† Terça-feira da Terceira Semana da Quaresma

A liturgia desta Terça-feira da Terceira Semana da Quaresma está profundamente ligada à sua estação estacional, realizada na Basílica de Santa Pudenciana, uma das mais antigas igrejas de Roma. A tradição relata que esta basílica foi erguida sobre a casa do senador romano Pudente, que teria hospedado o próprio Apóstolo São Pedro. Sendo um local que originalmente serviu de refúgio doméstico para a Igreja nascente, a liturgia do dia reflete o acolhimento, o perdão e a providência divina que sustentam a família de Deus. No período catecumenal e penitencial do Vetus Ordo, os fiéis que se preparavam para o Batismo e os penitentes públicos que aguardavam a reconciliação eram lembrados, nesta estação, de que a Igreja é a casa onde a misericórdia de Deus se derrama sem limites e onde as dívidas dos pecados são perdoadas. A escolha das leituras harmoniza-se com o ambiente de uma casa familiar - a casa da viúva no Antigo Testamento e a dinâmica do perdão entre irmãos no Novo Testamento - ensinando aos cristãos que, assim como Deus multiplicou a graça e perdoou abundantemente, os membros de Sua Igreja devem viver na caridade mútua, sustentados pela oração confiante e pelo perdão inesgotável.

📖 INTROITUS (Ps. 16, 6 et 8; Ps. ib., 1)

Ego clamávi, quóniam exaudísti me, Deus: inclína aurem tuam, et exáudi verba mea: custódi me, Dómine, ut pupíllam óculi: sub umbra alárum tuárum prótege me. Exáudi, Dómine, justítiam meam: inténde deprecatiónem meam. Glória Patri.

Eu clamei, porque me ouvistes, ó Deus: inclinai para mim o vosso ouvido, e ouvi as minhas palavras: guardai-me, Senhor, como a pupila do olho: protegei-me à sombra das vossas asas. Ouvi, ó Senhor, a minha justiça: atendei à minha súplica. Glória ao Pai.

📖 Epístola (4 Reis. 4, 1-7)

In diébus illis: Múlier quædam clamábat ad Eliséum Prophétam, dicens: Servus tuus vir meus mórtuus est, et tu nosti, quia servus tuus fuit timens Dóminum: et ecce, créditor venit, ut tollat duos fílios meos ad serviéndum sibi. Cui dixit Eliséus: Quid vis, ut fáciam tibi? Dic mihi, quid habes in domo tua? At illa respóndit: Non hábeo ancílla tua quidquam in domo mea, nisi parum ólei, quo ungar. Cui ait: Vade, pete mútuo ab ómnibus vicínis tuis vasa vácua non pauca. Et ingrédere, et claude óstium tuum, cum intrínsecus fúeris tu et fílii tui: et mitte inde in ómnia vasa hæc: et cum plena fúerint, tolles. Ivit itaque múlier, et clausit óstium super se et super fílios suos: illi offerébant vasa, et illa infundébat. Cumque plena fuíssent vasa, dixit ad fílium suum: Affer mihi adhuc vas. Et ille respóndit: Non hábeo. Stetítque óleum. Venit autem illa, et indicávit hómini Dei. Et ille: Vade, inquit, vende oleum, et redde creditóri tuo: tu autem et fílii tui vívite de réliquo.

Naqueles dias: Uma certa mulher clamou ao Profeta Eliseu, dizendo: Teu servo, meu marido, morreu, e tu sabes que o teu servo temia o Senhor: e eis que o credor veio para levar os meus dois filhos para o servirem. Eliseu disse-lhe: Que queres que eu te faça? Dize-me, que tens em tua casa? Ela respondeu: Tua serva não tem nada em casa, a não ser um pouco de azeite para me ungir. Ele disse-lhe: Vai, pede emprestadas a todos os teus vizinhos muitas vasilhas vazias. Entra, fecha a porta sobre ti e sobre os teus filhos; deita o azeite em todas essas vasilhas e, quando estiverem cheias, retira-as. A mulher foi-se, e fechou a porta sobre si e sobre os seus filhos: eles apresentavam-lhe as vasilhas, e ela as enchia. Estando as vasilhas cheias, ela disse a seu filho: Traze-me ainda uma vasilha. Ele respondeu: Não tenho mais. E o azeite parou. Então ela foi e o anunciou ao homem de Deus. E ele disse: Vai, vende o azeite, e paga ao teu credor; e tu e teus filhos vivei do resto.

📖 Evangelho (Mt. 18, 15-22)

In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis: Si peccáverit in te frater tuus, vade, et córripe eum inter te et ipsum solum. Si te audíerit, lucrátus eris fratrem tuum. Si autem te non audíerit, ádhibe tecum adhuc unum vel duos, ut in ore duórum vel trium téstium stet omne verbum. Quod si non audíerit eos: dic ecclésiæ. Si autem ecclésiam non audíerit: sit tibi sicut éthnicus et publicánus. Amen, dico vobis, quæcúmque alligavéritis super terram, erunt ligáta et in cœlo: et quæcúmque solvéritis super terram, erunt solúta et in cœlo. Iterum dico vobis, quia si duo ex vobis consénserint super terram, de omni re quamcúmque petíerint, fiet illis a Patre meo, qui in cœlis est. Ubi enim sunt duo vel tres congregáti in nómine meo, ibi sum in médio eórum. Tunc accédens Petrus ad eum, dixit: Dómine, quóties peccábit in me frater meus, et dimíttam ei? usque sépties? Dicit illi Jesus: Non dico tibi usque sépties, sed usque septuágies sépties.

Naquele tempo: Disse Jesus aos seus discípulos: Se o teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e ele só. Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão. Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo mais um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas se confirme toda a palavra. E se não os ouvir, dize-o à Igreja. E se não ouvir a Igreja, considera-o como um gentio e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado também no céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado também no céu. Digo-vos ainda que, se dois de vós concordarem sobre a terra, a respeito de qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e lhe perdoarei? Até sete vezes? Jesus disse-lhe: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.

🕊️ A ABUNDÂNCIA DA MISERICÓRDIA E O CLAMOR OUVIDO

O apelo do Intróito, "Eu clamei, porque me ouvistes, ó Deus: inclinai para mim o vosso ouvido", estabelece a premissa fundamental da oração cristã: a confiança absoluta na escuta atenta do Pai. No Evangelho de hoje, Nosso Senhor revela que essa mesma misericórdia infinita que exigimos de Deus para os nossos pecados deve ser o padrão com o qual tratamos as ofensas de nossos irmãos. Quando São Pedro pergunta sobre o limite do perdão, sugerindo sete vezes, Cristo eleva a medida à infinitude: "até setenta vezes sete". Não se trata de uma contagem matemática, mas da abolição de qualquer limite para a caridade. São João Crisóstomo ensina que Deus não exige de nós o perdão contínuo apenas para o benefício do ofensor, mas principalmente para a nossa própria salvação, pois Aquele que nos guarda como "a pupila do olho" e nos abriga "à sombra de Suas asas" condiciona a efusão de Sua graça à nossa disposição de esvaziar o coração de todo ressentimento. Se desejamos que o Senhor incline Seu ouvido ao nosso clamor, devemos inclinar o nosso coração ao perdão irrestrito ao próximo (São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, Homilia 61).

Essa dinâmica da graça inesgotável é vividamente prefigurada na Epístola, através do milagre operado pelo profeta Eliseu. A viúva endividada, que também "clamou" ao homem de Deus em seu desespero - espelhando a alma penitente do Intróito -, recebe a instrução de reunir vasilhas vazias. O azeite miraculoso flui abundantemente até que não haja mais vasos para preencher. Santo Agostinho interpreta essa passagem de maneira luminosa: o azeite é a caridade e a graça do Espírito Santo, enquanto as vasilhas vazias representam as almas que se esvaziaram do orgulho, do amor-próprio e das vaidades do mundo. Deus derrama Sua misericórdia sem cessar; o único limite para a recepção dessa graça somos nós mesmos, quando nossos corações estão cheios de apegos terrenos ou da amargura contra o próximo. O azeite só para de jorrar quando a viúva diz: "Não tenho mais" vasilhas vazias. Assim também, a salvação e o sustento da nossa vida espiritual dependem de mantermos nossa alma esvaziada de si para ser preenchida por Deus (Santo Agostinho, Sermões sobre o Antigo Testamento).

A sabedoria da liturgia une, de forma magistral, o vaso vazio da viúva e o coração indulgente do cristão. Perdoar "setenta vezes sete" é o ato contínuo de esvaziar nossas próprias vasilhas. Cada vez que libertamos um irmão de sua dívida para conosco, retiramos de nossa alma o veneno da mágoa, criando o espaço vazio necessário para que o óleo da graça divina transborde em nós. Protegidos sob a sombra das asas do Senhor, como canta o Intróito, reconhecemos que perante o tribunal divino somos todos devedores insolventes, assim como a viúva. Ao clamarmos por misericórdia, Deus nos atende não com uma medida calculada, mas com a abundância de Seu amor, desde que encontre em nós a mesma disposição amorosa de perdoar nossos irmãos sem contar as vezes, vivendo em comunhão profunda onde Cristo se faz presente no meio daqueles que se reúnem e se reconciliam em Seu Nome.