No século treze, quando as correntes da escravidão arrastavam incontáveis cristãos para os sombrios cativeiros mouriscos, o Céu não permaneceu surdo aos gemidos dos seus filhos. A própria Mãe de Deus, em esplendorosa e consoladora aparição a São Pedro Nolasco, inspirou a fundação da Ordem dos Mercedários, incendiando a terra com um heroísmo inaudito: homens que se ofereciam como moeda de troca, entregando a própria liberdade e a própria vida para resgatar os irmãos cativos. Esta augusta invocação de Nossa Senhora das Mercês, ou da Misericórdia, cuja devoção floresceu a partir da sublime Igreja Mãe na Espanha, recorda-nos o inabalável socorro maternal da Virgem Puríssima. Pois, como nos adverte o eco ardente de São Bernardo de Claraval, jamais se ouviu dizer que alguém que recorresse à sua proteção e implorasse o seu resgate fosse por Ela desamparado. O que antes era a quebra das algemas de ferro nas masmorras do Mediterrâneo, eleva-se hoje à suprema glória da quebra das correntes espirituais que aprisionam a alma humana longe de seu Criador.
Olhai ao vosso redor, meus irmãos, e dizei-me: acaso não vedes erguer-se em nossos dias um terrível simulacro de religião? Um edifício que ostenta o nome de cristão, que repete velhas fórmulas e congrega multidões aos domingos, mas que, no fundo, esvaziou a cruz de todo o seu sangue? Eis a grande ilusão do nosso tempo! Construiu-se um teatro suntuoso onde o altar foi rebaixado a um mero balcão de interações sociais e o homem coroou a si mesmo como o centro do universo. Nessa paródia de fé, a majestade do sacrifício é trocada por um ativismo oco; a verdade imutável é diluída no veneno das conveniências passageiras; e a religião, que deveria arrancar as almas da lama para lançá-las ao esplendor eterno, torna-se apenas uma agremiação terrena, um refúgio para o sentimentalismo estéril que foge da penitência e abraça os aplausos do mundo. Fogem das espinhas e exigem apenas coroas de rosas! Mas o Evangelho de hoje troveja contra essa fraude. Quando a mulher na multidão exalta a carne, o próprio Cristo eleva o nosso olhar para o espírito: (Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática!) Como nos ensina o grande Santo Agostinho, a glória incomparável de Maria não consistiu apenas em gerar a carne do Salvador, mas em concebê-Lo antes em sua alma pela fé inabalável. Ela ouviu, obedeceu e se tornou o terror dos demônios! No tempo de São Pedro Nolasco, o grande perigo que arrastava almas para o inferno era a escravidão física sob o jugo infiel, que forçava os cristãos à apostasia. Hoje, a heresia é mais sutil e infinitamente mais venenosa: é a escravidão consentida aos encantos do século, o cativeiro dourado de uma mentalidade mundana que odeia a doutrina pura e idolatra o bem-estar. É contra esse cativeiro moderno que Nossa Senhora das Mercês se levanta! Ela, cujo poder está firmado em Jerusalém, como proclama a Epístola, é a porta pela qual devemos passar para escapar deste teatro de vaidades, pois, nas palavras de São Boaventura, ninguém se aproxima do trono da graça senão por seu intermédio. Refugiemo-nos sob o seu manto! Deixemos que Ela quebre as correntes das nossas ilusões mundanas, para que, libertos do falso cristianismo que agrada aos homens, possamos servir ao verdadeiro Deus que reina pelos séculos dos séculos.
Introito - (Sl 44, 2) Salve, sancta Parens, eníxa puérpera Regem: qui cælum terrámque regit in sǽcula sæculórum. Ps. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi. ℣. Glória Patri...Salve, ó Santa Mãe, em cujo seio foi gerado o Rei que governa o céu e a terra, por todos os séculos dos séculos. Sl. Exulta o meu coração em alegre canto; ao Rei dedico as minhas obras. ℣. Glória ao Pai...
Epístola (Eclo 24, 14-16) - Ab inítio et ante sǽcula creáta sum, et usque ad futúrum sǽculum non désinam, et in habitatióne sancta coram ipso ministrávi. Et sic in Sion firmáta sum, et in civitáte sanctificáta simíliter requiévi, et in Jerúsalem potéstas mea. Et radicávi in pópulo honorificáto, et in parte Dei mei heréditas illíus, et in plenitúdine sanctórum deténtio mea.
Desde o princípio e antes dos séculos fui criada; e não deixarei de existir em toda a sucessão dos tempos; na morada santa exerci perante Ele o meu ministério. Fui assim firmada em Sião, e repousei na cidade santa; e em Jerusalém está o meu poder. Arraiguei-me em um povo glorioso, e nesta porção do meu Deus, que é a sua herança. Na assembleia dos Santos, estabeleci a minha assistência.
Evangelho (Lc 11, 27-28) - In illo témpore: Loquénte Jesu ad turbas, extóllens vocem quædam múlier de turba, dixit illi: Beátus venter, qui te portávit, et úbera, quæ suxísti. At ille dixit: Quinímmo beáti, qui áudiunt verbum Dei, et custódiunt illud.
Naquele tempo, falava Jesus ao povo, quando uma mulher elevando a voz, do meio da multidão, Lhe disse: Bem-aventurado o seio que Vos trouxe e os peitos que Vos amamentaram. Ele porém disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática.