A encíclica Magnifica humanitas, que Leão XIV achou por bem assinar no dia 15 de maio de 2026 e lançar ao mundo no dia 25, estabelece um marco curioso. Ela eleva a um novo patamar aquela apostasia institucional que vem tomando conta das coisas por lá desde o Concílio Vaticano II. E não pensem que estou exagerando. Pela primeira vez na história, um documento desse calibre papal engole, sem o benefício de umas aspas ou de uma boa condenação, o coração de toda essa ideologia moderna. Eles adotaram de vez a expressão discriminação de gênero.
Se o leitor tiver a paciência de ir até o parágrafo 79, onde discorrem sobre a tal justiça social e as estruturas do pecado, encontrará uma lista das feridas do mundo que precisam de cura. Lá estão as guerras, o colonialismo, a discriminação racial ou de gênero, a violência contra os povos e a exploração. A palavra está lá, plantada no documento oficial em espanhol da Santa Sé. Não percam tempo culpando o tradutor. Foi uma escolha de dicionário muito bem calculada.
O que realmente significa adotar o termo gênero
Para qualquer um que ainda se lembre da velha doutrina católica, a diferença entre sexo - aquela realidade biológica que o Criador arranjou - e gênero - essa invenção cultural que as pessoas dão a si mesmas - é o autêntico cavalo de Troia para virar a humanidade de cabeça para baixo. As Sagradas Escrituras e a Tradição sempre tiveram o bom senso de falar em homem e mulher, lembrando o livro do Gênesis, e em masculino e feminino. Falaram de naturezas que Deus criou e botou em ordem. Nunca gastaram tinta com esse tal de gênero.
Até mesmo São João Paulo II, Bento XVI e o próprio Francisco, naqueles seus dias de maior clareza, trataram a ideologia de gênero como algo a ser mantido do lado de fora da porta. A Amoris laetitia, lá no número 56, pegou o termo com uma pinça de aspas e o condenou sem meias palavras. Faz pouco tempo, em 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé soltou a Declaração Dignitas infinita, dedicando uma parte inteira à violência contra as mulheres e fazendo questão de rejeitar a linguagem baseada no gênero. Pois bem, passados dois curtos anos, o mesmíssimo dicastério, comandado pelo mesmíssimo cardeal Fernández, nos apresenta uma encíclica que acha tudo isso muito normal. Um contraste desses não é o que se chama de evolução do idioma; é uma pura e simples contradição.
Leão XIV não é uma exceção, é a continuação do enredo
Sempre haverá os advogados de defesa prontos a dizer que o contexto era justo, que só queriam defender as mulheres e que o documento até menciona a dignidade do homem e da mulher. É uma desculpa que não para em pé. Nos velhos tempos, quando a Igreja queria falar de mulheres, ela dizia mulheres. Quando queria apontar um erro, usava aspas ou mandava a novidade passear. Botar o termo ali no meio, sem um cinto de segurança, é dar a ele uma certidão de nascimento no vocabulário da Igreja. Daqui em diante, qualquer teólogo de ideias novas, qualquer bispo progressista ou militante das causas modernas vai poder sacudir a Magnifica humanitas no ar para provar que a Igreja concorda com eles.
Nada disso causa espanto aos que já notaram a posição sedevacantista. Desde João XXIII e o Vaticano II, a Igreja que os olhos podem ver vem sendo ocupada por uma turma diferente, que acha melhor trocar os ensinamentos de sempre pelas conversas da moda. Tivemos Paulo VI com a Humanae vitae e a sua nova missa; João Paulo II com o ecumenismo e aquele encontro em Assis; Bento XVI tentando convencer a todos com a sua hermenêutica da continuidade; Francisco com a Amoris laetitia, a Fratelli tutti e a pachamama; e agora desembocamos em Leão XIV e seu genderismo com carimbo oficial.
A regra parece ser infalível: o papa novo nunca conserta a bagunça do anterior, ele apenas cava o buraco um pouco mais fundo. Essa debandada da fé não é um tropeço no escuro, é um sistema funcionando exatamente como planejado. E os frutos são previsíveis: uma visão pagã da humanidade, onde o corpo não passa de matéria-prima esperando para ser moldada pela vontade do freguês. É o avesso exato do que sempre se ensinou sobre a Criação, a Encarnação e a Redenção.
A hora de escolher de que lado da cerca você está
Essa tal Magnifica humanitas é só mais um papel que, em vez de acender a luz para o mundo, prefere apagar a Fé. Em vez de exaltar a nossa natureza salva por Cristo, levanta as mãos para o alto e se rende à ideologia que quer desmanchá-la. Quem ainda tiver um par de olhos funcionando, que faça o favor de usá-los. O tempo das ambiguidades e de ficar em cima do muro acabou. A escolha é bem clara: ou ficamos com a Fé inteira de sempre, ou abraçamos essa nova religião humanista, cheia de diálogo e inclusão, que tem um caminho muito bem pavimentado direto para o abismo.