nam et vinctis compassi estis, et rapinam bonorum vestrorum cum gaudio suscepistis, cognoscentes vos habere meliorem et manentem substantiam. Nolite itaque amittere confidentiam vestram, quae magnam habet remunerationem. Patientia enim vobis necessaria est: ut voluntatem Dei facientes, reportetis promissionem. Adhuc enim modicum aliquantulum, qui venturus est, veniet, et non tardabit. Justus autem meus ex fide vivit.
Irmãos: Trazei à memória os dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes um grande combate de aflições. Por um lado, fostes feitos espetáculo, por causa dos opróbrios e tribulações; por outro, vos tornastes companheiros daqueles que assim foram tratados. Pois vos compadecestes dos prisioneiros e aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens, sabendo que possuís uma riqueza melhor e permanente. Não percais, pois, a vossa confiança, que tem uma grande recompensa. Porque a paciência vos é necessária, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Pois ainda um pouco, um pouquinho de tempo, e o que há de vir, virá e não tardará. Mas o meu justo vive da fé.
Evangelho (Mt 10,28-33) - In illo tempore: Dixit Jesus discipulis suis: Nolite timere eos, qui occidunt corpus, animam autem non possunt occidere: sed potius timete eum, qui potest et animam et corpus perdere in gehennam. Nonne duo passeres asse veneunt: et unus ex illis non cadet super terram sine Patre vestro? Vestri autem capilli capitis omnes numerati sunt. Nolite ergo timere: multis passeribus meliores estis vos. Omnis ergo, qui confitebitur me coram hominibus, confitebor et ego eum coram Patre meo, qui in caelis est. Qui autem negaverit me coram hominibus, negabo et ego eum coram Patre meo, qui in caelis est.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno. Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá por terra sem a vontade de vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; valeis mais do que muitos passarinhos. Todo aquele, pois, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus.