Neste 4º (quarto) Domingo depois da Epifania, a Sagrada Liturgia desvenda aos nossos olhos mais um raio fulgurante da manifestação divina do Verbo encarnado. Se outrora Ele Se revelou aos Magos por uma estrela e em Caná transformando a água em vinho, hoje o vemos exercendo Seu império absoluto sobre a fúria indomável da natureza. A barca de Pedro, sacudida pelas ondas violentas no Mar da Galileia, ergue-se como a imagem imortal da Santa Igreja Católica peregrinando pelas eras. Muitas vezes cercada pelo vendaval das heresias, pelas perseguições implacáveis e pelas aflições do século, a barca parece prestes a naufragar nas águas escuras. Contudo, a grande consolação que perpassa os séculos e ecoa desde o altar até o esplendor da Basílica de São Pedro em Roma, morada sagrada do Príncipe dos Apóstolos, é a certeza inabalável de que Cristo navega conosco. Ele permite a provação, deixa que o vento uive para provar a fibra de nossa alma, mas a Sua presença majestosa é a âncora da nossa salvação, conduzindo a história e os corações para o porto seguro da eternidade.
Olhai para o vasto mar deste mundo e contemplai a barca! Que contraste terrível se desenha diante de nossos olhos nos dias de hoje! O Evangelho nos lança no meio da tempestade, onde as ondas ameaçam engolir a frágil embarcação. Qual é, pergunto-vos, a verdadeira barca de salvação? Vemos erguer-se à nossa volta um simulacro ruidoso, uma assembleia de aparências que ostenta os antigos estandartes, que se apropria das palavras sagradas e ensaia sorrisos fraternos em reuniões onde o aplauso humano substitui a reverência adoradora. Ali, meus irmãos, o altar foi rebaixado à medida do palco terreno. Nessa imitação perversa, a criatura coroa a si mesma, banindo silenciosamente a majestade do Criador. A doutrina cristalina, que forjou legiões de mártires, derrete-se num sentimentalismo estéril; a fé viva degenera-se no mero conforto passageiro de pertencer a uma agremiação social. A cruz pesada, a mortificação da carne e o sacrifício redentor? Tudo isso é varrido para fora, pois o paladar adoecido do nosso século exige apenas o néctar das facilidades e o torpor de uma vida sem renúncias. Mas desviem os olhos dessa ilusão e voltem-se para a verdadeira Nau do Pescador! Esta não promete águas plácidas aos covardes, mas aponta o mastro rijo e firme para o céu, arrastando nossa alma para longe da poeira do mundo e lançando-a nos braços do Eterno. Como adverte o grande Bispo de Hipona (Doutor da Graça), quando o pânico toma conta de nós e as tentações rugem como ventos furiosos, é porque deixamos o Mestre adormecer no íntimo de nossa alma; adormecemos a nossa própria fé diante da Sua presença real e soberana. E por que a barca verdadeira jamais afunda? Porque ela é calafetada pela caridade autêntica, aquela que o Apóstolo São Paulo proclama aos Romanos. A caridade não é a simpatia mundana e rasa, mas a plenitude da Lei, a força divina que nos purifica, o amor que se imola pelo próximo porque vê nele o rastro do sangue do Redentor. Despertemos a Cristo em nossos corações! Lancemos fora a ilusão de um falso cristianismo amoldado à carne! Quando a Vontade onipotente do Verbo ecoa, as trevas recuam, as paixões se calam e a majestade de Deus impera, transformando o nosso pavor no grande milagre de uma perpétua bonança.
Introito - (Sl 96, 7-8; 1) Adoráte Deum, omnes Angeli ejus: audívit, et lætáta est Sion: et exsultavérunt fíliæ Judæ. ℣. Dóminus regnávit, exsúltet terra: læténtur ínsulæ multæ. ℣. Glória Patri...Adorai a Deus, todos os seus Anjos. Sião ouve e se alegra. Exultam as filhas de Judá. O Senhor é Rei: exulte a terra e alegrem-se as muitas ilhas.
Epístola (Rm 13, 8-10) - Fratres: Némini quidquam debeátis, nisi ut ínvicem diligátis: qui enim díligit próximum, legem implévit. Nam: Non adulterábis, Non occídes, Non furáberis, Non falsum testimónium dices, Non concupísces: et si quod est áliud mandátum, in hoc verbo instaurátur: Díliges próximum tuum sicut teípsum. Diléctio próximi malum non operátur. Plenitúdo ergo legis est diléctio.Irmãos: A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor mútuo; pois quem ama o próximo cumpriu a lei. Com efeito, os mandamentos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, não cobiçarás, e se há algum outro mandamento, todos eles se resumem nesta palavra: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor do próximo não faz o mal. Logo, a caridade é o complemento da lei.
Evangelho (Mt 8, 23-27) - In illo témpore: Ascendénte Jesu in navículam, secúti sunt eum discípuli ejus: et ecce, motus magnus factus est in mari, ita ut navícula operirétur flúctibus, ipse vero dormiébat. Et accessérunt ad eum discípuli ejus, et suscitavérunt eum, dicéntes: Dómine, salva nos, perímus. Et dicit eis Jesus: Quid tímidi estis, módicæ fídei? Tunc surgens, imperávit ventis et mari, et facta est tranquíllitas magna. Porro hómines miráti sunt, dicéntes: Qualis est hic, quia venti et mare obédiunt ei?Naquele tempo, tendo Jesus subido a uma barca, seus discípulos O seguiram. De repente, levantou-se no mar uma grande tempestade, de modo que as ondas cobriam a barca. Ele, porém, dormia e seus discípulos O acordaram, dizendo: Senhor, salvai-nos, que perecemos. Respondeu-lhes Jesus: Por que temeis, homens de pouca fé? Ao mesmo tempo, pôs-se Ele de pé e ordenou aos ventos e ao mar, seguindo-se uma grande bonança. Os homens, deveras admirados, diziam: Quem é Este, a quem os ventos e o mar obedecem?