segunda-feira, 8 de junho de 2026

Padre José Eduardo e o dilema da autoridade na crise da Igreja

O problema do subjetivismo e a raiz da revolta

Aquele vídeo do padre José Eduardo, apropriadamente batizado de "Do tradicionalismo à apostasia", conseguiu o feito de agitar as águas já bastante revoltas entre os católicos que andam perdendo o sono com a crise atual da Igreja. O bom sacerdote resolveu alertar o povo contra o que ele enxerga como uma verdadeira deriva sectária de certos grupos tradicionalistas - de modo muito particular, aquela turma que se abriga sob o lema do "reconhecer e resistir". Ora, não se pode negar que a análise dele tem lá seus méritos, e dos grandes, mas também acaba desenterrando questões tão fundas que, no fim das contas, ficam sem resposta.

Um dos golpes mais certeiros da sua exposição é ter ido direto na raiz filosófica da encrenca. Ao ligar esse nosso subjetivismo moderno às ideias daquele senhor Descartes, o padre José Eduardo nos refresca a memória sobre uma velha verdade que a humanidade adora esquecer na gaveta: toda revolução religiosa começa, antes de tudo, na cabeça. Quando um sujeito passa a achar que o seu próprio juízo vale mais do que a autoridade legítima, bem, tentar manter a unidade da fé vira um trabalho inútil. A bronca dele contra esse tal orgulho intelectual e a mania de tentar montar uma religião particular, feita sob medida, está muito bem fundamentada na velha tradição católica.

O perigo dos altares humanos e o grande dilema da obediência

Seguindo na mesma toada, a crítica que ele faz a essa mania de certos meios tradicionalistas de transformar figuras humanas em bússolas quase absolutas merece, sem dúvida, a nossa atenção. Ao apontar o dedo para essa tendência de culto à personalidade ao redor de dom Marcel Lefebvre, o padre toca num machucado bem real. Veja você, por mais notável que um bispo possa ter sido na defesa da tradição, não há jeito de ele ocupar a cadeira que, pela própria natureza da coisa, pertence ao papado na estrutura da Igreja.

Mas é justamente nessa curva do rio que o barco do seu argumento começa a fazer água. O padre José Eduardo bate com força no problema da resistência à autoridade, mas dá um jeito de contornar a questão da própria autoridade em si. Afinal de contas, se a obediência é uma virtude católica por excelência, como é que a gente explica essas décadas a fio de briga entre os setores tradicionais e a alta cúpula do pós-concílio? Como é possível fazer com que ensinamentos velhos e novos se sentem à mesma mesa em paz, quando uma boa parte dos fiéis não consegue ver nada além de contradição entre eles?

O vídeo acerta em cheio ao insistir que não dá para pegar a consciência individual de cada um e elevá-la ao posto de tribunal supremo da fé. Acontece que os críticos do padre logo levantaram a mão para notar que a mesma pedrada serve para aqueles grupos que, pelos últimos sessenta anos, acharam por bem escolher a dedo quais ensinamentos do concílio levariam para casa e quais deixariam na prateleira. E aí caímos num dilema de onde não dá para fugir: ou a autoridade é legítima e o rebanho tem de obedecer, ou então existem pedras no caminho graves o suficiente para que se desconfie dessa mesma legitimidade.

O tribunal da consciência e a verdadeira natureza da crise

Pois é exatamente nesse vespeiro que os sedevacantistas dizem meter a mão até o fundo. Na visão deles, a crítica do padre José Eduardo matou a charada sobre as contradições desse negócio de tradicionalismo de resistência, mas freou a carruagem pouco antes da conclusão lógica. A ideia de reconhecer uma autoridade para, logo em seguida, passar a vida inteira resistindo sistematicamente a ela não tem pé nem cabeça. O sacerdote, por sua vez, não quer nem ouvir falar dessa conclusão e bate o pé na necessidade de todo mundo se manter grudado à hierarquia visível da Igreja.

Agora, não importa para qual lado você penda nessa história toda, o bate-boca serve para mostrar um traço curioso da crise católica de hoje: o buraco não é meramente litúrgico. Não é uma simples queda de braço entre a missa velha e a missa nova. O xis da questão mora na nossa compreensão sobre o que é a autoridade, sobre a boa e velha obediência e sobre a tal da continuidade doutrinal. É nesse terreno lamacento que as divergências mostram as suas verdadeiras caras.

Se há um mérito no padre José Eduardo, é o de nos lembrar que esse subjetivismo religioso é um perigo real e capaz de fazer grandes estragos. O seu defeito, se formos dar ouvidos aos seus críticos, é não conseguir dar uma resposta que preste às queixas daqueles que juram de pés juntos enxergar uma ruptura na doutrina depois do Concílio Vaticano II. O que sobra disso tudo é uma conversa que não tem hora para acabar e que segue rachando o mundo tradicionalista ao meio.

Muito mais do que uma briga de vizinhos entre grupos diferentes, o que temos nas mãos é uma discussão sobre a essência mesma do que vem a ser a Igreja, sobre até onde vai a corda da obediência e sobre como a autoridade e a verdade devem se entender. Enquanto ninguém conseguir amarrar essas pontas soltas de um jeito que convença, essa crise toda que o padre denunciou vai continuar operando a sua velha fábrica de criar novas divisões, novos conflitos e toda sorte de interpretação sobre qual será o destino do catolicismo contemporâneo.