A fé, meus caros, nunca foi um projeto de engenharia social, mas a guarda zelosa daquele depósito revelado por Nosso Senhor, passado de mão em mão pelos apóstolos e pelos antigos padres da Igreja, sem perder uma vírgula no caminho. Olhando por esse prisma, o texto de Elizabeth Yore - uma advogada que entende de proteger as crianças e não tem papas na língua na hora de defender a ortodoxia - soa como o aviso de um profeta no deserto. Ela tira a máscara desse atual processo sinodal. Segundo ela, não estamos diante de uma simples caminhada conjunta guiada pelo Espírito Santo, mas de um maquinário azeitado e veloz para alinhar a Igreja aos propósitos da famosa agenda 2030 da ONU. Ela chama isso, com a precisão de um relojoeiro, de um grande reset espiritual.
A senhora Yore nota, com olhos de lince, a curiosa mudança de marcha no sínodo. Durante um bom tempo, o palavreado era todo sobre escuta, diálogo, discernimento e caminhada em conjunto. De repente, como num passe de mágica, brotam cronogramas duros, metas que se pode contar nos dedos, avaliações marcadas no calendário e prazos de entrega: implementação local ali por 2025 e 2026, relatórios diocesanos e nacionais em 2027, continentais em 2028, culminando numa grande assembleia em Roma em outubro de 2028. Ora, a autora faz uma pergunta que não quer calar: se o fim da estrada já tem data e destino marcados no mapa, onde é que entra a tal abertura ao Espírito Santo? Isso não é bem uma consulta aos fiéis; é a execução pura e simples de uma planta baixa já desenhada pelo arquiteto.
Um paralelismo muito curioso com a agenda 2030
O cerne dessa análise mora numa coincidência que é grande demais para ser obra do acaso: os temas sinodais e os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU parecem ter sido separados na maternidade. Quando ouvimos falar de fraternidade universal, combate à pobreza, imigração, sustentabilidade, clima e inclusão social nas Nações Unidas, o eco bate nos muros do Vaticano em forma de fraternidade humana, bem comum, cuidado com a criação, escuta aos pobres, diálogo intercultural e acolhimento.
A própria engrenagem é parecida. Temos grupos de trabalho, relatórios de todo tipo, comissões, avaliações e metas globais. A Igreja parece ter adotado o manual de administração da ONU, trocando aquela velha hierarquia apostólica por uma burocracia cheia de reuniões participativas, que acaba aguando a autoridade doutrinal. Elizabeth Yore acerta na mosca ao dizer que não se trata de dar uma espanada na poeira pastoral, mas de uma reviravolta profunda na própria identidade da Igreja. Ela deixa de ser a mater et magistra para virar parceira de escritório de organismos internacionais e laicos.
O Papa Francisco é lembrado por suas repetidas declarações de apoio a esses objetivos da ONU, o que acaba emprestando a eles um verniz moral e religioso. Palavras como diálogo, solidariedade, fraternidade, inclusão e sustentabilidade viraram a ponte que liga o Vaticano a Nova York. A ecologia, e muito especialmente aquele pânico generalizado com o clima, tomou a cadeira da frente. Fica parecendo que salvar as almas depende muito mais de controlar o escapamento dos carros e as emissões de carbono do que de converter os corações.
A engrenagem do grande reset espiritual
A conclusão de Yore é cristalina: a ONU entra com a estrutura política, a governança global e os alvos socioeconômicos; a Igreja do sínodo entra com o selo de garantia moral, o vocabulário espiritual e a bênção religiosa. De braços dados, levariam a humanidade para uma nova ordem. O detalhe é que não seria o Reino de Cristo, mas uma irmandade humanista que dispensou o peso da cruz.
Essa é uma crítica de cair o queixo, mas absolutamente necessária. A tal sinodalidade, da forma como vem operando a máquina, acaba promovendo uma montanha de burocracia que sufoca a vida sacramental. Substitui a verdade objetiva por um diálogo que nunca termina, criando uma neblina na doutrina. O dogma perde força, cedendo espaço para um pastoralismo de duas caras, e as agendas sociais, políticas e ambientais tomam a frente da verdadeira missão sobrenatural: a velha e boa salus animarum, ou seja, a salvação das almas.
A sabedoria de sempre da Igreja nunca engoliu essa história de a esposa de Cristo bater continência para poderes seculares ou ideologias da moda. São Pio X já tinha fechado a porta para o modernismo justamente por essa mania de tentar casar a Igreja com o espírito de sua época. O que assistimos hoje parece ser a mesma peça de teatro, só que com atores mais rápidos e cenário atualizado.
O velho e bom chamado à vigilância
No fim das contas, a autora pede que os católicos examinem essa história toda com uma lupa, antes que o cimento seque de vez. É difícil não concordar. Cabe a quem preserva o juízo e a fé fincar os pés no chão, rezar, estudar e apontar os erros com firmeza, mas sem perder a caridade. Não é uma questão de sair por aí desobedecendo, mas de manter uma lealdade que voa mais alto: à Igreja de todos os séculos, e não à moda passageira desta semana.
Aquela agenda de 2030 não vai salvar o mundo, podem apostar. O único remédio capaz de tal feito é a graça divina, entregue por meio de uma Igreja que não esquece sua missão do alto. Que esse aviso chegue aos ouvidos daqueles que ainda sabem que a verdade não se vende na feira, nem se atualiza com o calendário - ela simplesmente fica onde sempre esteve.