Introito - Lex veritátis fuit in ore ejus, et iníquitas non est invénta in lábiis ejus: in pace et in æquitáte ambulávit mecum, et multos avértit ab iniquitáte. Ps. Atténdite, pópule meus, legem meam: inclináte aurem vestram in verba oris mei.A lei da verdade esteve em sua boca e a injustiça não foi encontrada em seus lábios. Em paz e com justiça caminhou a meu lado e a muitos desviou da maldade. Sl. Povo meu, escuta a minha lei, inclina os teus ouvidos às palavras de minha boca.
Herdeiro direto do ardente amor apostólico, São Irineu bebeu a pureza da fé nos lábios do venerável São Policarpo, que por sua vez reclinara os ouvidos aos ensinamentos de São João, o discípulo amado. Nascido no Oriente, este formidável arauto da verdade atravessou os mares para iluminar as terras da Gália, sendo elevado à dignidade de Bispo de Lião. Trazendo em seu próprio nome a promessa da paz - pois Irineu significa pacificador - ele não buscou a paz falsa das concessões ou dos conchavos seculares, mas aquela paz indestrutível que brota unicamente da submissão à verdade. Como sentinela vigilante do rebanho, brandiu a espada do intelecto e da Escritura contra o veneno gnóstico que tentava sufocar a Igreja primitiva, até selar sua lealdade com o próprio sangue na perseguição de Severo, por volta do ano 202. Seus preciosos restos mortais repousaram por séculos sob o altar da cripta da Igreja de Santo Irineu em Lião, até que a fúria dos hereges calvinistas os profanou e dispersou em 1562, provando que as trevas sempre odiarão a luz daquele que foi uma das mais imponentes colunas da antiguidade cristã.
"Virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina". Acaso, amados irmãos, o Apóstolo na Epístola de hoje não descreve com assombrosa exatidão a neblina letal que asfixia os nossos dias? Olhai ao vosso redor! Vede como a nossa época, embriagada pelo cântico das sereias do conforto e fascinada pelas glórias terrenas, tapou os ouvidos para a austeridade da Cruz. Assistimos atônitos a um tempo em que o espírito da lisonja conseguiu penetrar no próprio redil sagrado; há quem prefira mendigar os aplausos amigáveis das praças públicas a defender o depósito inalterável da Revelação. Empregam inovações imperceptíveis, discursos ambíguos e adaptações calculadas, tudo para não ofender as paixões de um mundo que abomina a penitência. Mas o que nos grita a liturgia rubra deste dia? A Providência Divina forja cada santo como um antídoto letal contra as moléstias de sua época. Quando a serpente do gnosticismo tentou desfigurar o rosto de Cristo com fábulas requintadas e heresias mascaradas de falsa caridade, São Irineu ergueu-se como um leão em defesa do altar! O sagrado Evangelho ribomba em nossas consciências: "Não tenhais medo dos que matam o corpo". Santo Agostinho nos ilumina magistralmente, ensinando que a verdadeira coragem é repousar nos braços de Deus, temendo apenas perder a graça Daquele que pode lançar a alma no fogo inextinguível. Que importa o julgamento humano, o escárnio da sociedade ou a perda de privilégios temporais, se os próprios cabelos de nossa cabeça estão contados pelo Soberano Juiz? Santo Ambrósio e São Gregório Magno nos recordam que a Sagrada Escritura é a bigorna onde a Igreja tempera suas armas para corrigir, admoestar e estraçalhar as falsidades dos que buscam mestres sob medida para os seus próprios vícios. Não nos enganemos: a negação de Cristo não ocorre apenas sob a lâmina do carrasco, mas também quando, por mísero respeito humano, calamos a verdade para não desagradar os poderosos deste século. Santo Hilário adverte que a confissão destemida na terra é o único selo que nos garantirá o reconhecimento na pátria celeste. Ao contemplardes o sacerdote oferecer a Hóstia imaculada, arrancai de vossas almas toda a tibieza! Renunciai às facilidades que amolecem o espírito. Abraçai a Escritura, armai-vos da Tradição e confessai o vosso Rei sem temor, para que, desprezando as fábulas modernas, possais triunfar com São Irineu na glória imperecível da eternidade.
Epístola (II Tm 3, 14-17; 4, 1-5) - Caríssimo: Persevera no que aprendeste e no que te foi confiado. Sabes de quem o aprendeste e desde a tua infância conheces as santas Escrituras que te podem instruir para a salvação no Cristo Jesus. Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça a fim de que o homem de Deus seja perfeito, pronto a toda a espécie de bem. Eu te conjuro, diante de Deus e Jesus Cristo que deve julgar os vivos e os mortos, por sua vinda e por seu Reino, prega a palavra, insiste, quer agrade, quer desagrade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas suplicarão para si, mestres, conforme os seus desejos, levados pela curiosidade de ouvir. E afastarão os ouvidos da verdade para os abrirem às fábulas. Tu, porém, vigia, trabalha em todas as coisas, faze a obra de um Evangelista, desempenha o teu ministério.
Evangelho (Mt 10, 28-33) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei, antes, Aquele que pode lançar ao inferno a alma e o corpo. Porventura não se vendem dois pardais por um vintém? E nem um deles caí em terra sem a vontade de vosso Pai. Quanto a vós os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo, pois valeis mais que muitos pássaros. Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus. Todo aquele porém que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.