Um veterano do sistema desperta
Por um bom punhado de anos, Dom Carlo Maria Viganò foi tido na conta de um prelado perfeitamente ajustado à engrenagem da hierarquia pós-conciliar. Sendo diplomata vaticano, núncio apostólico e homem de confiança de vários pontífices, sua vida inteira esteve amarrada ao sistema que brotou do Concílio Vaticano II.
É justamente por conhecer os bastidores que sua carta a Leão XIV tem um peso que vai muito além das costumeiras brigas eclesiásticas. Pense bem: é o relato franco de alguém que passou décadas respirando o ar das altas rodas da Igreja Conciliar e que, empurrado pela teimosia dos fatos, acabou admitindo o que muitos católicos tradicionais já vinham dizendo há mais de meio século.
O valor do documento não reside naquelas já conhecidas denúncias de corrupção, encobrimento de abusos ou perseguições contra o próprio arcebispo. O ponto onde a coisa realmente se torna decisiva é outro: ele reconhece, com todas as letras, que a crise na Igreja não é invenção de Francisco, nem pode ser explicada apenas por meia dúzia de desvios individuais.
A raiz do problema e a curiosa limitação do arcebispo
Viganò aponta o dedo direto para o Concílio Vaticano II como o berço de toda essa revolução. Segundo nosso arguto observador, os textos foram escritos com aquela astúcia peculiar de quem deseja criar ambiguidades, permitindo uma leitura ortodoxa num dia e outra totalmente heterodoxa no dia seguinte. O objetivo? Contrabandear para dentro de casa, aos poucos, as mudanças de doutrina, liturgia e disciplina que o velho magistério costumava barrar na porta.
Qualquer um notaria que esse diagnóstico bate exatamente com a análise que sujeitos como Michel-Louis Guérard des Lauriers, Joaquín Sáenz y Arriaga, Anthony Cekada e Francisco Ricossa vêm desenvolvendo há décadas.
Mas é neste exato ponto que o sapato aperta e a carta revela a limitação do pensamento de Viganò.
Ele nos pinta um quadro muito claro: o Concílio ensinou erros, os papas que vieram depois promoveram essas novidades, a nova liturgia ajudou a arruinar a fé e a hierarquia encontra-se amplamente apodrecida. Diz ainda que a Igreja visível foi ocupada por revolucionários, que Francisco propagou doutrinas incompatíveis com a fé e que Leão XIV segue embalando a mesma canoa.
E, no entanto, depois de enfileirar todos esses fatos, Viganò faz questão de reconhecer a legitimidade da mesmíssima autoridade que o condenou. Eis aí uma contradição impossível de contornar.
A velha teologia católica sempre nos garantiu que a Igreja não falha. Ela simplesmente não pode ensinar de modo oficial um erro ao mundo, nem impor uma falsa religião ou empurrar os fiéis para longe da salvação com disciplinas nocivas. Não é assim que o negócio foi desenhado para funcionar.
À porta do sedevacantismo
A matemática então torna-se cruel: se as acusações de Viganò são verdadeiras - e uma olhada rápida pela janela parece confirmar boa parte delas -, fica um tanto impossível sustentar que os responsáveis por essa revolução continuem vestindo o manto da autoridade papal legítima. A carta esbarra precisamente nesse dilema.
Ele questiona, coçando a cabeça, como é que todos os papas anteriores a Pio XII parecem ter ido parar no banco dos réus da Igreja de hoje. Pergunta como a doutrina constante foi trocada por um modelo novinho em folha, e como os que defendem a tradição são tachados de cismáticos, enquanto os distribuidores de erros caminham impunes. Mas a resposta lógica para essas charadas teima em não dar as caras em seu texto.
A turma sedevacantista argumenta que a crise não se resume a gente fazendo mau uso de um poder legítimo. O buraco é mais profundo. Uma autoridade que gasta seu tempo espalhando ideias contrárias ao magistério perene prova, por si só, que não possui a proteção divina prometida ao papado.
Lendo a carta, a gente se lembra de tantos autores tradicionais destas últimas décadas. Eles montaram o quebra-cabeça inteiro, identificaram a crise, mas na hora de tirar a última conclusão, recuaram.
O próprio documento deixa escapar frases que apontam direto para o farol. Quando o arcebispo indaga se foi condenado pela autoridade do Vigário de Cristo ou pela autoridade de uma turma que prega outro evangelho, ele levanta a questão que inevitavelmente deságua no problema da legitimidade da autoridade conciliar.
A grande força de suas linhas é justamente mostrar que as velhas desculpas conservadoras perderam a validade. Já não dá mais para culpar os abusos ou excessos pastorais. O próprio Viganò admite que a ponte foi cortada: há uma ruptura estrutural entre a Igreja de antes e a religião que saiu do Vaticano II.
Mas, ao teimar em prestar reverência àqueles que ele mesmo aponta como os responsáveis por essa ruptura, o arcebispo fica preso numa armadilha teológica que sua própria lógica não dá conta de desarmar.
Daqui a alguns anos, é bem provável que esta carta seja lembrada como um dos papéis mais valiosos do período pós-conciliar. Não porque traga a solução definitiva do problema, mas por ser a confissão franca de um membro da mais alta hierarquia que, depois de suar a camisa a vida toda pelo sistema, resolveu admitir publicamente o tamanho da revolução iniciada no Vaticano II.
No fim das contas, o texto é o relato de um homem que fez a viagem intelectual inteira até a soleira da porta do sedevacantismo, mas preferiu parar antes da última conclusão.