quarta-feira, 22 de abril de 2026

† 22 Abril • S. Sotero e S. Caio, papas e mártires • A fidelidade pastoral e a coroa do martírio

📖 [LA] A Igreja celebra hoje a memória de dois ilustres pontífices dos primeiros séculos que regaram com seu próprio sangue as raízes da cristandade. São Sotero, natural de Fundi, na Campânia, governou a Igreja entre os anos 166 e 174, sucedendo ao Papa Santo Aniceto. Destacou-se por sua incansável caridade paterna, enviando auxílio generoso aos cristãos condenados às minas e combatendo vigorosamente a heresia montanista que começava a despontar, terminando sua vida terrena sob a perseguição do imperador Marco Aurélio. Mais de um século depois, São Caio, natural da Dalmácia e alegado parente do imperador Diocleciano, assumiu o pontificado de 283 a 296. Em tempos de trégua aparente que antecederam a terrível e grande perseguição, ele organizou meticulosamente as ordens eclesiásticas, estabelecendo a regra de que ninguém poderia ascender ao episcopado sem antes ter passado pelas ordens de ostiário, leitor, exorcista, acólito, subdiácono, diácono e presbítero. Ao fim de seu pontificado, para não abandonar suas ovelhas, refugiou-se por oito anos nas catacumbas para continuar guiando o rebanho secretamente, até ser descoberto e coroado com o martírio. Seus restos mortais foram depositados na célebre Catacumba de São Calisto, em Roma, o sagrado refúgio subterrâneo que abrigou as relíquias de tantos vigários de Cristo nos primórdios da fé.

🎵 Introito (Jo 21, 15-17 | Sl 29, 2)

Si díligis me, Simon Petre, pasce agnos meos, pasce oves meas. Allelúja, allelúja. Ps. Exaltábo te, Dómine, quóniam suscepísti me, nec delectásti inimícos meos super me. V. Gloria Patri.

Se tu me amas, Simão Pedro, apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Aleluia, aleluia. Sl. Eu Vos glorificarei, Senhor, porque me recebestes, e não permitistes que os meus inimigos se alegrassem à minha custa. V. Glória ao Pai.

📜 Epístola (I Pe 5, 1-4.10-11)

Caríssimos: Aos anciãos entre vós exorto eu, ancião como eles e testemunha dos padecimentos de Cristo, como também companheiro na glória que se há de manifestar. Apascentai o rebanho de Deus que vos está confiado; tende cuidado dele, não constrangidos, mas de bom grado, segundo Deus, não por amor de lucro vil, mas por dedicação, não como que exercendo domínio sobre os Eleitos, mas fazendo-vos de coração modelos do rebanho. Quando então aparecer o Supremo Pastor recebereis a coroa imarcessível da glória. O Deus de toda a graça, que no Cristo Jesus nos chamou para a sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, fortificará e consolidará. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

📖 Evangelho (Mt 16, 13-19)

Naquele tempo, veio Jesus para os lados de Cesareia de Filipe, e interrogou os seus discípulos: Na opinião dos homens quem é o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que Jeremias ou algum dos Profetas. Disse-lhes Jesus: E vós, quem julgais que eu sou? Tomando a palavra, Simão Pedro disse: Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo. E respondendo, Jesus disse: Bem-aventurado és tu, Simão Bar-Jonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus. E por isso te digo que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus. E tudo que ligares sobre a terra, será ligado nos céus; e tudo o que desligares sobre a terra, será desligado nos céus.

🐑 A fidelidade pastoral e a coroa do martírio

O Evangelho nos apresenta a confissão fundante de Simão Pedro: "Vós sois o Cristo, o Filho do Deus vivo". É sobre a rocha desta fé inabalável que o edifício espiritual da Igreja se ergue e resiste às intempéries da história. São Leão Magno, refletindo sobre esta passagem, ensina que a firmeza concedida a Pedro é transmitida aos seus sucessores, de modo que a Verdade proclamada não se corrompe com o tempo. São Sotero e São Caio encarnaram de maneira heroica esta rocha petrina. Como pontífices, eles não apenas guardaram o depósito da fé contra os assaltos das heresias - como o montanismo enfrentado por Sotero -, mas sustentaram o edifício da Igreja sob o peso esmagador das perseguições imperiais. O poder das chaves que receberam não foi exercido como um domínio temporal, mas como a autoridade espiritual de abrir as portas do Reino para os mártires que eles mesmos encorajavam, e que, por fim, se escancararam para eles quando entregaram o próprio sangue em testemunho de Cristo. A promessa de que "as portas do inferno não prevalecerão" cumpre-se perfeitamente quando os vigários de Cristo preferem a morte à apostasia.

Na Epístola, o próprio Apóstolo Pedro exorta os pastores a cuidarem do rebanho de Deus "não por amor de lucro vil, mas por dedicação". A história atesta que a caridade de São Sotero cruzou fronteiras para socorrer os cristãos submetidos a trabalhos forçados, e que São Caio suportou oito anos de confinamento nas catacumbas, privado da luz do sol, apenas para continuar administrando os Sacramentos ao seu rebanho assustado. Eles se tornaram, no dizer da escritura, "modelos do rebanho". Santo Agostinho nos recorda que o verdadeiro pastor se distingue do mercenário exatamente no momento do perigo; enquanto o mercenário foge ao ver o lobo, o bom pastor oferece sua vida. Estes santos papas não recuaram diante das garras do Império Romano, pois sabiam que os padecimentos temporais eram apenas um breve crisol, prometido por Deus para aperfeiçoá-los, fortificá-los e consolidá-los antes de receberem a "coroa imarcessível da glória".

A síntese profunda desta vocação nos é dada pela antífona do Introito: "Se tu me amas, Simão Pedro, apascenta as minhas ovelhas". Não existe pastoreio autêntico sem um amor radical ao Senhor. É este amor oblativo que transforma a cadeira de São Pedro em um altar de sacrifício. Sotero e Caio amaram a Cristo acima de suas próprias vidas e, por isso, foram dignos de apascentar o Seu rebanho nas horas mais escuras. O salmo da liturgia entoa o agradecimento do mártir que, mesmo tombando na terra, exalta o Senhor por ter sido recolhido na glória celestial, frustrando o triunfo aparente de seus inimigos. Ecoando os alegres "Aleluias" do tempo pascal, a Igreja nos convida a celebrar a vitória destes Sumos Pontífices, recordando que a força da fé cristã não repousa na tranquilidade do mundo, mas na fidelidade incondicional daquele que ama o Supremo Pastor até o fim.